Até 2023, a Amil era vista pelo mercado como um negócio combalido, pressionado por dívida e com perspectivas limitadas de retomada. O cenário começou a mudar após a aquisição feita por Júnior no final daquele ano, quando pagou R$ 11 bilhões pelo negócio, marcando a saída da americana UnitedHealth do controle da empresa.
Dois anos após a troca de dono, a Amil superou a marca de 6 milhões de beneficiários — número que inclui clientes dos planos médicos e odontológicos — e fez um verdadeiro “rouba-monte” sobre os concorrentes. A operadora de Júnior ganhou 874 mil novos clientes até novembro, ficou à frente da Bradesco Saúde e ultrapassou a SulAmérica, assumindo a terceira posição entre as maiores operadoras do país. No saldo (entre novos clientes e cancelamentos) do período, foi a Porto Saúde quem teve a maior ganho percentual.
Mas não foi só a posição da companhia da Rede D’Or que a Amil passou a ameaçar. Em relatório publicado neste mês, o BTG Pactual analisou dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e apontou um retrato ainda mais direto da disputa: em novembro, enquanto a Hapvida — dona da maior carteira de clientes do país — perdeu 18 mil beneficiários, a Amil avançou sobretudo em São Paulo e no Rio de Janeiro, justamente os mercados que mais contribuíram para o crescimento da operadora.
Altos e baixos
O avanço da Amil veio, sobretudo, dos produtos regionais e do plano de entrada da operadora, chamado de categoria bronze, com preços mais competitivos.
Trata-se justamente do segmento em que a Hapvida sempre foi mais forte, no momento em que a empresa da família Pinheiro atravessa um verdadeiro inferno astral: integração mais complexa da NotreDame Intermédica, custos operacionais ainda elevados e maior necessidade de investimento em hospitais. O quadro inclui troca de executivos no alto comando e uma queda expressiva das ações, de 57% em 12 meses.
Na outra ponta, a nova direção da Amil redesenhou a estratégia comercial. A operadora simplificou o portfólio, criando três grandes categorias de planos – ouro, prata e bronze, sendo esta última o “carro-chefe das vendas”, nas palavras do CEO Renato Manso, que assumiu o comando da empresa no início de 2024.

Manso voltou à Amil como aposta de Júnior para liderar a recuperação do negócio. O executivo construiu carreira na companhia nas décadas em que Edson de Godoy Bueno, fundador da operadora, presidia a companhia.
Crescimento
O CEO diz que o crescimento foi puxado principalmente pelos segmentos PME (pequenas e médias empresas) e coletivo por adesão. Segundo a Amil, 80% das vendas em 2025 vieram dessa nova grade de produtos redesenhada pela gestão. Estimativas de mercado indicam que a receita da empresa somou cerca de R$ 32 bilhões no ano passado.
A Amil foi a operadora que mais cresceu no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Brasília, alcançando a liderança no mercado carioca e a vice-liderança no paulista, segundo informações prestadas pela empresa ao InvestNews. Pelos cálculos da própria operadora, entre janeiro e novembro de 2025, a expansão foi de 13%, contra 2% na média do setor.
O avanço, segundo o CEO Renato Manso, está ligado ao novo modelo de controle desenvolvido pelo time responsável pelos cálculos de risco e precificação dos planos, além da redução nos cancelamentos. Na comparação dos dados da ANS entre novembro de 2024 e novembro de 2025, houve queda de 34% nos cancelamentos. “Em 2025 tivemos também os melhores indicadores de retenção”, diz o executivo.
Manso atribui a melhora dos resultados a uma combinação de medidas voltadas à gestão dos custos médicos: revisão de preços, renegociação com hospitais, novos modelos de contrato com prestadores, priorização de parceiros de referência e um “programa robusto de controle de fraude”.
