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Finanças

1ª mineradora de ouro na B3, Aura Minerals é apontada como refúgio na crise

Companhia pretende dobrar produção até 2024 e quer ser a melhor, mas não a maior, do setor de mineração.

Publicado

em

por

Katherine Rivas
Aura Minerals/Divulgação

Em tempos de juros baixos, dólar elevado e economias fragilizadas, um ativo listado recentemente na B3 tem sido visto como um investimento descorrelacionado e alternativa de proteção da carteira do investidor pessoa física em momentos de crise. É a Aura Minerals (AURA33), um BDR patrocinado (recibo de ação do exterior), que fez sua estreia na bolsa brasileira em julho de 2020.

Esta matéria faz parte da série Small Caps InvestNews, que a cada quarta-feira do mês de abril vai trazer um panorama sobre as ações de empresas com grande potencial de valorização na B3. Veja abaixo o cronograma das publicações:

A Aura é a primeira mineradora de ouro a ser listada na B3. A companhia surgiu no Canadá, onde também está listada desde 2006, na bolsa de Toronto (TSX), e em 2020 decidiu abrir capital no Brasil, por meio de um re-IPO inicialmente focado em investidores institucionais. Ou seja, grandes fundos de investimento.

Mas desde outubro de 2020, com a popularização dos BDRs na B3, o ativo também está disponível para pessoas físicas.

Em entrevista ao InvestNews, o CEO da Aura Minerals, Rodrigo Barbosa, explicou que após um longo processo de reestruturação, a companhia decidiu fazer uma nova oferta de ações para inaugurar seu ciclo de crescimento. Entre as alternativas, já figuravam Canadá, Estados Unidos e Londres. Mas o Brasil surgiu como uma oportunidade pela união de diversos fatores, entre eles:

  • Queda da Selic: com a baixa rentabilidade do CDI, muitos investidores migraram para a renda variável à procura de retornos melhores, o que favoreceu a estreia no mercado de capitais brasileiro.
  • Segurança do ouro: segundo Barbosa, na bolsa brasileira não existiam investimentos que ofereçam algo diferente ao investidor. “Não há um ativo que possa ir bem quando o Brasil vai mal”, aponta. Por isso, além de investir em ouro, a AURA33 permitia comprar um ativo com forte potencial de crescimento.
  • Empresa anticíclica: diferentemente de outros setores da bolsa, como mineradoras e siderúrgicas que dependem muito da China ou de companhias exportadoras, a Aura Minerals surgiu como um investimento anticíclico, oferecendo um hedge (proteção) para novos investidores.

Além destes fatores, pesou também o fato de que 50% das operações da Aura Minerals estão presentes no Brasil, o que deixou nítido o DNA dos acionistas.

O ditado de que “na crise é que surgem as oportunidades” caiu como luva para a companhia. Segundo Barbosa, em um cenário macroeconômico com o Brasil, bastante fragilizado e que ainda deve sentir os efeitos da pandemia por um bom tempo, há muito espaço para a Aura se consolidar entre os investidores.

Somada a isto, há também a incerteza com a economia global, com EUA injetando estímulos trilionários no mundo, cenário do qual só é possível esperar um endividamento histórico das nações, com inflação elevada e excesso de dólar circulando, acrescenta Barbosa. “Muitos investidores devem procurar se proteger destes efeitos macroeconômicos, o ouro vai disparar ainda mais e a Aura se beneficia”, explica.

O que a Aura Minerals faz?

A Aura Minerals tem quatro operações no continente americano, divididas em países da América Latina e América do Norte. A produção está dividida em ouro, que representa 77% da receita da empresa, e cobre, responsável por 23% dos ingressos.

Segundo Murilo Breder, analista da Easynvest, quatro minas já se encontram em operação:

  • Ernesto/Pau-a-Pique (Brasil)
  • Gold Road (Arizona, EUA)
  • Mina de San Andrés (Honduras)
  • Aranzazu (México). Além de produzir ouro, também extrai cobre.

Além destas operações, a companhia tem outros quatro projetos em andamento, frutos de aquisições, que pretende inserir produção até 2024:

  • Tolda Fria, na Colômbia
  • As minas de Almas, Matupá e São Francisco, no Brasil

Hoje, a onça de ouro é negociada no patamar de US$ 1.746. Segundo Breder, como a maioria dos ativos da Aura se encontram no Brasil, a maior parte dos custos da companhia são em reais, no entanto, a receita é dolarizada.

