No dia anterior à inauguração da rede de sorvete e chás gelados Mixue no Shopping Cidade São Paulo, na Avenida Paulista, o entra e sai de influenciadores e a simpatia de um boneco de neve como mascote atiçavam a curiosidade de quem passeava por ali. Na abertura das portas, uma fila enorme se formou na praça de alimentação.

Era a primeira loja no Brasil da maior rede de fast food do mundo — com mais unidades que o McDonald’s: 60 mil. Com menos de um mês de operação por aqui, já abriu mais um ponto, no centro da cidade. Neste ano, serão de 60 a 100 unidades no país.

A chegada barulhenta da Mixue é um retrato de uma transformação mais ampla. O Brasil se tornou, em 2025, o principal destino dos investimentos chineses no mundo, captando US$ 6,1 bilhões. É uma alta de 45% em relação ao ano anterior, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). É o maior fluxo desde 2017, distribuído em 52 projetos. Recorde histórico.

Soft Power chinês

Isso em um cenário em que o investimento chinês no mundo, como um todo, cresceu só 1,3%. Ou seja: o dinheiro do Império do Meio deu uma guinada rumo ao Brasil. Energia, mineração e petróleo ainda dominam o volume. Só que algo mais silencioso, e talvez mais duradouro, está em curso: a China está aprendendo a vender o seu estilo de vida. Soft power.

Aquele mesmo soft power que consagrou o american dream por décadas e que agora sai de moda com o imperialismo à base somente da força de Donald Trump.

Já no dia a dia

Muito antes do milk tea – o chá preto com leite – da Mixue, a China já tinha entrado na rotina do brasileiro.

O aplicativo de transporte 99 é controlado pela DiDi, gigante chinesa do setor. A mesma empresa chegou ao mercado de delivery com o 99Food. A Meituan, maior plataforma de delivery do mundo, desembarcou no Brasil em 2025 com a marca Keeta.

A Shein, varejista de moda fundada na China, é uma das plataformas mais usadas no país. O TikTok, cujo algoritmo é desenvolvido pela chinesa ByteDance, tem mais de 100 milhões de usuários ativos no Brasil — o terceiro maior mercado da plataforma no mundo.

E tem os Labubus. Os bonecos de carinha assustadora criados por um artista de Hong Kong e vendidos pela chinesa Pop Mart caíram no gosto global — Lady Gaga, Cher e David Beckham já foram vistos com algum. No Brasil, não faltam imitações nas lojas dos centros de comércio popular. Eles foram o item mais buscado por brasileiros na AliExpress em 2025. É o soft power chinês na sua forma mais lúdica e improvável.

E tem as séries chinesas na Netflix, ao melhor estilo dorama que tanto faz sucesso por aqui.

Do Corinthians à cozinha

A Midea é o exemplo mais consolidado dessa virada no mercado de bens de consumo. É a terceira força em linha branca no país.

A fabricante chinesa de eletrodomésticos está no Brasil desde 2011, quando formou uma joint venture com a americana Carrier — empresa com décadas de operação local, fábricas em Manaus e Canoas. Mas foi só nos últimos cinco anos que a marca decolou na cabeça do consumidor brasileiro.

E só depois de um roteiro bem calculado. Vieram os patrocínios de futebol — entre eles, o Corinthians — e a parceria com a CBF, que colocou o logo da Midea na camisa dos árbitros e, portanto, em todos os jogos transmitidos pela televisão. Também vieram as campanhas de TV aberta estreladas por Tadeu Schmidt, o apresentador do Big Brother.

“A velocidade de reconhecimento da marca foi consistente. Hoje, o consumidor chega à loja, compara os nossos produtos com os das marcas mais estabelecidas e vai nos atributos: economia de energia, capacidade, preço”, diz Mário Souza, vice-presidente de Marketing e Vendas da Midea Carrier.

A Midea chegou a 15% de participação em geladeiras de duas portas (freezer + geladeira) no fim de 2024 e bate 10% em lavadoras com tampa superior. Em categorias como lava e seca e geladeiras side by side (as que têm duas portas grandes), já tem fatias de 20% e 25%, respectivamente. A fábrica de Pouso Alegre, em Minas Gerais, produziu mais de um milhão de unidades em 2025.

A empresa estudou o consumidor brasileiro a fundo antes de definir o que fabricar localmente. Descobriu que o tamanho do freezer dentro da geladeira é decisivo para a escolha do brasileiro e que ganhar 20 ou 50 litros de capacidade no mesmo espaço físico é um argumento de venda poderoso num país de cozinhas pequenas.

