A instituição recomprou ontem R$ 27,4 bilhões em títulos públicos já emitidos, sendo R$ 12 bilhões em prefixados e R$ 15 bilhões de papéis atrelados à inflação – a NTN-B ou, como é conhecida popularmente, Tesouro IPCA+.
O órgão realizou nesta terça-feira mais um leilão extraordinário, em que recomprou mais R$ 9,4 bilhões em títulos prefixados. As intervenções da segunda-feira e de hoje somadas alcançaram R$ 36,8 bilhões. A cifra equivale às vendas líquidas (vendas totais menos os resgates) do Tesouro Direto em todo o ano de 2025.
A atuação do Tesouro tem como objetivo dar liquidez ao mercado quando ele se torna disfuncional em momentos de instabilidade. Nesse contexto, o estresse vinha provocando uma disparada das taxas e queda dos preços dos títulos — a dinâmica típica da renda fixa.
Como resultado das recompras, as taxas que chegaram a superar 14,25% ao ano no caso do Tesouro Prefixado com vencimento em 2032 agora seguem em 13,75% ao ano.
O mesmo ocorre com outros títulos. No Tesouro IPCA+ com vencimento em 2032, a taxa caiu para 7,67% ao ano depois de se aproximar do nível histórico de 8% na semana passada.
Na ponta mais longa, a remuneração do Tesouro IPCA+ para 2050 caiu para 6,84% ante mais de 7% na sessão anterior. Para conferir todas as taxas e preços, bastar consultar o site do Tesouro Direto.
Ao recomprar papéis e, assim, injetar liquidez, o Tesouro ajudou a aliviar a pressão sobre o mercado. Com isso, investidores que viram seus saldos encolherem nos últimos dias passam a observar o movimento inverso: queda das taxas e alta dos preços.
O que a guerra do Irã tem a ver com o Tesouro?
A forte oscilação nos últimos dias ocorreu por causa das preocupações com a inflação global pelos conflitos no Oriente Médio. Isso porque as altas do petróleo, dos combustíveis e de vários insumos, como metais e fertilizantes, inflam os temores de um repique mais duradouro dos preços em todo o mundo.
Todos os títulos sofrem com essa volatilidade, mas o impacto sobre os vencimentos mais longos aumenta significativamente em momentos de estresse nos mercados. Isso acontece porque esses papéis são muito sensíveis a mudanças macroeconômicas e eventos geopolíticos que afetem as perspectivas de inflação e juros em prazos maiores.
Com a inflação de volta ao foco, os temores do mercado se voltam para a possibilidade de que os Bancos Centrais globais possam rever os rumos da política monetária em cada país.
Isso se torna especialmente importante porque amanhã o Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) toma sua decisão sobre os juros e pode sinalizar que pretende manter as taxas altas por mais tempo para conter a potencial contaminação da inflação sobre a economia. E o mesmo vale para o Brasil, já o BC também decide amanhã qual será a nova taxa Selic, hoje em 15% ao ano.
A volatilidade no mercado fruto das incertezas no cenário econômico global foi tão significativa que levou o Tesouro a acionar o mecanismo de “circuit breaker”, uma interrupção das negociações quando a autoridade identifica oscilações muito intensas nos títulos.
Esse mecanismo foi acionado por dois dias seguidos, tanto na sexta-feira quanto na sessão de ontem, quando a plataforma só voltou a funcionar após o leilão de recompra de títulos feito pelo Tesouro.