O terceiro maior produtor mundial de celulose está planejando um investimento recorde de mais de US$ 3 bilhões neste ano e cerca de US$ 2 bilhões no próximo ano, disse em entrevista o diretor financeiro Gianfranco Truffello, na segunda-feira (16). A maior parte do montante será destinada à conclusão da planta Sucuriú, no Brasil.
Antes do aumento da produção da fábrica em 2028, Truffello conta com o fato de que as agências de classificação de risco de crédito vão olhar além do aumento do endividamento e se concentrar no subsequente salto da produção, que elevará a participação da Arauco no mercado aberto de celulose de fibra curta para cerca de 10%.
E, caso os preços da celulose decepcionem nesse meio tempo, a Arauco tem opções para manter seu grau de investimento, incluindo a venda de ativos e o apoio de sua controladora Empresas Copec, com forte capacidade financeira e controlada pela família bilionária Angelini.
“Temos um conjunto de medidas de contingência que podemos implementar, se necessário”, disse Truffello. “O projeto está progredindo dentro do cronograma e do orçamento, e temos ferramentas para manter a alavancagem sob controle”.
O projeto Sucuriú, de US$ 4,6 bilhões, no estado de Mato Grosso do Sul, fez com que a Arauco quase dobrasse sua dívida líquida para 5,15 vezes o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (EBITDA) no ano passado. Com a empresa queimando caixa, a Standard & Poor’s Global Ratings colocou a Arauco em observação negativa em novembro, o primeiro passo para um possível rebaixamento de um nível para grau especulativo.
Anjo Caído
A disputa para evitar o status de “anjo caído” — quando a empresa perde o grau de investimento e tem sua classificação de crédito rebaixada — antes que a fábrica impulsione a receita está se desenrolando enquanto os preços da celulose permanecem baixos, em meio à incerteza sobre se os fabricantes de papel chineses conseguirão elevar seus próprios preços o suficiente para manter margens..
“A estrutura de capital deles não era tão sólida quando iniciaram o projeto e agora está pior do que projetávamos inicialmente, dada a situação do setor”, disse Rodolfo Schmauk, analista da Fitch. “Se permanecerem, por um período mais longo, com alavancagem acima de cinco vezes, isso pode ser um sinal para um rebaixamento mais rápido”.
A Fitch classifica a Arauco como BBB, dois níveis acima do grau especulativo, embora tenha colocado a empresa em revisão negativa em outubro de 2024. A agência espera publicar um novo relatório sobre a empresa neste ano, disse Schmauk.
Para evitar a queda para o nível “junk” (especulativo), a Arauco vendeu US$ 840 milhões em títulos de dívida híbridos em 2025. Normalmente, metade do dinheiro captado com essas operações é contabilizada como patrimônio, limitando o aumento do endividamento e aliviando a pressão sobre a classificação de risco.
Mas os preços da celulose não estão ajudando. O preço médio caiu mais de 15% desde a máxima em maio de 2024 até o final do ano passado, um dos motivos pelos quais o lucro da Arauco despencou mais de 90% no ano passado.
Em novembro, a S&P previu que a dívida líquida da Arauco atingiria 4,5 vezes o EBITDA até o fim deste ano, acima de empresas com classificação semelhante, mas abaixo do ano anterior devido a um pequeno aumento nos preços da celulose. A agência agora vê uma recuperação mais lenta.
Considerando que os preços estão mais baixos do que o previsto, “o EBITDA deve ser um pouco mais fraco e a alavancagem um pouco maior”, disse a analista da S&P, Amalia Bulacios.
Problema de preço
Truffello afirmou que a alavancagem pode continuar aumentando neste ano, devido aos gastos com o projeto no Brasil, com o fluxo de caixa livre permanecendo negativo durante a construção. Muito dependerá do mercado em geral.
“Se os preços estiverem mais altos, a alavancagem cairá mais rapidamente”, disse.
O diretor financeiro mantém contato regular com as agências de classificação de risco para garantir que a +Arauco não se torne a primeira empresa do setor florestal a se tornar um anjo caído desde 2017, quando a Klabin foi rebaixada para BB+ pela Fitch após um rebaixamento de sua nota pela S&P.
Enquanto isso, o projeto Sucuriú está quase pela metade concluído, com todo o financiamento garantido. A fábrica deve elevar o volume de vendas de celulose em 67% e pode gerar cerca de US$ 1 bilhão em EBITDA adicional, disse Cesar Perez-Novoa, analista do BTG Pactual, em Santiago. Seria a primeira grande nova usina desde que o projeto Cerrado, de US$ 4,3 bilhões da Suzano no Brasil, entrou em operação em julho de 2024.
Ainda assim, quaisquer atrasos ou estouros de orçamento podem pressionar ainda mais o crédito. Os preços da celulose são outro fator de oscilação, embora a empresa afirme usar premissas conservadoras de cerca de US$ 600 por tonelada, em média.