Quem tem debêntures ou Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) da Raízen está correndo o risco de ver uma nova onda de desvalorização dos seus papéis caso a companhia não consiga apresentar uma solução rápida e convincente para sua deterioração financeira.

Até aqui, a situação operacional e a incerteza sobre a companhia já provocou um desconto significativo nos títulos, ao redor de 60%. Vale tanto para debêntures com vencimentos entre 2029 a 2039, quanto para CRAs com vencimentos entre 2026 e 2037, mapeados a partir de dados da Anbima.

Um investidor que comprou uma debênture da Raízen com vencimento em setembro de 2034 por cerca de R$ 1.093, por exemplo, hoje vê esse mesmo papel sendo negociado no mercado por aproximadamente R$ 466. Isso representa uma queda de cerca de 57% no preço.

Em termos práticos: se o investidor decidir vender o título agora, é esse valor que ele deve receber.

Em outro caso, um CRA com vencimento em junho de 2030, cujo valor de referência é R$ 1.413, hoje é negociado perto de R$ 501 – um deságio de aproximadamente 64%.

Se o título for carregado até o vencimento e a empresa conseguir honrar seus compromissos, o valor pode ser recuperado ao longo do tempo. Mas esse movimento no mercado secundário – ambiente em que os títulos “trocam de mão” entre investidores por meio de corretoras e plataformas – mostra o tamanho da reprecificação dos papéis diante da realidade cada vez mais difícil da companhia.

A Raízen tem R$ 6,2 bilhões em debêntures distribuídas no Brasil e outros R$ 6,67 bilhões em CRAs, segundo dados do balanço mais recente da empresa. As debêntures estão nas mãos de grandes fundos de investimento, enquanto os CRAs estão principalmente em posse de investidores de varejo.

Gestores e analistas ouvidos pelo InvestNews avaliam que, sem uma solução para manter a empresa de pé, haverá um período de estresse relevante no mercado como um todo, ainda que não na mesma magnitude observada nos casos da Americanas e da Light.

Em um cenário de recuperação judicial, a dinâmica tende a seguir alguns canais clássicos de transmissão no mercado de crédito. Primeiro, ocorre a “marcação a mercado” imediata dos títulos. Isso quer dizer que, com a incerteza sobre prazos e condições de pagamento, investidores passam a embutir um valor de recuperação menor, pressionando ainda mais os preços para baixo.

Em seguida, vêm os efeitos sobre fundos de crédito privado que detêm esses papéis. A queda no valor dos ativos reduz o patrimônio dos fundos e leva a um aumento nos pedidos de resgate por parte de cotistas.

Em um contexto desse, para honrar as saídas, os gestores são obrigados a vender outros ativos da carteira, muitas vezes em um ambiente de liquidez reduzida. Isso amplia a abertura de spreads (as taxas de remuneração) também em emissores sem relação direta com a empresa.

Há ainda o impacto sobre a precificação de risco setorial. Empresas com perfil de alavancagem semelhante ou inseridas no mesmo segmento tendem a ver seus títulos negociados com prêmio adicional, ainda que seus fundamentos não tenham mudado.

O contágio pode se estender também às novas emissões. Em um ambiente de incerteza, investidores exigem taxas mais elevadas para participar de ofertas primárias. É o que encarece o custo de capital corporativo e reduz a demanda por operações estruturadas.

Foi exatamente o que aconteceu em particular no primeiro semestre de 2023, após a revelação das inconsistências contábeis da Americanas e o subsequente pedido de recuperação judicial. A abertura abrupta de spreads levou a uma queda generalizada nos preços de debêntures no mercado secundário. Fundos de renda fixa registraram desempenho abaixo do CDI e enfrentaram resgates, em um movimento que reforçou a pressão sobre a liquidez.

Meses depois no mesmo ano, a situação da Light voltou a gerar tensão no mercado. A incerteza sobre a capacidade de reestruturação da dívida manteve investidores em posição defensiva, prolongando o ambiente de spreads elevados e seletividade nas emissões no mercado de crédito.