Por este motivo, o analista avalia um futuro promissor para a companhia, que já conta com uma dívida negativa e um caixa sólido. “Ela está caminhando para se tornar uma grande pagadora de dividendos a partir de 2022”, avalia.

Por que investir em Aura e não em ouro?

Para quem investe em Aura, o primeiro elemento para o investidor é a exposição ao ouro, conhecido porto seguro em tempos de crise.

Isso porque o ouro tem uma correlação negativa com a economia global. O que significa que quando o mundo está em crise e a incerteza aumenta, o preço do metal precioso sobe. Mas quando tudo vai bem, o metal tende a cair. Desta forma, ele é considerado um ativo de proteção em tempos de guerras, pandemias e catástrofes.

No entanto, Breder afirma que investir em AURA33 é muito mais vantajoso do que investir em ouro, por dois motivos:

  • Ganhos com a operação: o investidor tem uma exposição alavancada ao ouro, porque a Aura gera lucro, margem Ebitda (indicador de lucratividade operacional de uma empresa) e tem um custo de extração menor que o preço de venda da commodity. Em consequência, o investidor pode ganhar também com o crescimento da companhia.
  • Dividendos: AURA33 paga dividendos que o ouro não paga, além do preço da commodity oscilar pela oferta e demanda do mercado.

Segundo Breder, com a onça no patamar de US$ 1.746 atualmente, a companhia tem uma janela favorável para o crescimento e geração de caixa, que em consequência deve favorecer o pagamento de dividendos nos próximos anos.

De acordo com a política de distribuição de lucros da empresa, a AURA33 paga 20% do excedente de sua geração de caixa operacional sobre o Capex recorrente (Ebitda – Capex recorrente) em dividendos. Mas quando há excesso de caixa, o pagamento pode aumentar.

Após o resultado do 4º trimestre de 2020, por exemplo, a companhia anunciou a distribuição de US$ 60 milhões em dividendos, de US$ 0,83 por ação.

Mesmo se a onça recuar, Breder aponta que a companhia ainda será um ativo interessante, com valuation (preço justo de uma empresa considerando o retorno das ações) descontado. “No pior cenário, com a onça negociada a US$ 1282 (preço de 2017) vejo oportunidade”, reforça.

Aura x outras mineradoras

Apesar de ser a primeira mineradora de ouro listada na B3, existem outros players do mercado, entre eles a Vale (VALE3) e CSN Mineração (CMIN3), que trabalham no segmento, mas extraindo minério de ferro.

Segundo Max Bohm, analista da Empiricus, as principais diferenças da Aura frente a estes players são:

  • Exposição ao ouro: Aura é o único ativo da B3 que garante exposição à commodity.
  • Potencial de crescimento: enquanto outras mineradoras de ouro no mundo já são consolidadas e não há mais o que extrair, Aura Minerals ainda tem espaço para retirar ouro das minas. Se comparada com outros players, a companhia também tem muito espaço para crescer.
  • Aumento da capacidade produtiva: não quer ser a maior empresa de mineração do Brasil e sim, a melhor, segundo o CEO da companhia. Desta forma, ela espera ser uma mineradora de pequeno ou médio porte, mas com fortes ganhos na produtividade para elevar a vida útil das minas.
  • Assertiva na aquisição de ativos: como o objetivo não é crescer rápido, a companhia escolhe a dedo suas aquisições, de preferência que não comprometam o caixa ou gerem endividamento. Em consequência, destina uma boa parte dos lucros para dividendos.

O caminho até as 480 mil onças de ouro

Com 4 minas na ativa e outros 4 projetos em andamento, a Aura Minerals tem metas ambiciosas, como dobrar a produção até 2024, entregando até 480 mil onças por ano.

Em 2020, a companhia fechou com uma produção de 204 mil onças e, para 2021, a expectativa é chegar a produzir entre 250 mil e 290 mil onças.

Segundo o CEO Rodrigo Barbosa, o crescimento desta produção será uma combinação da operação atual, somada aos projetos greenfield (projetos prematuros). “Começaremos a construir a mina de Almas neste ano, com a meta de começar a gerar caixa no segundo semestre de 2022”, defende.

A mina localizada em Tocantins, terá um custo de execução de cerca de US$ 73 milhões, na expectativa de obter um retorno para a companhia na ordem de US$ 260 milhões. Um ganho bem expressivo, que fortalecerá o caixa para novos investimentos.

Para 2021, Barbosa explica que a Aura Minerals deve crescer puxada principalmente pela retomada de atividades paralisadas em 2020 por conta da covid-19. Além da expansão da mina Aranzazu, no México, e o aumento de produção na mina de Gold Road, em Arizona, EUA.

