Em vez de anunciar formalmente um acordo, como costuma ocorrer entre a fabricante de aviões e um cliente, Trump afirmou, durante uma entrevista na televisão, que a China compraria 200 aeronaves “grandes”.
Ele não forneceu detalhes, deixando observadores em dúvida sobre como esse eventual acordo se compararia à expectativa de que a China comprasse até 500 jatos 737 Max.
A confusão aumentou quando Trump, já no voo de volta para casa, afirmou a bordo do Air Force One que Pequim poderia ampliar drasticamente seu compromisso inicial para 750 aviões, embora novamente sem detalhes. A condição do acordo seria que os chineses precisariam fazer um “bom trabalho com os 200, o que tenho certeza de que farão”, disse ele.
Os comentários de Trump destacam duas de suas principais características como líder dos EUA: a de principal vendedor comercial de produtos americanos — especialmente aviões da Boeing — e sua tendência a fazer declarações públicas que deixam o outro lado tentando interpretar o significado.
Nem a Boeing nem autoridades chinesas forneceram contexto adicional sobre o anúncio de Trump envolvendo o acordo aeronáutico, deixando investidores, que esperavam um megaanúncio, em busca de detalhes.
A Boeing se tornou uma ferramenta favorita de Trump para usar o poder corporativo americano em troca de ganhos diplomáticos. Ele já utilizou compras de aeronaves como forma de fechar acordos comerciais com outros países.
Durante uma visita ao Catar no ano passado, a Boeing garantiu o que foi considerado o maior acordo em valor da história para aviões comerciais.
Mesmo naquele caso, houve um breve momento de confusão quando Trump informou um valor para o acordo muito acima do tamanho realista da operação.
A Boeing se beneficiou do apoio de Trump às encomendas de aeronaves, chegando a elogiá-lo como o principal vendedor da companhia. A rival europeia Airbus SE observou essa relação, afirmando que ela coloca a empresa em desvantagem em grandes campanhas internacionais de vendas, já que não conta com o mesmo respaldo político.
Ao mesmo tempo, a Boeing precisa de toda ajuda possível na China, onde perdeu terreno significativo no segundo maior mercado de aviação do mundo.
A China encomendou apenas 39 aviões da Boeing nesta década, de modo que qualquer grande compromisso decorrente da visita de Trump — por mais nebuloso que seja — seria visto como um avanço positivo. O país tem grande necessidade de aeronaves modernas, em meio à recuperação das viagens globais e ao fato de muitas companhias aéreas ainda operarem equipamentos ultrapassados.
A alta dos preços dos combustíveis também acelerou a demanda por aviões mais eficientes, como o 737 Max, que consome muito menos combustível do que versões anteriores do modelo mais vendido da Boeing. A indústria aeronáutica civil chinesa, incluindo o modelo Comac 919, ainda está em estágio inicial, tornando o país dependente de importações de aeronaves dos EUA e da Europa.
A China não anuncia uma grande encomenda à Boeing desde a última visita de Trump ao país, em 2017. Pequim normalmente compra aviões da Boeing e da Airbus em grandes lotes e depois os distribui entre companhias estatais.
Em janeiro de 2020, a China se comprometeu a comprar US$ 77 bilhões em produtos fabricados nos EUA, incluindo aeronaves, mas não cumpriu a promessa após a pandemia de Covid-19 derrubar as viagens aéreas.
A Boeing acabou perdendo a liderança de mercado na China para a Airbus em meio ao aumento das tensões comerciais e à longa suspensão do 737 Max após dois acidentes fatais. A Bloomberg informou que a Boeing esperava fechar uma encomenda de 500 aviões de corredor único e possivelmente um acordo adicional para modelos de fuselagem larga, como o 787 ou o maior 777.
A China Aviation Supplies Holding Co. pediu à Boeing que aumente os investimentos e a expansão de mercado na China, segundo comunicado publicado no WeChat, citando uma reunião realizada na quinta-feira entre a gerente-geral Lu Mei e Stephanie Pope, presidente-executiva da divisão Boeing Commercial Airplanes.
Trump também afirmou na sexta-feira que a China comprará cerca de 400 a 450 motores da General Electric. A companhia é uma importante fornecedora para aeronaves da Boeing, sendo que sua joint venture CFM International Inc., com a Safran SA, é a fornecedora exclusiva do 737 Max e a principal parceira no 787 Dreamliner.
A GE também fabrica os motores do futuro modelo 777X.