A semana começou com forte impulso para os mercados emergentes. Diante da trégua na guerra no Oriente Médio, anunciada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, os investidores reverteram a busca por proteção das últimas semanas e voltaram aos mercados considerados mais arriscados.

E esse vaivém nos leva a uma importante conclusão: a melhor estratégia nos investimentos é se antecipar – e saber esperar.

Como não se sabe até onde a guerra efetivamente vai, não dá para abandonar a combinação de ativos descorrelacionados entre si – já falamos a respeito nessa reportagem. E é nesse contexto que a bolsa continua como um investimento de grande potencial de novos ganhos daqui em diante.

É um movimento que pode ser feito de forma simples por meio de um ETF como o BOVA11, altamente líquido e que replica o desempenho do Ibovespa, o principal índice da bolsa – que hoje está entre os destaques positivos frente a todas as bolsas globais, com alta de 3,48% perto das 15h.

No mercado de câmbio, o dólar se desvaloriza 1,8% frente ao real. E o petróleo recua mais de 10% hoje, voltando a ser negociado na faixa dos US$ 100 o barril. A commodity chegou a cair abaixo desse patamar mais cedo.

A alta é generalizada: o ETF chamado iShares MSCI Emerging Markets (EEM), que replica o índice de bolsas de países emergentes, avança 2,25%. E o bom humor também puxa altas das bolsas americanas e europeias – que também são ativos de risco, afinal de contas.

A trégua nos conflitos no Oriente Médio não apaga o risco de que um novo estresse ressurja, mas retirou a pressão de curto prazo nos mercados. E esse ambiente mostra a relevância para o investidor de estar posicionado antes dos eventos acontecerem, para capturar a recuperação dos ativos assim que elas acontecerem.

Quem se apegou ao presente e aos picos de estresse do mercado com a escalada dos conflitos no Oriente Médio só colheu prejuízos. Nos últimos 30 dias, período em que a guerra ganhou mais força, o Ibovespa acumula perdas de 5%.

Mas quem analisa o cenário de forma mais ampla pôde notar que a bolsa local ainda conta com elementos que a colocam em bom momento.

Fluxo estrangeiro: o velho e o novo

O primeiro fator para mostrar como a alta do Ibovespa é resiliente é o comportamento dos investidores estrangeiros em meio à guerra ao longo desse mês. Diante da instabilidade global, as ações brasileiras e de pares internacionais são as primeiras a sentirem o choque da busca por investimentos mais seguros.

Mas a verdade é que isso não mudou a rota dos recursos externos de forma relevante: em março, até o dia 19, o saldo entre compras e vendas de ações pelos estrangeiros está positivo em R$ 6,8 bilhões. Quer dizer, eles mais compraram do que venderam – e muito. E isso vale para o ano: R$ 49 bilhões foram injetados liquidamente na bolsa, acima de tudo que entrou em 2025.

O capital estrangeiro que vem para ações via bolsa em um ambiente como o atual tem fortes características especulativas, o que o torna bastante sensível a choques. Mas a atual percepção dos alocadores globais de que os emergentes têm mais a oferecer em diversificação para além dos ativos americanos, sobretudo por estarem relativamente mais baratos, continua no jogo.

E, agora, um novo componente pode levar a bolsa a mudar estruturalmente de patamar: as ofertas iniciais e subsequentes, que jogam novas ações na bolsa. No começo do mês, a Cosan apresentou um pedido de registro para um IPO da Compass Gás e Energia, dona da Comgás. Na fila, ainda há a expectativa para o lançamento de novos papéis da Copasa, BRK Ambiental e Aegea.

Se esse movimento de reabertura do mercado de capitais se confirmar, ele traz um tipo diferente de capital estrangeiro para a bolsa, menos sujeito ao vaivém imediato e mais ligado a decisões de alocação estratégica.

Ao contrário do fluxo típico do mercado secundário, mais líquido e sensível ao humor global, os recursos que entram via IPOs e follow-ons tendem a carregar um horizonte mais longo, ainda que parcialmente ancorado em estruturas como períodos de “lock-up” (prazos em que os investidores ficam impedidos de vender as ações) e compromissos institucionais.

Naturalmente, não dá para precisar o tempo em que os recursos permanecerão investidos ou qual a estratégia dos investidores que entram no negócio, mas é um capital que chega com menor propensão à saída rápida.

Se esse vetor ganhar força, pode ajudar a sustentar um novo patamar para o Ibovespa, menos dependente do fluxo tático e mais apoiado em decisões de investimento de prazo mais estendido.

No fim das contas, quem tenta correr atrás do mercado quase sempre chega atrasado. Os ganhadores são aqueles que já estavam posicionados – e que tiveram paciência o bastante para investir.