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Economia

Barsi: ‘O Brasil é um país com uma bolsa rica e um mercado pobre’

O Rei da Bolsa pede aos pequenos investidores para agir como donos e manter a calma.

Aos 81 anos, Luiz Barsi Filho, maior investidor individual da Bolsa brasileira e conhecido por acumular uma fortuna de R$ 2 bilhões em dividendos, está aproveitando a quarentena para aumentar seu patrimônio. Com o coronavírus em alta, sua filha Louise Barsi, de 25 anos, deixou o pai sem o passatempo preferido. “Ele está proibido de andar de metrô”, brincou recentemente em uma live do “Ações Garantem o Futuro”, programa de formação de investidores.

Sem metrô e sem passeios, não restou outra opção para Barsi a não ser organizar antecipadamente as pechinchas do mercado financeiro.  “Estou na cela 261, que é o meu apartamento, mas reconheço que é um luxo. Lamento pelas pessoas que estão em quarentena nas favelas e têm que compartilhar um cômodo entre 5 ou 6 pessoas”, afirma um pouco aflito.

Desde que o mercado entrou em queda, o Rei da Bolsa, como é conhecido, afirmou que a crise era uma espécie de Black Friday, para comprar boas ações a preços convidativos. Contudo, Barsi reconhece que embora seja uma época de oportunidades, nunca existiu tanta incerteza.  “Nunca tivemos uma epidemia com tais impactos na economia. Este é um momento ideal para refletir e acompanhar os movimentos de mercado”, afirma ele, que está comprando de forma moderada, porém sempre de olho em papéis mais atrativos.

Para Barsi, os novos investidores não devem dar ouvidos aos especuladores que propagam que o mercado está decadente. “Eles se regozijam porque com 350 milhões de ações alugadas, a bolsa não tem capacidade de suportar a pressão”, defende. O governo atual também não agrada ao Rei da Bolsa, a quem culpa pela falta de mecanismos inteligentes para auxiliar o mercado financeiro.  “Temos uma democracia corporativista, com pequenos ditadores que comandam sem olhar para a vontade do povo.  O dia em que o Brasil se exorcizar, seremos um país importante”, aponta.

Enquanto espera as ações ficarem “ao ponto” da compra, Barsi falou com o InvestNews sobre como está potencializando seu patrimônio em tempos de coronavírus.

InvestNews – A Bolsa de Valores teve a maior queda entre os mercados globais e seis circuit breakers só este ano, abaixo dos 70 mil pontos. Existe um piso da Bolsa para o investidor entrar sem se machucar?

Luiz BarsiA bolsa não perdeu nada, quem perdeu foi o mercado. Não são as empresas que experimentaram perdas e sim as cotações delas. A Sabesp, por exemplo, continua trabalhando. Todos precisamos de água e banho, então a crise não afetou a empresa e sim a cotação.

Estamos vivendo uma forte pressão psicológica do mercado e das instituições financeiras que alocam ações prejudicando o desempenho. Os investidores já vivemos várias crises, recentemente com EUA, o vírus Lula e o vírus Dilma e tudo foi superado. Estamos em uma situação muito parecida com 2008, mas hoje estamos melhor, com resultados mais eficientes.

Os que sofrem as consequências econômicas neste cenário são os pequenos empreendedores. Grandes empresas já se prepararam para enfrentar a crise com os funcionários e continuar produzindo.

O senhor acredita que a B3 pode fechar?

O Brasil é um país que tem uma bolsa rica e um mercado pobre. A bolsa não abre mão dos dividendos, nem das taxas que cobra dos cidadãos, nem dos poderes que ostenta. Por isso, acho que a bolsa nunca vai fechar. A bolsa está vibrante, a B3 quer especuladores e não investidores, por isso vai deixar o “cassino” aberto para a jogatina continuar.

A Bolsa também legalizou o estelionato. Se você aluga uma casa, você pode vender esta? Então por que pode alugar uma ação e vender depois?

O senhor foi às compras. Quais foram os papéis escolhidos?

