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Finanças

CVM: acesso a BDRs abre caminho para novas listagens de empresas na B3

Em entrevista exclusiva ao InvestNews, superintendente do órgão explicou que a procura crescente do brasileiro por ações estrangeiras motivou a flexibilização do acesso.

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Katherine Rivas
Foto: Alex Cury

A percepção de que mais brasileiros passaram a abrir contas nos EUA para ter acesso a ações estrangeiras foi o que motivou a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a permitir o alcance do pequeno investidor aos BDRs (Brazilian Depositary Receipts) nível 1. A afirmação é do superintendente de desenvolvimento de mercado do órgão, Antonio Berwanger, em entrevista exclusiva ao InvestNews.

A mudança, que entra em vigor em 1º de setembro, permite que investidores não qualificados (com menos de R$ 1 milhão investidos) tenham mais acesso a papéis de empresas estrangeiras no Brasil, por meio destes recibos de ações listadas lá fora. A regra também amplia o acesso a fundos de índices (ETFs) e ações brasileiras. Até então, apenas investidores qualificados tinham acesso aos BRDs.

Segundo Berwanger, o pontapé da CVM para facilitar o processo partiu da necessidade de pessoas físicas internacionalizarem a carteira de investimentos, ficarem menos expostas a riscos cambiais no Brasil e fazerem tudo isso sem precisar sair do país. Foi efeito de um aumento exponencial nos últimos anos de pessoas físicas que buscam investir no exterior.

Embora os BDRs sejam apontados por muitos como um produto volátil, exposto a riscos, Berwanger diz estar tranquilo com o fato de que uma das exigências da CVM foi que os intermediários ofereçam produtos adequados para cada perfil, mostrando às pessoas os perigos da escolha.

O superintendente do órgão destaca que a maioria dos BDRs segue companhias reconhecidas e fortes no mercado internacional, negociadas nas maiores bolsas de valores do mundo, o que reduz a preocupação com impasses. Alguns exemplos são ações das gigantes Google, Netflix e Facebook. “O investidor naturalmente se interessa por ações mais conhecidas. Nos parece uma opção de investimento menos arriscada que algumas opções para não qualificados que ele encontraria no nosso mercado”, observa Berwanger.

Entenda abaixo os quatro pontos principais da nova regra dos BDRs nível 1, segundo a CVM:

  • Investidores não qualificados agora podem comprar BDRs de Nível I e também BDRs não patrocinados de grandes empresas negociadas nos EUA, tudo por meio da B3.
  • Empresas com operação no Brasil, mas que fizeram o seu IPO no exterior agora também podem emitir BDRs no Brasil com lastro nestas ações.
  • Outros valores mobiliários também podem ter lastro em BDRs, é o caso dos exchange-traded fund (ETFS), que são negociados no exterior. E também os títulos de dívida negociados lá fora agora podem ser lastreados por BDRs emitidos no Brasil.
  • Tanto os ETFs como títulos de dívida lastreados por BDRs agora podem ser feitos por companhias brasileiras registradas na CVM, que tenham valores negociados no exterior.

Ações brasileiras listadas em NY

Sem dúvida, uma das novidades que agradou o mercado é a possibilidade de poder investir por meio de BDRs em companhias que fizeram IPO lá fora. Entre elas, Stone, PagSeguro, Afya e Arco Educação. Berwanger explica que é inevitável que companhias brasileiras decidam abrir capital no exterior, por ser uma decisão econômica mais vantajosa. “Não existe medida regulatória que impeça isso”.

Contudo, defende que a nova regra para os BDRs tem por objetivo reter um pouco da liquidez nas negociações destas companhias aqui no Brasil. Desta forma, investidores brasileiros que têm um contato frequente com essas empresas utilizando seus produtos ou serviços agora podem também adquirir parte dessa oferta pública por meio dos BDRs.

Para o superintendente da CVM, a maioria das companhias brasileiras que fazem IPO no exterior são empresas com base tecnológica muito forte, mas que também consideram alguns fatores importantes. Um deles é o volume levantado no exterior ao fazer a abertura de capital, que tende a ser superior ao que teria no Brasil. Além disso, a empresa tem a chance de receber mais por suas ações e fica exposta a mercados que têm investidores mais sofisticados do que a bolsa brasileira.