A sinistralidade – o indicador que mede os custos médicos em relação à receita – caiu de 95% no fim de 2023, antes da troca de controlador, para 87% no ano passado. A perspectiva agora é levar o indicador para 80% em 2026, de acordo com a gestão da Amil. “A safra nova de vendas vem apresentando um sinistro controlado, o que reforça que nossa disciplina de precificação está correta”, acrescenta Manso.
“A Amil está crescendo ao tomar clientes da Hapvida, que oferece um serviço pior e opera com um modelo extremamente austero de custos. Mas a estrutura da Amil se parece muito mais com a da SulAmérica do que com a da Hapvida”, diz um gestor ouvido pelo InvestNews.
“A empresa ficou estagnada por mais de uma década. Minha leitura é que, em um ano, esse ritmo deve desacelerar e a sinistralidade tende a subir de forma relevante.”
O copo meio vazio
Mas a virada da Amil não veio sem custo. Logo após a venda da operadora, no fim de 2023, a empresa passou a ser alvo de denúncias de cancelamento unilateral de milhares de contratos de planos coletivos por adesão — muitos deles envolvendo crianças autistas, idosos e pacientes com doenças raras. Os episódios motivaram protestos na sede da companhia, em São Paulo, e deixaram uma cicatriz reputacional na transição de controle.
Ainda assim, a atual gestão sustenta que o endurecimento no controle dos custos médicos e a revisão dos preços por produto foram essenciais para recompor o equilíbrio econômico da carteira – e que essa estratégia acabou se impondo sobre o desgaste inicial provocado pela redução de coberturas.
Outro ponto de atenção é que o crescimento acelerado de beneficiários tende a produzir um efeito positivo temporário nos números. Parte relevante dos novos clientes ainda está em período de carência. Na prática, isso significa que a receita cresce mais rápido do que as despesas, já que muitos usuários ainda não utilizam plenamente os serviços.
A dúvida é o que acontece quando essa conta começar a virar.
Geradora de dividendos
De acordo com os dados da ANS, a companhia reportou de janeiro a setembro de 2025 um lucro líquido de R$ 2,5 bilhões, bem distante do prejuízo de R$ 4 bilhões que havia registrado em 2023, quando foi arrematada por Júnior.
Desde então, ele já tirou R$ 1,2 bilhão em dividendos, mais da metade do que ele teve que pagar para comprar a Amil, dos R$ 11 bilhões da aquisição, R$ 2 bilhões foram em desembolso e outros R$ 9 bilhões em assunção de dívida.
Fundada em 1978 pelo médico Edson de Godoy Bueno, a Amil cresceu a partir de Duque de Caxias (RJ) para se tornar uma das maiores operadoras de planos de saúde do Brasil. Em 2012, foi vendida para a UnitedHealth por cerca de R$ 10 bilhões. No fim de 2023, os americanos venderam o negócio para Júnior, que já tinha se aventurado no mundo da saúde fundando a Qualicorp, da qual não é mais acionista.

A melhora do resultado líquido, porém, não vem exclusivamente do resultado operacional. Grande parte tem a ver com o resultado patrimonial, que somou R$ 1,9 bilhão, que contempla um ajuste contábil referente à criação da Rede Americas — a joint venture de hospitais entre Amil e Dasa, também da família Bueno. Sob a Rede Americas estão 25 hospitais e mais de 4 mil leitos, incluindo bandeiras conhecidas como Santa Paula, Leforte e 9 de Julho, em São Paulo.
A boa fase da Amil já gera expectativas na Faria Lima para um IPO. Com o desempenho operacional, banqueiros apostam que a operadora pode ser um dos nomes a tentar uma abertura de capital quando o mercado estiver favorável.
A Amil foi listada de 2007 a 2012, ano em que foi vendida para a United. “Com conselho e estrutura de governança, é uma empresa preparadíssima para fazer o IPO”, diz um outro gestor ouvido pela reportagem. Os cálculos de mercado são de que a Amil vale, atualmente, R$ 15 bilhões.