Sempre escolho as minhas ações olhando para os dividendos. Se eu for olhar o patrimônio, este pode derreter mais rápido que um sorvete. O importante é priorizar quanto este patrimônio pode render. Nestes dias, comprei algumas empresas novas que no passado estavam com um preço absurdo e hoje têm uma cotação atrativa para a distribuição de dividendos. É o caso da Cia Transmissão de Energia Elétrica Paulista (TRPL4), que antes custava cerca de R$ 90 e hoje está saindo por R$ 18. Outro papel com ótimos dividendos são as preferenciais do Banco Santander (SANB4).

Também comprei Klabin (KLBN4), ItaÚsa (ITSA4) que caiu muito e Banco do Brasil (BBAS3). Uma ação que eu não comprava, mas agora está na minha carteira é a Petrobras (PETR4), a empresa sofreu muito, mas depois chegou a níveis muito bons. Uma trajetória de oportunidade para compra e venda.

Está de olho em novas oportunidades de compra?

Agora estou robustecendo a carteira com papéis extremamente positivos. Estou torcendo por exemplo para que a AES TIETÊ (TIET11) chegue a R$ 8,90. Agora está em R$ 12, quando cair vou comprar.

Outro papel que está na mira é a Cemig (CMIG4). Acho que a Braskem (BRKM5) é uma boa alternativa, porque existe a possibilidade de as ações da companhia serem transformadas em ordinárias com o ingresso no Novo Mercado. Se isso ocorrer, a ação vai atingir novos patamares.

Como protege seu patrimônio frente à volatilidade?

Invisto em cinco setores: energia, saneamento, bancos, telecomunicações e seguros.

Em energia, tenho ações da Cemig (CMIG4), Cia Transmissão de Energia Elétrica Paulista (TRPL4), a AES TIETÊ (TIET11). Em bancos, compro muito Banco do Brasil (BBAS3) e Santander (SANB4).

Para seguros, eu prefiro a IRB Brasil (IRBR3), que apesar das quedas vão retornar com força. Em saneamento, compro moderadamente da Braskem (BRKM5). E em telecomunicações, tenho Telefônica Brasil (VIVT4), desde que as ações da companhia custavam 60 centavos. Também tenho uma quantidade pequena da Telmex, que adquiriu a Embratel. O que eu não compro de telecomunicações é Oi (OIBR3). A companhia não tem perspectivas.

O que são os papéis à prova de Barsi? E quais empresas integram a lista?

São os papéis que eu não compraria porque já sofreram muitas crises e não voltaram bem para o mercado. Eu nunca teria ações do setor de aviação, frigoríficos e turismo. São setores que não se sustentam e não têm administração independente. Recentemente, o governo proibiu as viagens e Azul (AZUL4) e GOL (GOLL4) tiveram péssimos desempenhos. Então, como vou comprar de um setor sem sustentabilidade para seus recursos?

Outro setor que pode incluir nessa lista é o varejo de eletrodomésticos, por exemplo Via Varejo (VVAR3). Já as Lojas Americanas (LAME4) ainda têm uma rede consolidada. Mas estas ações não são sustentáveis para a minha carteira.

Qual é a sua opinião dos fundos de investimento que também amarguraram perdas?

Um administrador de fundos cuida do recurso de terceiros, onde os papéis podem derreter e ele vai vender porque não é o dinheiro dele, provocando grandes perdas. Fundos são um atraso de vida, eles têm carteiras administradas por grandes organizações que têm muitos interesses. Não conheço nenhum fundo que rendeu os mesmos resultados do mercado. Invista na Bolsa no lugar de ter cotas.

Qual é o seu conselho para os pequenos investidores em tempos de crise?

Já fui um pequeno investidor há muitos anos. Este é o começo para eles se tornarem grandes investidores de mercado. Mas é importante que o pequeno investidor não se enxergue como um acionista minoritário e sim como um pequeno dono. E um dono nunca venderia sua participação na empresa. Tenham disciplina e paciência. Vocês devem vibrar nessa crise, é uma grande oportunidade de comprar boas ações a preços atrativos.

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