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Vale a Leitura

Arriscando a própria pele!

Colunista ressalta o conceito do livro de Nassim Taleb sob a importância de arriscar a própria pele no mundo dos Negócios

Arriscando a Própria Pele: Assimetrias ocultas no cotidiano”, de Nassim Nicholas Taleb (Ed. Objetiva, 2018), é um livro fascinante que explora a importância de se ter algo em risco nas decisões que tomamos, em especial, nos negócios. 

O livro é uma crítica às pessoas que impõem riscos aos outros sem enfrentar as consequências, em contraste com aqueles que assumem riscos pessoais, como empreendedores e artesãos.

Quando as pessoas têm “a pele em jogo” (da expressão em inglês skin in the game, ou arriscar a própria pele), elas são mais propensas a tomar decisões responsáveis, pois qualquer erro as afetará diretamente. 

Quando as pessoas não enfrentam as consequências negativas de suas escolhas, isso pode levar a um comportamento irresponsável e a decisões ruins que prejudicam outras pessoas.

Há distinção entre fazer previsões e tomar decisões baseadas em riscos.

Nassim Nicholas Taleb é um renomado estatístico e filósofo libanês-americano conhecido por seus trabalhos sobre incerteza, probabilidade e riscos.

“Arriscando a Própria Pele” soa como uma metáfora para identificar a importância de considerar o risco numa escala temporal em vez de confiar cegamente em modelos estatísticos que podem não capturar a realidade da variabilidade das experiências.  

Argumentos avassaladores 

Taleb acredita que muitas previsões econômicas falham em não reconhecer que o comportamento e a experiência de um indivíduo ou de uma empresa ao longo do tempo podem ser drasticamente diferentes do comportamento do mercado. 

O autor defende que os mercados são dominados por incertezas e imprevisibilidades e que os modelos usados por economistas e analistas muitas vezes não capturam essas realidades, levando a previsões que podem ser perigosamente enganosas.

Da mesma forma, no mercado financeiro, o comportamento coletivo dos investidores pode levar a tendências de mercado estáveis e previsíveis, enquanto o comportamento de um único investidor pode ser muito mais volátil e sujeito a perdas significativas. Isso significa afirmar que as experiências de um indivíduo ao longo do tempo não necessariamente refletem o que acontece na média do conjunto

Em outras palavras, é importante avaliar os riscos individualmente e não apenas confiar na média ou no comportamento coletivo, pois isso pode levar a uma compreensão imprecisa dos riscos reais envolvidos.

Taleb argumenta que o conhecimento adquirido por meio da experiência direta, especialmente quando se tem algo em risco, é mais valioso do que o conhecimento obtido de maneira passiva ou teórica.

A ideia é que quando as pessoas têm pele em jogo”, ou seja, quando suas próprias vidas, reputações ou recursos financeiros estão em risco, elas tendem a tomar decisões mais ponderadas e responsáveis. Nessas situações, elas experimentam diretamente as consequências de suas ações e escolhas. 

O que significa arriscar a própria pele 

As ideias de Taleb são centradas em fundamentos essenciais: ergodicidade e simetria.

Ergodicidade é um conceito que, na prática, destaca a diferença entre o comportamento de um grupo ou mercado ao longo do tempo e os riscos individuais de um negócio. 

Já a simetria, para Taleb, é a correspondência entre as ações das pessoas e as consequências dessas ações. Cruciais, portanto, para um sistema justo e funcional.

Cassino para explicar ergodicidade

Existe uma diferença entre cem pessoas indo a um cassino e uma pessoa indo a um cassino cem vezes, ou seja, entre há diferença entre a probabilidade dependente do caminho e compreendida convencionalmente e o risco individual.  Pode-se perder, pode-se ganhar. E no fim do dia podemos inferir qual é a “margem” de risco baseado no comportamento de todos. 

Podemos calcular com segurança, a partir da nossa amostra, que, por exemplo, cerca de 1% dos apostadores perderá tudo. Assim o cassino avalia a probabilidade de perder. As probabilidades de sucesso de um grupo de pessoas não se aplicam para cada indivíduo. Em outras palavras, é importante avaliar os riscos individualmente e não apenas confiar na média ou no comportamento coletivo, pois isso pode levar a uma compreensão imprecisa dos riscos reais envolvidos.

