No início deste mês, a empresa anunciou que Monteiro irá deixar o comando da maior empresa de energia elétrica do Brasil em abril do ano que vem, após o executivo liderar a mudança de uma ex-estatal em uma empresa com menos custos e mais focada em operações rentáveis em energias renováveis.
Foi sob seu comando que a antiga Eletrobras se desfez da maior parte de suas usinas termelétricas, o que, indiretamente, criou dois novos gigantes no setor: a Âmbar Energia, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, que comprou boa parte desse espólio da Axia, e a Eneva, controlada pelo BTG Pactual, que construiu um portfólio robusto de usinas movidas a gás natural diante do recuo das grandes elétricas brasileiras neste segmento.
A Axia, agora uma empresa sem controlador (uma “corporation“), busca mais rentabilidade e para isso avançou em alguns negócios. Em outubro do ano passado, no único leilão de transmissão do ano, foi a grande vencedora, arrematando dois lotes com R$ 1,6 bilhão em investimentos previstos para subestações em Minas Gerais e no Rio Grande do Norte.
Já no megaleilão de capacidade de reserva, em março deste ano, garantiu a ampliação da Usina Luiz Gonzaga, no rio São Francisco, em um projeto que prevê R$ 1 bilhão e a adição de 246,6 MW à hidrelétrica.
Ainda em 2026, a empresa pretende disputar dois leilões de transmissão e estuda participar do primeiro leilão de baterias da história do país. Além disso, ainda tem mais de R$ 20 bilhões em ativos que ainda podem ser vendidos, como já mostrou o InvestNews.
No início dessa agenda final, Monteiro esteve presente em um evento do grupo Esfera Brasil, no Guarujá, litoral paulista. Foi seu primeiro grande evento junto a políticos, empresários e outros agentes do setor financeiro após o anúncio de sua futura saída da Axia.
Oportunidade diante da crise
Nele, o executivo defendeu que o país saiba se vender melhor para atrair o que ele chama de “investimentos sofisticados”, que seriam aportes mais estratégicos, especialmente os voltados para a transição energética. É uma agenda que ganhou ainda mais força após o conflito que envolve Estados Unidos e Israel contra o Irã, que relembrou ao mundo que depender de petróleo e outros hidrocarbonetos pode sair mais caro em momentos de tensão.
“O que vivemos hoje é acordar com o Brent de uma forma e terminar o dia diferente. Se vão abrir o Estreito [de Ormuz] ou não. E qual o impacto disso? O preço do petróleo chega a US$ 104, um preço bem elevado. E sabemos qual a consequência disso”, disse Ivan Monteiro, durante um debate que reuniu outros especialistas do setor, entre eles Lino Cançado, CEO da Eneva.
Monteiro relembrou que ocorreu um roteiro parecido com a deflagração da guerra entre Rússia e Ucrânia em 2022, quando o petróleo e seus derivados testaram preços recordes, o que fez especialmente os países da Europa buscarem alternativas que não fossem o gás natural russo.
“Recentemente eu tomei um susto ao ler uma notícia de que a Alemanha estava fazendo um seminário de atração de investimento”, prosseguiu o CEO da Axia, indicando que a maior economia da Europa já entendeu o recado da instabilidade econômica que é depender do óleo.

Para Monteiro, o sinal dado pela Alemanha mostra que pode ser o momento de o Brasil dobrar a aposta com sua matriz de mais de 80% de energia renovável para buscar investidores ainda mais qualificados.
“O Brasil tem que ambicionar jogar a ‘Champions League’ [dos grandes investimentos]. É lá que o Brasil tem que estar”, disse. A Champions League, na metáfora dele, é a liga global da captação de capital privado de alta qualidade. “Nós competimos com a Inglaterra, com a Alemanha, com Singapura, com os Estados Unidos, com o Paraguai, com o Uruguai, com a Argentina.”
O argumento, costurado durante mais de uma hora de debate ao lado de executivos da Vale, da Eneva, da associação que representa as eólicas (Abeeólica) e do consultor Adriano Pires, foi sobre uma janela de oportunidade aberta pela crise global – e sobre o que o Brasil precisa fazer para não desperdiçá-la.
Nas maiores do Brasil
Embora tenha sido funcionário de carreira no Banco do Brasil entre 1983 e 2015, em que chegou a CFO (Chief Financial Officer), foi no setor de energia que Monteiro ganhou protagonismo.
