Quando o dólar cai para um patamar como o atual, abre uma janela de entrada. Para quem ainda não tem exposição à moeda americana, ou tem menos do que deveria, o recuo recente é um convite. Não necessariamente porque o dólar vai subir amanhã – ninguém sabe isso –, mas porque comprar uma proteção quando ela está mais barata faz parte de uma boa gestão de patrimônio.
Um parâmetro razoável, e amplamente usado por assessores de investimento, é manter o equivalente a cerca de 5% do portfólio em dólar. O percentual deve aumentar ou diminuir conforme o investidor tenha exposição a outras classes de ativos que oscilam de forma descorrelacionada entre si – como a bolsa de valores – para garantir uma boa diversificação. Ou seja, ativos que possam subir quando a bolsa cai, por exemplo.
Por que o dólar protege mesmo quando cai?
O real se valorizou quase 7% neste ano até este começo de abril. Parece ótimo. Mas essa força tem causas específicas e difíceis de dizer para onde vão diante do cenário geopolítico incerto.
A primeira delas é um fluxo intenso de capital estrangeiro para ativos locais.
Não só o mercado de câmbio vem capturando essa entrada de recursos como a própria bolsa brasileira também se beneficia: foram R$ 60,2 bilhões em ações em pouco mais de três meses de 2026.
É a chamada “rotação de portfólios”, em que investidores globais saem do mercado americano e migram para emergentes que oferecem potencial de ganhos mais altos.
Somado a isso, o diferencial de juros entre Brasil e EUA está em 11 pontos percentuais, o que torna o Brasil um destino atraente para o chamado carry trade: tomar dinheiro emprestado barato lá fora e aplicar aqui para ganhar com os juros altos.
O desafio? Todo esse equilíbrio é tênue.
Se o conflito no Oriente Médio se agravar de novo – o que é sempre possível, diante das idas e vindas nas hostilidades entre EUA e Irã –, o petróleo disparar e a inflação global sair do controle e do cenário base, os bancos centrais podem voltar a subir juros. A partir daí, esse fluxo de capital que sustenta o real pode ser revertido rapidamente, mesmo que no curto prazo.
O dólar também é estruturalmente mais resiliente do que o real em cenários de estresse global. Historicamente, em momentos de crise, o capital globalmente migra para ele, não o contrário. Ter uma parcela do portfólio em dólar significa estar menos exposto a essa vulnerabilidade.
A volatilidade cresceu. E isso importa
Desde o início do conflito entre EUA e Irã, em 28 de fevereiro, o câmbio ficou bem mais agitado. Em pouco mais de um mês, houve dez pregões com oscilação superior a 1% entre o dólar e o real — e em sete desses dias, a variação passou de 1,5%.
Para comparar: em fevereiro inteiro, antes da Guerra do Irã, apenas uma sessão terminou com variação um pouco acima de 1%.
O aumento da volatilidade reflete justamente um ambiente de muitas incertezas. Nesse cenário, manter uma parcela do portfólio em moeda forte ajuda a proteger a carteira. Por essa razão, aproveitar as janelas se torna uma oportunidade aos investidores.
No médio e no longo prazos, seu portfólio vai agradecer.
O que vem pela frente
A trégua atual não é uma solução definitiva. EUA e Irã ainda estão longe de um acordo duradoura, e qualquer novo aumento dos ataques pode mudar o cenário rapidamente.
Além disso, mesmo que a crise no Oriente Médio se dissipe, outra fonte de volatilidade já está no horizonte: as eleições brasileiras.
Historicamente, em anos eleitorais, abril costuma ser o mês em que o noticiário dos candidatos começa a se refletir nos preços dos ativos, entre bolsa, câmbio e juros. Com o conflito externo monopolizando as atenções, esse efeito foi adiado, mas não cancelado.