O brasileiro pode não estar tão confiante com a Seleção Brasileira como já esteve em edições passadas da Copa do Mundo, mas o torneio de 2026 pode representar a maior alta de volume de cerveja no país nos últimos quatro anos, período em que a indústria entrou em declínio de vendas.

A competição, que acontece em junho e julho nos Estados Unidos, México e Canadá, acontece num período em que a base de comparação é mais favorável do que foi no torneio do Catar, que aconteceu nos últimos dois meses de 2022, em pleno verão brasileiro.

No verão, o consumo de cerveja é historicamente maior do que nos meses de inverno, como acontecerá agora. Por isso, a expectativa é de que o volume projetado para junho e julho de 2026 se beneficie da comparação com o segundo e o terceiro trimestre de 2025, que foram períodos mais fracos de venda.

Nesse contexto, o torneio mundial da Fifa movimenta as estratégias de marketing das duas maiores cervejeiras do país: Heineken e Ambev.

O grupo holandês parte com vantagem na preferência: a Heineken é a marca mais lembrada pelos brasileiros para o torneio, com 39% das intenções, seguida pela Amstel (14%). Juntas, as duas marcas do grupo somam 56%.

Mas é a Ambev, líder do mercado com cerca de 60% de participação, quem deve colher o maior ganho de volume com o aumento do consumo.

É o que aponta um levantamento do Citi com 1.800 pessoas em sete países, incluindo 300 brasileiros, publicado em maio.

Brasil fora da curva

A Copa é um momento de socialização: 97% dos entrevistados no Brasil planejam acompanhar os jogos pela TV, streaming ou em espaços públicos. O gasto previsto por semana com comida e bebida durante o torneio é de US$ 119 (cerca de R$ 600) — bem acima dos US$ 77 (cerca de R$ 390) da média global. Só os Estados Unidos superam esse valor.

No caso dos brasileiros, 83% querem assistir em casa com amigos e família, o índice mais alto de qualquer mercado pesquisado. É nesse ambiente que as compras de bebidas se concentram, principalmente via supermercado, citado por 44% como principal canal durante a Copa.

Em intenção de consumo de álcool, o Brasil também lidera: 75% esperam beber mais durante o torneio.

Entre esses, 73% vão priorizar cerveja — acima da média global de 64%. As marcas mais lembradas são: Heineken (39%), Amstel (14%), Brahma (10%), Antarctica (9%), Skol (7%), Corona (5%), Original (5%), Itaipava (4%) e Devassa (3%).

O que isso significa

O Citi classifica a Ambev como a maior beneficiária da Copa do Mundo na América Latina. O argumento começa pelo calendário: o Brasil terá 14 feriados em dias úteis em 2026, contra 11 em 2025 — e boa parte deles coincide com o período dos jogos, ampliando as ocasiões de consumo.

Além disso, 58% dos brasileiros planejam assistir acompanhados, o índice mais alto entre os países pesquisados, criando o ambiente social ideal para o consumo de cerveja.

O histórico da empresa em anos de Copa reforça a expectativa. Em 2014, quando o Brasil sediou o torneio, a Ambev cresceu 4,8% em volumes no segundo semestre — o melhor resultado em anos. Em 2022, mesmo com a Copa no Catar, a empresa cresceu 2,5% no quarto trimestre, acima das expectativas.

Com os jogos de 2026 concentrados em junho e julho, o banco projeta um cenário ainda mais favorável para capturar esse efeito nos resultados.

A empresa já se posiciona para aproveitar o momento. Em entrevista ao InvestNews, o CFO da Ambev, Guilherme Fleury, disse que o torneio chega num momento propício. “Esse ano tem tudo para ser um ano que tenha mais socialização — e mais socialização é o que a nossa categoria faz melhor”, afirmou.

A empresa também deve acionar o Zé Delivery e o app Bees como canais de ativação digital, especialmente para alcançar quem vai assistir aos jogos em casa.

@investnewsbr

Mais do que bebida, o Zé Delivery entrega dados valiosos para Ambev sobre o comportamento do consumidor e já tem até sido usado para lançar novos produtos. #cerveja #ambev

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Entre as apostas da empresa para a Copa está o Michelob Ultra, marca premium que vem crescendo de forma consistente com a proposta de ser de menor teor alcoólico e ter menos calorias. Ela receberá reforço de investimento durante o torneio.

Esse segmento mais ligado ao consumo moderado tem ganhado força no portfólio brasileiro. Além da Michelob Ultra, a Ambev tem a Corona Cero e a Skol 0.0, ambas sem álcool, e a Stella Pure Gold, sem glúten e com menos calorias. Na última segunda-feira (18), a Heineken lançou a Ultimate, uma versão sem glúten do seu principal rótulo e com teor alcoólico menor, de 3,5%.

O Citi chama de “ocasião de permissão” o fenômeno pelo qual grandes eventos esportivos funcionam como justificativa cultural para consumir mais, inclusive fora da dieta habitual. O efeito costuma ser temporário — a maioria volta aos níveis normais após o torneio.

Mas o impacto durante os jogos tende a ser expressivo, especialmente para empresas com portfólio amplo e boa presença em bares, restaurantes e supermercados.

O banco, porém, alerta para um risco que nenhum analista consegue modelar com precisão: o desempenho do Brasil em campo. Uma eliminação precoce da seleção, segundo o relatório, poderia reduzir de forma significativa o momento de consumo — especialmente no segmento premium, que é mais sensível ao humor do torcedor.