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‘Tigre Branco’: por que o filme da Netflix gera comparações entre Brasil e Índia

O destino de quem nasce pobre em um país emergente pode até ser especial como o nascimento de um tigre branco, mas não foge completamente do seu contexto.

Publicado

em

por

Breno Queiroz
White Tiger

No dia 22 de janeiro a Netflix fez o lançamento global do filme, “O Tigre Branco” (The White Tiger, em inglês), dirigido pelo americano de família iraniana Ramin Bahrani. Com enredo focado em contar a vida de um menino pobre em Laxmangarh, vilarejo no remoto interior da Índia, os críticos não demoraram em chamar o filme de o “Parasita indiano”, em referência ao longa-metragem coreano, vencedor do Oscar do ano passado.

Baseado no best-seller do New York Times, “O Tigre Branco” retrata a história de Balram, um jovem ambicioso que se torna motorista de uma rica família indiana e passa a questionar sua posição de servidão.

Se ainda existissem locadoras de filmes, essas duas produções poderiam se acomodar confortavelmente em uma prateleira de “enredos sobre matar patrão”, gênero em alta que faz o papel de criticar as diferenças de classe existentes em países em desenvolvimento.

Como declarou o diretor de Parasita, Bong Joon-Ho, justificando a repercussão mundial de uma obra que deveria ser apenas um retrato da cultura sul-coreana, “todos vivemos no mesmo país, e ele se chama capitalismo”.

Um paralelo no cinema brasileiro pode ser feito com o filme “Que Horas Ela Volta”, estrelado por Regina Casé, que retrata como o estigma da servidão permanece arraigado na sociedade brasileira até hoje. O filme mexicano “Roma”, que recebeu 10 indicações ao Oscar, segue a mesma temática.

“Parece até que a Netflix descobriu que o público gosta desse ‘plot'”, afirma Ananda Oliveira, professora de história e host do podcast “Fala Aí Nandu”, especializado em cinema indiano.

Segundo ela, o que a trouxe ao filme “Tigre Branco” foi a atriz, Priyanka Chopra, que faz o papel de Pinky, mas também assina como produtora. A mais bem paga figura de Bollywood, o complexo de entretenimento indiano, ajudou o filme a ampliar sua linguagem para públicos de outras culturas e religiões.

“No começo do filme há uma explicação sobre religião comparando os números de deuses do cristianismo, islã e a enormidade de entidades hindus”, lembra Oliveira. Para quem é fã de Bollywood, é como se o filme fosse filmado na Índia, mas não fosse feito para indianos.

Para quem só conhece os clichês, umas das explicações fundamentais do primeiro ato é sobre o sistema de castas e a servidão na Índia. Balram, personagem principal, e sua família são de uma casta subalterna no sistema hindu, vivem em terras de um senhor, como na idade média: parte do que produzem é paga como direito de uso da terra, e o que resta é o suficiente para viver com fome.

As desigualdades

Quando se compara o nível de desigualdade entre Brasil e Índia, apesar das possíveis semelhanças, é possível perceber que os dois países estão relativamente distantes no ranking internacional do Índice de Gini. Segundo dados atualizados pelo Banco Mundial, o Brasil aparece como mais desigual, na 9º posição entre as nações do mundo, marcando 0,539 no índice, enquanto a terra de Bollywood aparece como 75º, com 0,378.

O Índice de Gini é um instrumento para medir o grau de concentração de renda em determinado grupo, e é elogiado por estatísticos por remover algumas distorções, que, por exemplo, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) carrega. Ele varia de zero a um, sendo o valor mais baixo, mais próximo da igualdade; mais alto, mais longe.

A percepção da desigualdade no Brasil e na Índia é diferente. Tanto que Oliveira, mesmo conhecendo bem o assunto, afirma ser difícil traçar um paralelo entre o sistema de castas e o nosso período escravocrata, como se o primeiro causasse um imobilismo social inigualável.

“O sistema de castas existe desde que a Índia é a Índia, está muito arraigado na cultura”, explica. Apesar disso, ela acrescenta que o mesmo pode ser dito sobre a nossa história, que ainda carrega resquícios do regime de escravidão. Algo chama atenção quando os filmes conseguem passar uma percepção capaz de subestimar nossa própria realidade.

A corrupção

Mais do que com a desigualdade, propositalmente menos perceptível, o público brasileiro vai se identificar mais facilmente com outro conflito presente no filme.

Rafael Herzberg é um consultor em energia premiado, com trabalhos por toda América Latina para instituições e empresas. Em um setor de grande interesse público como o de energia, no qual contratos de milhões de reais viram um prato cheio para formação de monopólios e suborno de reguladores, o final do filme lhe saltou aos olhos.

Os pobres só têm duas formas de chegar ao topo: política ou crime“, afirma Herzberg, repetindo o discurso narrado por Balram em uma parte do filme.

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Sem spoilers. A história é movida com os flashbacks de Balram já empresário bem-sucedido, enquanto escreve para o primeiro ministro chinês, Wen Jiabao, sobre sua virada na vida, sua transformação de galinha em tigre, e o futuro dos “marrons e amarelos”, para no final, abrigar com grande ironia uma lição.

“Países emergentes buscando desenvolvimento acelerado, burocratizados, com grandes entraves políticos transformam pessoas inteligentes e com as melhores das intenções em criminosos”, conclui Herzberg.

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