Outra metáfora é a do formigueiro. O comportamento do formigueiro como um todo é diferente do comportamento de uma formiga individual. Da mesma forma, a média de profundidade de um rio não caracteriza o risco de áreas de profundidade maior, que podem ser perigosas. A média aumenta o risco de perder. Não confie suas decisões na média. 

Taleb, como o próprio princípio de vida exposto no livro, indica que não se deve “nunca atravessar um rio se ele tiver em média 1,20 metro de profundidade”. Outra boa dica do autor é  “nunca entrar no rio com os dois pés, mas pisar na água primeiro antes de entrar”. É uma maneira de dizer que devemos testar e entender os riscos em pequena escala antes de nos comprometermos totalmente, o que está alinhado com o conceito de ter “a pele em jogo” e assumir as consequências de nossas decisões. 

Simetria de arriscar a própria pele 

Taleb defende que a simetria é essencial para a integridade e a responsabilidade nas ações humanas. Ele introduz a ideia de que indivíduos e corporações devem ter “algo a perder” quando tomam decisões, ou seja, eles devem arriscar a própria pele. Isso cria uma simetria entre risco e recompensa, garantindo que as partes interessadas sejam diretamente afetadas pelos resultados de suas ações. 

O autor também aborda o conceito de “agir simétrico”, onde risco e consequência devem ser iguais em medida e proporção, sugerindo que aqueles que não se expõem aos riscos associados a certas condutas não deveriam se envolver na tomada de decisões. Essa abordagem é usada para criticar o que ele chama de “cientificismo”. Salvo raras exceções, para Taleb, essas pessoas são IPI (Intelectuais Porém Idiotas): pessoas que não colocam a pele em risco em seus estudos e confundem ciência e empirismo com uma avalanche de dados sem argumentos.

Quem arrisca a própria pele?

Produtos ou empresas que levam o nome do dono transmitem mensagens muito valiosas de arriscar a própria pele. Quando o nome do dono passa a ser o nome do produto, isso é um indicativo tanto de um comprometimento com a empresa como de confiança no produto.

Arriscar a própria pele significa, por exemplo, tomar decisões financeiras e sentir as consequências de suas escolhas, o que pode levar a decisões mais prudentes.

A ergodicidade nos lembra que o que é bom para a média de muitos pode não ser bom para o indivíduo ao longo do tempo. 

Decisões financeiras, como investimentos e apostas, devem levar em conta a possibilidade de trajetórias individuais, e não apenas a média estatística, para evitar resultados potencialmente desastrosos.

Qualquer um que tenha sobrevivido no negócio de assumir riscos por alguns anos tem alguma versão do nosso agora já conhecido princípio de que “para ter sucesso, você deve primeiro sobreviver”.

Faça o que digo e faça o que faço. Só confie em quem arrisca a própria pele nos negócios.  

Citamos aqui o belo exemplo de Taleb, quando participou de uma mesa-redonda com dois jornalistas mais o âncora do programa. O assunto do dia era a Microsoft. Todos, inclusive o âncora, deram seu pitaco sobre as ações da Microsoft. Quando chegou a vez de Taleb, ele disse: “Não tenho ações da Microsoft, não me beneficio de escassez de ações da Microsoft [isto é, me beneficiaria com seu declínio] e, por isso não posso falar a respeito”. 

Em outro entendimento: Não me diga o que você pensa, apenas me diga o que está em seu portfólio. 

Em seu livro, Taleb usa esse encontro com os jornalistas para dizer algo simples…. Em suas palavras: “Vi no rosto deles uma confusão incrível. Em geral, um jornalista não deveria falar sobre ações que ele possui ou muito menos falar de ações que nunca possuía— e, o que é pior, ele supostamente falar de algo que não colocou sua pele em risco”. 

É como falar sobre lugares que nunca visitou ou mal consegue encontrar em um mapa. 

O Jornalismo não deve ser fonte de assimetria. Mas apurar simetricamente as partes. Um jornalista deve ser um “juiz” imparcial . 

Existem duas formas de “vender o peixe”. 

Uma consiste em comprar uma ação porque você gosta dela, depois comentar sobre ela (assim revelando que a comprou) — o defensor mais confiável de um produto é seu usuário.

Gurus e influenciadores

“Seja crítico em relação a conselhos financeiros e modelos estatísticos. Lembre-se de que modelos são simplificações da realidade e podem não levar em conta a variabilidade das experiências individuais”, reforça Taleb.