Criando um novo mercado

Se a Midea chegou com décadas de antecedência e foi construindo presença aos poucos, há quem ainda tenha uma missão mais complexa: criar uma categoria que ainda não existe.

É o caso da Mixue e também da Ai-Cha (o nome significa amor ao chá, em mandarim), uma rede criada pelos irmãos chineses Lie e que inaugurou em fevereiro sua primeira loja no Brasil, no bairro da Liberdade, uma espécie de China Town da capital paulista.

A empresa é da Indonésia, mas com alma chinesa – todo seu cardápio é de sorvetes e sabores de milk tea bem comuns ao paladar chinês. A inspiração, aliás, foi a Mixue. O chá preto com leite não é exatamente uma bebida com tradição por aqui. Boba, as bolinhas de tapioca que acompanham as bebidas, tampouco.

Loja da Ai-Cha
Loja da Ai-Cha (Divulgação)

“Precisávamos gerar confiança e credibilidade para que as pessoas se sentissem confortáveis em ter rituais indulgentes conosco”, diz Matheus Diniz, head de Marketing e Comunicação da Ai-Cha no Brasil.

A rede chegou começou a estruturar sua operação no Brasil em maio de 2025, meses depois de a Mixue anunciar sua entrada no país durante visita do presidente Lula à China.

Passaram nove meses estudando o mercado antes de abrir as portas e colocar seu mascote, o pinguim Cha Cha, para convidar os clientes a entrarem na loja. Mapearam que 65% do fluxo de pedestres na Liberdade é composto por Geração Z e Geração Alfa e entenderam que o brasileiro gosta de tudo mais doce do que o padrão asiático.

Mas adaptações foram além do açúcar. O limão siciliano, usado em todos os mercados da rede, foi substituído pelo limão taiti — o Brasil é o único país do mundo onde a Ai-Cha usa essa fruta. A marca negocia ainda versões com açaí, guaraná e camu-camu.

O cardápio chegou enxuto de propósito: menos de 20% do que está disponível na Ásia. “Cardápio extenso é algo comum para lá, mas, aqui, afeta a experiência”, diz Diniz. Os preços vão de R$ 3 a R$ 20, com ticket médio de R$ 17,80.

Com menos de três meses de operação, a única unidade no país já havia atendido 29 mil clientes e faturado R$ 340 mil, mais que o dobro da projeção inicial. A meta é abrir 150 lojas no Brasil em um ano, via franquias sem taxa de royalty nem de publicidade.

Made in China como sucesso

“O Brasil era um mercado desejado pela diversidade cultural e econômica e pela potência que tem de insumos”, disse Tian ZeZhong, CEO da Mixue no Brasil, ao InvestNews. O investimento previsto é de R$ 3,2 bilhões, incluindo uma fábrica ainda sem prazo definido para sair do papel.

No mercado automotivo, o avanço é ainda mais eloquente. As marcas chinesas já respondem por 17% das vendas de veículos no Brasil em abril de 2026, ante 14,7% em março, segundo levantamento da BrightConsulting com dados da Anfavea, superando as japonesas.

BYD, GWM e Geely lideram esse movimento. A BYD produziu cerca de 20 mil veículos eletrificados na sua fábrica da Bahia entre outubro e o fim de 2025. A Geely adquiriu 26,4% da Renault do Brasil, com planos de produção conjunta de elétricos. A GWM inaugurou sua planta em São Paulo.

E pela primeira vez o carro mais vendido do país no varejo é chinês: o elétrico Dolphin Mini, com 18 mil unidades vendidas no ano – contra 17,2 mil do segundo colocado, o Hyundai Creta.

Para Souza, da Midea, a barreira que o consumidor tinha com produtos chineses ficou para trás, especialmente entre os mais jovens. “Eles voltam aos atributos normais. Tem qualidade? Qual é o preço? Tenho pós-venda?”, diz.

Diniz, da Ai-Cha, observa o mesmo movimento. “Vemos criança e adolescente chegando na loja sem nem perguntar de onde vem o produto. Eles querem saber o sabor, querem saber se tem sorvete de matcha, por exemplo.”

Por décadas, foram os Estados Unidos que ditaram o que o mundo (incluindo o Brasil) consumia, assistia e desejava. Agora, em um domingo na Liberdade, é um pinguim chinês que dança na calçada.