Tímido e de perfil discreto, o executivo é apontado por reguladores, concorrentes e especialistas como um executivo correto, de bom trato e exemplar nas atitudes – um requisito considerado essencial para quem representa a maior empresa do setor.
Após cuidar da diretoria financeira da Petrobras depois do rombo provocado pelos escândalos de corrupção revelados pela Operação Lava Jato, o executivo assumiu o comando da maior empresa do Brasil em meio à greve dos caminhoneiros de 2018, após a renúncia de Pedro Parente.
O período na estatal lhe rendeu mais de 40 processos e um diagnóstico de burnout, quando o esgotamento profissional chega a ponto de causar depressão.
Depois disso, migrou de vez para a iniciativa privada, atuando como conselheiro em empresas como o IRB (Re), presidindo o conselho do Credit Suisse no Brasil e integrando o comitê de risco do Nubank. Em agosto de 2022, chegou para ser o chairman da Eletrobras poucos meses após a empresa ter sido privatizada.
Inicialmente, liderou o conselho da Eletrobras para, a partir de setembro de 2023, passar ao cargo de CEO da empresa, como sucessor de Wilson Ferreira Jr.: promoveu a transição de uma então ex-estatal para uma empresa alinhada com as práticas de mercado, seja no número de funcionários, em métricas de eficiência e na estratégia de investimentos.
O CEO relembrou que a Eletrobras chegou à privatização, em meados de 2022, com a capacidade de investir estrangulada havia quase uma década, herança da Medida Provisória (MP) 579 do governo de Dilma Rousseff, que em 2012 forçou a renovação antecipada das concessões em troca de tarifas mais baixas, e das travas fiscais que limitavam o endividamento da estatal.
Os investimentos caíram de R$ 11,4 bilhões em 2014 para algo entre R$ 2,5 bilhões e R$ 3 bilhões anuais no final do período estatal.
“O melhor resultado que a Axia conseguiu dentro do processo de privatização se refere aos números de investimentos totais da companhia. Antes, ela estava ‘proibida’ de participar dos leilões e agora passa a ser presença constante nos leilões de transmissão e de capacidade, levando nossos investimentos de R$ 3,5 bilhões para R$ 14 bilhões neste ano.”
Futuro
Perto de completar três anos no comando da Axia Energia – empresa que mudou de nome para se afastar os tempos de estatal –, Monteiro está em contagem regressiva para deixar a empresa. Pelo estatuto da companhia, a idade limite para diretores é de 65 anos.
Élio Wolff, atual VP responsável pela vertical de Estratégia e Desenvolvimento de Negócios, passará a ocupar no mês que vem uma vice-presidência executiva transitória, concentrando as áreas de engenharia, operações, comercialização, tecnologia, regulação e RH. As vice-presidências de finanças, jurídico e governança seguem reportando a Monteiro até abril de 2027.
Se passar no teste dos próximos dez meses, Wolff representará um perfil diferente para o comando da maior elétrica do país.
Executivo que atuou mais de duas décadas na francesa Engie, em que chegou ao posto de Global Head de M&A da matriz, em Paris, ele deverá guiar o bilionário capex da Axia para novas oportunidades de negócio, depois que a companhia que se desfez de uma série de ativos que já não faziam seu perfil.
São os casos da recente venda para a Âmbar de sua participação na Eletronuclear, responsável pelas usinas nucleares de Angra 1, Angra 2 e pela intrincada Angra 3, cuja conclusão é estimada pelo BNDES em quase R$ 24 bilhões.
Hoje, a Axia opera 81 usinas, todas renováveis: 47 hidrelétricas, 33 parques eólicos e uma usina solar. Soma 44,4 GW de capacidade instalada, o equivalente a 17% da geração nacional, e administra mais de 74 mil quilômetros de linhas de transmissão, 37% do Sistema Interligado Nacional (SIN).
O valor de mercado, que era de R$ 87,5 bilhões no dia da privatização, em junho de 2022, está hoje perto de R$ 160 bilhões.
E tudo isso com um desafio que está longe de ser trivial: garantir que uma gigante engrenagem continue a funcionar em meio a tantas mudanças na sua operação e no modelo de negócios.
“Na Axia, o ritmo tem que ser rápido, porque se falharmos em algo, vai faltar luz em algum lugar do Brasil. Então nossa responsabilidade é muito grande”, conclui Monteiro.
Procurado pelo InvestNews durante o evento do Esfera Brasil, Ivan Monteiro não concedeu entrevista.