Em 2022, o planejamento da companhia é produzir entre 285 mil e 330 mil onças. Para isso, a Aura Minerals, começará a operar parcialmente na mina de Almas (Brasil), além de fortalecer a sua operação em Ernesto/Pau-a-Pique, também nacionalmente. Em 2022, a companhia também iniciará a construção de outra mina brasileira, a Matupá, localizada em Mato Grosso.

Para 2023, a expectativa é trabalhar com a operação em cheio na mina de Almas e parcialmente em Matupá.

Por último, em 2024, Barbosa aponta que planeja expandir as operações de Aranzazu (México) e Gold Road (Arizona, EUA). “Temos muito bem mapeado como chegaremos as 480 mil onças, com metas já estabelecidas”, defende o CEO da companhia.

Vantagens e riscos do investimento

Com uma estratégia de crescimento bem sólida e olhando o cenário macroeconômico dos próximos anos, os analistas consultados pela reportagem enxergam a empresa como oportunidade para o investidor a médio e longo prazo, de acordo com uma estratégia que busque se beneficiar pelo crescimento da companhia (small cap), além do pagamento de dividendos e proteção da carteira (ouro).

Segundo Max Bohm, da Empiricus, este é um ótimo momento para entrar na ação, de olho em resultados para os próximos dois anos. Ele recomenda a compra da AURA33, com preço-alvo de R$ 90.

“O preço do ouro está em um nível historicamente alto, não acredito que o dólar volte para abaixo de R$ 5 e os juros longos americanos (Treasuries) não devem apresentar altas superiores a 2%”, defende. O analista enxerga desta forma que o preço da onça deve ficar estável entre US$ 1.600 e US$ 1.700.

Entre as principais vantagens de investir em Aura Minerals, Bohm destaca a forte demanda por ouro no mundo, que além de reserva de valor ou uso na produção de joias, também serve como condutor elétrico não oxidável, importante na fabricação de aparelhos eletrônicos.

“Há uma demanda crescente por ouro e isso é muito positivo”, diz. Ele também cita como vantagem a receita dolarizada, que garante fortes ganhos frente ao real, e a eficiência produtiva da Aura Minerals, que consegue crescer de forma sólida sem afetar a geração de caixa e pagando dividendos.

Além destas vantagens, Breder, da Easynvest enxerga como oportunidade o valuation atrativo da companhia, que possui múltiplos (indicadores que representam informações financeiras da empresa) inferiores a média do setor.

Outros benefícios para o investidor seriam a diversificação de carteira, com um ativo exposto a operações em 4 países diferentes, além da possibilidade de ter um retorno em dividendos (dividend yield) de 5% ou mais a partir de 2020.

Breder também destaca, os indicadores fortes da companhia com fluxo de caixa operacional crescente desde 2017 e um endividamento baixo, com uma relação de dívida líquida/ebitda que não deve ultrapassar de 1x nos próximos anos.

O analista recomenda a compra do ativo, com preço-alvo de até R$ 82.

Os papéis também têm apresentando um sólido desempenho. Desde a sua estreia na B3, em julho de 2020, as ações da Aura Minerals (AURA33) saltaram 25,33%, enquanto o índice Small Caps (SMLL) valorizou 22,89%.

O volume diário de negociação dos papéis também experimentou evolução, segundo Breder a média de negociação nos 3 meses após o IPO foi de R$ 5,7 milhões, enquanto o volume médio negociado até 12 de abril foi de R$ 11,8 milhões. “A companhia vem melhorando sua liquidez”, diz o analista.

Já entre as desvantagens, os especialistas apontam a dificuldade de colocar em prática seu plano estratégico, com a meta de dobrar a produção até 2024. “Existe o risco de execução, embora a companhia venha apresentando sólidos resultados trimestrais”, defende Bohm.

Breder destaca a correlação negativa do investimento com as taxas de juros reais. Caso haja uma retomada global, pode pressionar o preço do ouro. Outro risco seria o geológico, embora o analista garanta que é menor pelo foco da companhia estar na exploração de minas já existentes.

Segundo o CEO da companhia, as metas são claras no longo prazo: além da ambição de ser a melhor companhia de mineração, com produção consistente e rentável, está entre os objetivos conquistar um espaço no coração do investidor pessoa física brasileiro, além de atrair investidores no Canadá e EUA. “Para isso, precisamos de um volume de negociação de US$ 15 milhões”, comenta.

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