O da B3? Dá um pouco menos de US$ 1 trilhão.
Ou seja: se apenas 1% do valor das bolsas americanas migrasse para o Brasil nos próximos meses, a bolsa brasileira subiria 70%, com o Ibovespa passando de 300 mil pontos – um absurdo comparado aos 178.720 do fechamento de segunda-feira (26).
É isso. A enxurrada de investimento estrangeiro que chegou por aqui nas últimas semanas, fazendo o Ibovespa subir firmes 11% no ano, é só uma gota na piscina do mercado americano. Mas uma gota que enche bem o nosso copinho.
Não se trata, então, de uma “fuga em massa dos EUA” rumo a portos como o nosso. A euforia de janeiro retrata a assimetria dos mercados globais: para um mercado pequeno, basta uma migração mínima de capital dos Estados Unidos para provocar movimentos de grande porte.
Mas essa é uma boa notícia para quem investe, por motivos óbvios.
Numa realidade em que qualquer movimento de lá para cá faz a diferença, o fato é que fluxo estrangeiro segue forte. A quantidade de dinheiro de fora que chegou à B3 em janeiro já equivale 60% de tudo o que entrou ao longo de 2024.
Até agora, são R$ 15,8 bilhões direcionados ao mercado local – um volume que ajuda a explicar a força recente dos preços na bolsa. Mas que, de novo, representa pouco lá fora. Em dólares, estamos falando em US$ 3 bilhões, o equivalente a 0,06% do valor de mercado da Nvidia. Significa o seguinte: se todo o dinheiro que chegou de fora tivesse saído da capitalização da empresa mais valiosa dos EUA, isso nem arranharia o valor de mercado dela.
A comparação com os nossos pares
O Brasil não está sozinho na rota das migalhas estrangeiras. Outros mercados emergentes também vêm se beneficiando, e alguns deles apresentam desempenhos até superiores ao nosso em determinados períodos. Nos últimos 12 meses, as bolsa do Chile e da Colômbia sobem mais de 80% em dólar, contra 56,3% da nossa.
A coisa muda um pouco de figura quando a comparação é feita com o grupo dos emergentes como um todo. Aí o mercado brasileiro se destaca.
Um bom termômetro é o iShares MSCI Emerging Markets, principal ETF que reúne ações de 24 países emergentes. O fundo acumula uma alta um pouco mais modesta que a do Ibovespa: 36,7%.
O cansaço do S&P 500
Essa procura por emergentes não surgiu do nada, lógico. Ela tem relação direta com os sinais de cansaço que começam a aparecer no mercado americano. Entre 2023 e 2025, o S&P 500 acumulou alta de 78%, impulsionado em grande parte pelas “Sete Magníficas” – Nvidia, Apple, Meta, Alphabet, Amazon, Microsoft e Tesla.
O septeto concentra a atenção do mercado global há anos. Com a disparada nos preços, porém, cresceu o debate sobre até que ponto algumas essas ações já não andaram demais. O valor de mercado da Tesla, por exemplo, equivalente a 300 anos de seu lucro anual. O da Toyota, maior montadora do mundo, só 10 vezes. Uma das duas talvez esteja cara demais. E provavelmente não é a japonesa.
Nesse contexto de valuations fora de órbita na bolsa americana, é normal que grandes investidores decidam vender um pedaço do que têm nas carteiras, embolsar os ganhos que já acumularam e, claro, procurar alternativas.
É aí que os mercados emergentes entram. É o tal rebalanceamento de carteiras, um movimento que claramente está em curso.
A conta em dólar reforça essa leitura. Em 2025, o ganho da bolsa brasileira em moeda americana se aproximou de 50%, enquanto o S&P 500 avançou 13%. Para o investidor estrangeiro, esse diferencial é decisivo. Ao converter seus dólares em reais para comprar ações brasileiras, o retorno foi significativamente maior, dada a valorização da moeda brasileira sobre a americana.
E o mecanismo se retroalimenta. À medida que o desempenho relativo melhora, mais capital entra, reforçando o fluxo, valorizando o real e sustentando novas altas da nossa bolsa em dólar. Em um mercado pequeno como o brasileiro, esse efeito acaba amplificado – e é exatamente essa dinâmica que ajuda a explicar por que movimentos modestos lá fora têm um impacto tão grande por aqui.
A ver até onde isso vai. Ou se já foi.