Jonathan Andic tinha tudo: um império da moda em expansão, uma jovem e bela família e recursos para frequentar destinos exclusivos como a ensolarada Ibiza e a nevada St. Moritz.

Na terça-feira, ele foi preso em casa pela polícia espanhola e levado algemado para prestar depoimento sob suspeita de ter participado da misteriosa morte de seu pai bilionário.

Isak Andic, fundador da rede de moda Mango, morreu no fim de 2024 após cair mais de 90 metros em um desfiladeiro enquanto fazia trilha com o filho nas montanhas de Montserrat, perto de Barcelona.

O juiz responsável pela investigação agora acusa Jonathan, de 45 anos, de ser “criminalmente responsável” pela queda fatal de Isak, possivelmente motivado pela suspeita de que teria descoberto os planos do pai de mudar o testamento.

A equipe jurídica de Jonathan afirma que ele é inocente e que a acusação de homicídio não tem fundamento. Ele foi liberado sem denúncia formal após pagar fiança superior a US$ 1 milhão e concordar em se apresentar semanalmente a um juiz local. Também está proibido de deixar a Espanha.

Família rica da Espanha

A investigação colocou sob os holofotes uma das famílias mais ricas da Espanha e a relação entre um dos empresários mais celebrados do país e seu filho.

Primogênito entre três irmãos, Jonathan foi durante anos apontado como sucessor natural na Mango, rede que Isak transformou de uma única loja em Barcelona em uma gigante internacional do varejo de moda.

Após estudar nos Estados Unidos e concluir a faculdade de administração em sua cidade natal, Jonathan entrou no negócio da família em 2005, aos 24 anos. Dois anos depois, ajudou a lançar a divisão masculina da Mango.

O objetivo da linha masculina, disse Jonathan em raras declarações públicas, era “atender um homem que vê a moda como forma de comunicação e expressão pessoal”.

Em 2012, Jonathan foi nomeado um dos dois vice-presidentes executivos da companhia, abaixo apenas do pai, então presidente. Quando Isak decidiu reduzir sua participação na gestão em 2014, demonstrou confiança na capacidade do filho de assumir mais responsabilidades. Jonathan atuava praticamente como CEO da empresa e era “como uma gota d’água de mim mesmo”, disse Isak a jornalistas na época.

Mas, quando a Mango enfrentou dificuldades — incluindo o primeiro prejuízo de sua história —, Isak buscou ajuda fora da família. Ele promoveu Toni Ruiz, que havia entrado na empresa em 2015 como diretor financeiro, ao cargo de diretor-geral em 2018. Mais tarde, Ruiz virou CEO e recebeu uma participação de 5% no negócio.

As dificuldades desgastaram a relação entre Jonathan e Isak, que afastou o filho para retomar o controle da companhia, afirmou o juiz em relatório divulgado na terça-feira, citando testemunhas.

Isak Andic. Fotógrafo: Robert Marquardt/Getty Images

Adiantamento da herança

Dinheiro também teria sido um ponto de tensão. Em determinado momento, Jonathan pediu um adiantamento da herança — solicitação que Isak teria aceitado para preservar a relação entre os dois, segundo o relatório judicial.

Aspectos da relação de Jonathan com sua atual esposa, a influenciadora de moda Paula Navarro — incluindo o pedido de Isak para que o casal assinasse um acordo pré-nupcial a fim de proteger a fortuna da família — também teriam provocado atritos, segundo amigos do fundador da Mango.

Um porta-voz da família Andic negou que houvesse conflitos em torno do casamento de Jonathan com Navarro e afirmou que o casal mantinha uma relação próxima com Isak.

Figura conhecida nos círculos da moda catalã e dona de uma marca de joias, Navarro compartilhava frequentemente detalhes da vida do casal nas redes sociais, publicando imagens das férias de verão nas Ilhas Baleares e de viagens de esqui aos Alpes suíços.

Em meados de 2024, Jonathan descobriu que o pai pretendia alterar o testamento para criar uma fundação voltada a pessoas necessitadas, segundo o relatório do juiz, que cita mensagens de WhatsApp analisadas pela polícia. A partir daí, Jonathan teria tentado reaproximar-se do pai e sugerido uma trilha juntos para discutir as diferenças entre eles.

O relatório aponta diversas contradições nos depoimentos de Jonathan sobre o que aconteceu na montanha, incluindo se Isak usava ou não o celular no momento da queda. A polícia também concluiu que Jonathan visitou o local da morte do pai três vezes na semana anterior ao incidente — e não apenas uma vez, como havia afirmado.

No local, investigadores realizaram várias simulações de queda e precisaram esfregar repetidamente o sapato de Isak no chão para obter uma marca semelhante à encontrada no dia do incidente, segundo o relatório. “A ação teve de ser realizada deliberadamente, aplicando pressão contra o solo… tal marca não poderia ter sido produzida acidentalmente”, afirma o documento.

O relatório também cita a autópsia de Isak, segundo a qual ele caiu “como se tivesse descido por um escorregador, com os pés primeiro”, sem apresentar lesões nas palmas das mãos — o que descartaria um simples escorregão ou uma queda para frente.

Isak tinha 71 anos quando morreu e possuía fortuna estimada em cerca de US$ 4,5 bilhões.

Após sua morte, Jonathan tornou-se presidente da holding da família, herdada junto com as duas irmãs. Desde então, os três vêm tomando medidas para ampliar a fortuna, incluindo o registro de uma empresa de venture capital chamada Pikeville, segundo documentos regulatórios recentes.

Ao longo do último ano, Jonathan enfrentou sucessivos vazamentos da investigação policial sobre a morte do pai, incluindo relatos de que já era considerado suspeito pela polícia.

Ainda assim, sua prisão na terça-feira provocou choque na comunidade empresarial da Catalunha, que vinha defendendo a inocência do herdeiro da moda.

A notícia dominou as conversas em Barcelona, disseram empresários locais.

Um artigo publicado na quarta-feira pelo jornal La Vanguardia — pertencente a um amigo próximo de Isak — afirmou que a prisão de Jonathan deixa “um gosto amargo que nenhum creme dental ou enxaguante consegue remover”.

As acusações explosivas feitas pelo juiz na terça-feira devem ofuscar o que seria um momento feliz na vida pessoal de Jonathan.

Ele se casou com Navarro em uma cerimônia privada em setembro de 2024, e o casal teve o primeiro filho no fim do ano passado. Os planos para uma segunda celebração maior foram adiados indefinidamente após a morte de Isak.

Enquanto isso, a Mango distribuiu dividendos recordes recentemente.

Agora, Jonathan se prepara para um processo judicial que pode se arrastar por anos.

Com o sigilo da investigação suspenso, Jonathan e sua equipe jurídica terão a oportunidade de contestar as conclusões do inquérito e apresentar provas em sua defesa. Isso pode incluir pedidos para ouvir testemunhas favoráveis à sua versão.

O juiz decidirá então se apresentará denúncia formal contra Jonathan. Caso isso aconteça, ele enfrentará um julgamento por júri que pode durar meses.