Um valor aproximado de R$ 13 bilhões em títulos de dívida da Raízen pode sofrer uma nova rodada de perda de valor caso a companhia não consiga apresentar uma solução convincente para sua deterioração financeira, com elevada alavancagem. E, mais do que um problema restrito aos seus credores diretos, há risco de contaminação do mercado de crédito, dada a presença relevante desses papéis nas carteiras de fundos locais.

A Raízen tem R$ 6,2 bilhões em debêntures distribuídas no Brasil e outros R$ 6,67 bilhões em Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), segundo dados do balanço mais recente da empresa. As debêntures estão nas mãos de grandes fundos de investimento, enquanto os CRAs estão principalmente em posse de investidores de varejo.

Com os desafios do cenário operacional e a incerteza sobre se haverá injeção de recursos para a companhia honrar seus passivos, esses títulos passaram a ser negociados com descontos significativos no mercado secundário, ao redor de 60%. Vale tanto para debêntures com vencimentos entre 2029 a 2039 quanto para CRAs com vencimentos entre 2026 e 2037, conforme dados da Anbima.

O que acontece é uma reprecificação de risco. Investidores exigem um “prêmio” maior para financiar a empresa e isso se traduz em elevação das taxas de remuneração no mercado secundário – ambiente em que os títulos “trocam de mão” entre investidores por meio de corretoras e plataformas. Em renda fixa, a relação é inversa: quando as taxas sobem, os preços dos ativos caem.

Gestores e analistas ouvidos pelo InvestNews avaliam que um eventual pedido de recuperação judicial teria impacto amplo sobre o mercado ao acentuar a desvalorização dos títulos, ainda que não na mesma magnitude observada nos casos da Americanas e da Light. Na avaliação dos interlocutores, R$ 13 bilhões em instrumentos distribuídos são suficientes para gerar um período de estresse relevante.

Em um cenário de recuperação judicial, a dinâmica tende a seguir alguns canais clássicos de transmissão no mercado de crédito. Primeiro, ocorre a “marcação a mercado” imediata dos títulos. Isso quer dizer que, com a incerteza sobre prazos e condições de pagamento, investidores passam a embutir um valor de recuperação menor, pressionando ainda mais os preços para baixo.

Em seguida, vêm os efeitos sobre fundos de crédito privado que detêm esses papéis. A queda no valor dos ativos reduz o patrimônio dos fundos e leva a um aumento nos pedidos de resgate por parte de cotistas.

Em um contexto desse, para honrar as saídas, os gestores são obrigados a vender outros ativos da carteira, muitas vezes em um ambiente de liquidez reduzida. Isso amplia a abertura de spreads (as taxas de remuneração) também em emissores sem relação direta com a empresa.

Há ainda o impacto sobre a precificação de risco setorial. Empresas com perfil de alavancagem semelhante ou inseridas no mesmo segmento tendem a ver seus títulos negociados com prêmio adicional, ainda que seus fundamentos não tenham mudado.

O contágio pode se estender também às novas emissões. Em um ambiente de incerteza, investidores exigem taxas mais elevadas para participar de ofertas primárias. É o que encarece o custo de capital corporativo e reduz a demanda por operações estruturadas.

Foi exatamente o que aconteceu em particular no primeiro semestre de 2023, após a revelação das inconsistências contábeis da Americanas e o subsequente pedido de recuperação judicial. A abertura abrupta de spreads levou a uma queda generalizada nos preços de debêntures no mercado secundário. Fundos de renda fixa registraram desempenho abaixo do CDI e enfrentaram resgates, em um movimento que reforçou a pressão sobre a liquidez.

Meses depois no mesmo ano, a situação da Light voltou a gerar tensão no mercado. A incerteza sobre a capacidade de reestruturação da dívida manteve investidores em posição defensiva, prolongando o ambiente de spreads elevados e seletividade nas emissões no mercado de crédito.