Agora, quando você ler material escrito por professores de finanças, gurus do mercado financeiro fazendo recomendações de investimentos com base nos retornos de longo prazo do mercado, cuidado. Eles desconhecem os princípios da ergocidade e simetria ou sejam nunca colocaram sua pele em risco  

Intelectual Porém Idiota (IPI) 

Taleb cunhou essa expressão para definir aqueles que estão propensos a confundir o conjunto pela agregação linear de seus componentes — isto é, acham que a compreensão de indivíduos nos permite entender multidões e mercados.

O Intelectual Porém idiota (IPI) é um produto da modernidade, por isso tem proliferado desde pelo menos a metade do século XX, para alcançar hoje um supremo local, a ponto de estarmos cercados por pessoas que não arriscam a própria pele

O IPI estimula outras pessoas a fazer coisas que ele não entende, sem nunca perceber que é o entendimento dele que talvez seja limitado. 

Imagine um analista de investimentos que dá conselhos sobre ações para seus clientes. Ele pode falar eloquentemente sobre teorias de investimento, mas nunca investiu seu próprio dinheiro no mercado de ações. Essa assimetria ocorre quando alguém está disposto a dar conselhos sem nunca ter arriscado a própria pele.

Warren Buffet e o Intelectual Porém Idiota

Uma citação famosa de Warren Buffett que reflete sua visão sobre as recomendações de analistas de mercado que não arriscam a própria pele. Falam, mas desconhecem os riscos do que falam. “Wall Street é o único lugar onde as pessoas chegam em um Rolls-Royce para obter conselhos daqueles que pegam o metrô.” Essa citação destaca a ironia de investidores ricos buscando conselhos de analistas que podem não ser tão financeiramente bem-sucedidos quanto eles.

Buffett é conhecido por seu estilo de investimento baseado em valor e por tomar suas próprias decisões de investimento, muitas vezes contrárias às opiniões populares do mercado.

Assimetria

Nassim Taleb discute em seu livro que vivemos em um mundo de relações assimétricas, onde frequentemente uma parte tem mais informações ou conhecimento do que a outra. Por exemplo, o vendedor de carros usados tem mais informações sobre a condição do carro do que o comprador. Essa é uma assimetria de informação.

Taleb argumenta que as experiências que envolvem risco pessoal, ou “ter a pele em jogo”, podem ajudar a reduzir essas assimetrias. Quando as pessoas estão diretamente expostas às consequências de suas ações, elas tendem a agir de maneira mais responsável e ética.

A experiência de enfrentar as consequências diretas de suas ações promove uma maior transparência e confiança nas transações.

Decálogo de Taleb à luz de “Arriscando a própria pele” 

  • “A burocracia é uma construção pela qual uma pessoa é convenientemente separada das consequências de suas ações.”
  • A maldição da modernidade é que estamos cercados por uma classe de pessoas que são  melhores em explicar do que em fazer.
  • Evite ouvir conselhos de alguém cujo ganha-pão seja dar conselhos, a menos que haja uma penalidade para esses conselhos.
  • O fazedor vence fazendo, não convencendo. Somos muito melhores em fazer do que em entender.
  • O saber dos ofícios – a maioria das pessoas com quem nos deparamos na vida real – padeiros, sapateiros, encanadores, motoristas de táxi, contadores, consultores tributários, lixeiros, assistentes de dentistas, operadores de lava-jato – pagam um preço por seus erros.
  • Se você não corre riscos por sua opinião, você não é nada. As pessoas que não arriscam a própria pele não entendem a simplicidade.
  • Tudo o que é projetado por pessoas que não arriscam a própria pele tende a ficar cada dia mais complicado.
  • Não me diga o que você “pensa”; apenas me diga o que está em seu portfólio de experiências.
  • Aqueles que falam deveriam fazer e somente aqueles que fazem deveriam falar.
  • O que é seguro para um grupo em um determinado momento pode não ser seguro para um indivíduo que está exposto continuamente ao mesmo risco.

Aniquilador de assimetrias 

Concluo meus comentários com o senso de um profissional que já colocou a própria pele em risco como empreendedor, executivo e como conselheiro mentor, em que trago a experiência. Me tornei um aniquilador de assimetrias e analista com a visão da ergodicidade.

Recomendo vivamente a leitura de Arriscando a Própria Pele”. Este livro é uma leitura fascinante que explora a importância de ter algo em risco nas decisões que tomamos na vida e nos negócios.

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