Em depoimento perante o Comitê Bancário do Senado nesta terça-feira, 21, Warsh defendeu uma série de mudanças na forma como o banco central americano toma suas decisões. Entre as propostas, estão um novo modelo para lidar com a inflação persistente e uma nova estratégia de comunicação com o público. No entanto, ele evitou entrar em detalhes e esquivou-se de perguntas sobre o rumo dos juros no curto prazo.
Ele também insistiu que o presidente nunca pediu que ele se comprometesse com qualquer decisão específica sobre as taxas.
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“O presidente me indicou para o cargo, e serei um ator independente se for confirmado como presidente do Federal Reserve”, afirmou Warsh, respondendo ao questionamento de senadores democratas sobre como planeja lidar com a pressão de Trump.
Em sua fala de abertura, a senadora Elizabeth Warren, principal voz democrata no painel, afirmou que Warsh seria apenas um “fantoche” de Trump no Fed.
“Kevin Warsh usou o tom certo para tranquilizar seus apoiadores no comitê de que levará adiante sua ideia de ‘mudança de regime’ no Fed”, analisou Joseph Brusuelas, economista-chefe da RSM. “Ele não disse nada que prejudique sua aprovação, caso a indicação chegue ao plenário do Senado.”
No mercado financeiro, os títulos do Tesouro americano (Treasuries) caíram. Dados econômicos fortes e a alta nos preços do petróleo levaram investidores a reduzir as expectativas de cortes de juros, ofuscando o depoimento de Warsh. O título de dois anos, mais sensível à política monetária, subiu até sete pontos-base, atingindo 3,79%, enquanto o barril de petróleo bruto nos EUA voltou a ultrapassar a marca de US$ 90.
Mudanças na comunicação e estratégia
A sinalização de Warsh de que o Fed deve mudar práticas atuais ecoa o que ele defende em artigos e discursos desde que deixou o cargo de diretor do Fed em 2011. Algumas mudanças, como a frequência das coletivas de imprensa, podem ser decididas apenas pelo presidente do órgão. Outras exigiriam a cooperação dos demais 18 formuladores de política monetária.
Warsh já manifestou desaprovação quanto à frequência com que outros diretores falam publicamente, embora talvez não consiga mudar esse hábito. No entanto, propostas maiores, como a modificação ou o fim das projeções econômicas e de juros trimestrais (o famoso “gráfico de pontos”), podem encontrar apoio entre seus pares.
O teste de credibilidade
A capacidade de Warsh de agradar à Casa Branca sem perder a credibilidade no combate à inflação junto aos investidores era vista como o principal desafio do depoimento. Na manhã de terça-feira, Trump afirmou que ficaria decepcionado se Warsh não cortasse os juros assim que assumisse o cargo.
No início do depoimento, Warsh culpou o Fed por permitir que a inflação disparasse após a pandemia de Covid-19 e afirmou que a alta de preços continua sendo um problema para os americanos. Como solução, disse que o banco central precisa de um novo modelo para lidar com pressões persistentes de preços, mas não deu mais detalhes.
“Embora a inflação esteja menos problemática — no sentido de que o ritmo de subida dos preços é menos severo do que há alguns anos —, os americanos que trabalham duro sem dúvida a estão sentindo”, disse Warsh. “Acredito que isso exige uma mudança de regime na condução da política. Defendo um modelo de inflação novo e diferente.”
Pressionado pelo democrata Chris Van Hollen sobre se concordava com o pedido de Trump para baixar os juros para cerca de 1% ainda este ano, Warsh desconversou: “Ao contrário de muitos colegas do passado e do presente, não acredito em forward guidance (orientação futura). Não acho que deva antecipar para os senhores qual será uma decisão futura.”
Impasses
Warsh, que há tempos defende a redução do balanço de US$ 6,7 trilhões do Fed, afirmou que qualquer movimento nesse sentido levaria tempo e precisaria ser anunciado com antecedência.
O caminho para sua confirmação, porém, permanece incerto. Embora os republicanos do comitê o tenham elogiado, o senador Thom Tillis (Carolina do Norte) prometeu bloquear qualquer nomeação para o Fed até que uma investigação do Departamento de Justiça (DOJ) sobre o atual presidente, Jerome Powell, seja encerrada. A investigação envolve a reforma de um edifício e o depoimento de Powell ao Congresso sobre o projeto.
Tillis alega que a investigação tem motivação política. O impasse levanta a possibilidade de que Warsh não tome posse antes de 15 de maio, quando termina o mandato de Powell.
Warsh evitou responder perguntas sobre essa investigação ou sobre a tentativa de Trump de demitir a diretora do Fed, Lisa Cook. Por outro lado, um funcionário da Casa Branca informou que Trump não pretende recuar na investigação. Em entrevista à CNBC, o presidente insistiu que os investigadores precisam de respostas sobre o custo da reforma, que ele estima chegar a US$ 4 bilhões.
Quem é Warsh?
Kevin Warsh é um economista norte-americano e ex-dirigente do Federal Reserve, onde integrou o Conselho de Governadores entre 2006 e 2011, período marcado pela crise financeira global.
Ao longo da carreira, construiu a reputação de um formulador de política monetária mais duro no combate à inflação, frequentemente alertando para riscos de alta de preços quando outros dirigentes priorizavam o estímulo ao crescimento.
Também é conhecido por sua postura crítica em relação a grandes balanços dos bancos centrais, defendendo maior disciplina na gestão da liquidez e questionando programas prolongados de compra de ativos.
Assessor econômico de Donald Trump, Warsh passou a se alinhar mais recentemente ao presidente ao defender juros mais baixos, posição que contrasta com sua imagem histórica de “hawk” da inflação. Ainda assim, é visto por investidores como um nome ortodoxo, com credibilidade e respeito à independência do Fed, fatores que influenciam expectativas sobre juros, dólar e a condução da política monetária nos Estados Unidos.
Warsh, de 55 anos, já integrou o conselho diretor do banco central americano e, se for indicado e confirmado, sucederá Jerome Powell, cujo mandato termina em maio. Isso marcaria um retorno ao núcleo do poder monetário dos EUA, após ter sido preterido por Trump em 2017, quando o presidente escolheu Powell para comandar o Fed.