“É claro que existem outros aspectos, como questões societárias. Mas, na maioria das empresas que acompanhamos, o que pesou na abertura de capital no exterior foram os múltiplos [instrumento que avalia quando uma ação está cara ou barata]”, explica Berwanger.

Mas com a mudança nos BDRs, agora é possível que a empresa que fez IPO no exterior possa fazer uma oferta no Brasil lastreando as suas ações emitidas. Para isso, existem duas alternativas:

  • A empresa faz seu IPO lá fora e reserva uma quantidade de ações para lastrear nos BDRs emitidos no Brasil. Tudo isso em uma oferta simultânea.
  • Se a empresa já fez IPO no exterior, pode fazer uma oferta secundária (follow on) para captar recursos no Brasil lastreando suas ações.
  • A exigência da CVM para ambas as situações que é a maior parte dos recursos da companhia seja destinada ao mercado exterior e apenas uma parte menor dessa liquidez seja destinada ao Brasil.

Além da novidade para os IPOs, outra questão que será implementada na regra dos BDRs é a possibilidade dos investidores brasileiros participarem das emissões de dívida em outros mercados.

Segundo Raphael Acácio, gerente de desenvolvimento de normas da CVM, quando se fala em IPO, as companhias ainda têm escolha de fazer isso no Brasil ou no exterior. Mas o cenário muda quando o assunto é o mercado de dívidas, que é mais forte lá fora. “Quando se fala em dívidas nem se questiona, a emissão sempre vai ser no exterior”, afirma.

Mas, com a nova regra da CVM, o investidor terá acesso também a este mercado lastreado em títulos soberanos do exterior (dívida pública), uma alternativa que não existia para a pessoa física no Brasil.

Riscos para o investidor

Com todas as novas alternativas para negociar no exterior, muitos investidores iniciantes podem se deixar levar pela emoção e esquecer que para comprar BDRs também é preciso fazer uma análise detalhista. Vale seguir o mesmo procedimento já utilizado para comprar ações brasileiras: analisar o desempenho da companhia, resultados, histórico e fundamentos.

Por este motivo, o entrevistado da CVM listou uma série de aspectos que devem ser lembrados antes de comprar BDRs. Desta forma, os investidores podem avaliar se estão confortáveis com os riscos. Porém, caso estes aspectos sejam uma limitação, talvez BDRs não sejam seu produto ideal. Veja abaixo:

  • BDRs são ativos transacionados no exterior, muitas vezes de um emissor estrangeiro e com ações negociadas lá fora.
  • Muitas informações fornecidas pelos emissores destas ações podem estar em um idioma diferente do português. Apesar das exigências de tradução da CVM, o investidor brasileiro nem sempre terá fácil acesso a dados da companhia ou dos pregões.
  • Existe o risco de variação cambial, que pode ser uma vantagem ou desvantagem. Muitas vezes, o BDR pode ter variação contrária ao real ou enquanto a ação se valoriza lá fora, o real pode desvalorizar.
  • O investidor também pode aproveitar esta variação cambial para se proteger da desvalorização do real.
  • Ao investir em BDR, você está comprando um ativo de uma companhia estrangeira inserida em um ambiente legal diferente. Como investidor, provavelmente você não terá os mesmos direitos que na legislação brasileira.

O investidor deve ser minucioso não apenas na análise de ativos de companhias estrangeiras. Segundo Raphael Acácio, superintendente Relações com Empresas (SEP) da CVM, estes mesmos cuidados prevalecem na hora de investir em BDRs de companhias brasileiras. “Apesar destas companhias terem sua atividade econômica presente no Brasil, a sede está em outra jurisdição e lá se submetem a uma legislação societária diferente”, adverte.

Em consequência, embora os riscos sejam menores que uma empresa 100% americana, por exemplo, por não estar produzindo em uma economia diferente, os riscos também são muito diferentes de uma ação brasileira. “O investidor não pode cair na armadilha de achar que está comprando uma empresa brasileira porque é uma marca que conhece aqui”, conclui Acácio.

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