A Serena é uma das maiores geradoras de energia eólica do país. Mas decidiu zerar os investimentos em novos projetos por aqui. Todos esses recursos vão migrar para os Estados Unidos. São dois grandes motivos por trás da decisão. Um vem de lá; o outro, daqui.

Nos EUA, onde eles operam um complexo eólico desde 2023, eles já têm um contrato de fornecimento com o Google, e contam com o apetite pantagruélico das big techs por cada vez mais energia para abastecer cada vez mais data centers de IA – e melhor para a imagem delas se essa energia for limpa.

No Brasil, o problema é o curtailment – os cortes-surpresa na geração de energia. Eles existem para proteger o sistema de sobrecargas, mas destroem a previsibilidade no faturamento das geradoras.

O curtailment é uma novidade porque a razão das sobrecargas também é. Com a expansão das placas solares nas casas e fazendas, o país passa por um excesso de oferta de energia. Para manter a segurança do sistema, o ONS despluga geradoras, que ficam no prejuízo.

Elas até recebem uma indenização, mas menos do que consideram justo. Em entrevista ao InvestNews, Antônio Bastos Filho, CEO e fundador da Serena, deixa clara sua insatisfação. “Se a gente quiser reindustrializar o Brasil e atrair data centers no futuro, esse tipo de coisa só afasta o investidor. Como calcular o curtailment em um projeto novo?”, questiona.

Hoje, a Serena opera complexos eólicos na Bahia (1.172 MW), no Rio Grande do Sul (583 MW), na divisa entre Piauí e Maranhão (571 MW) e no Rio de Janeiro (28 MW). São 2,4 GW. Em capacidade instalada de turbinas de vento, eles só perdem no Brasil para a Enel (3,3 GW).

Mas a expansão agora, como dissemos, será na maior economia do mundo.

O complexo eólico no Texas

A Serena foi para os EUA quando ainda se chamava Omega Energia. Depois de explorar o terreno por dois anos, montou o complexo eólico Goodnight, no Texas. São 265,5 MW em operação desde 2023. No final do ano passado, saiu da bolsa brasileira. Agora é controlada pela gestora britânica Actis e pelo fundo soberano de Singapura (GIC).

E vai investir US$ 370 milhões em seu segundo projeto, uma ampliação do Goodnight. As novas turbinas começam a girar em 2027, dobrando a capacidade do complexo para 531 MW. Elas vão ajudar na alimentação de um futuro data center do Google no Texas, onde a Alphabet prevê investir US$ 40 bilhões.

Antônio Bastos Filho diz que a expansão nos EUA deve se tornar o novo padrão da companhia. O executivo permaneceu como acionista minoritário após a entrada da Actis e do GIC.

“Estamos fazendo o projeto número 2, mas a ideia é ter o 3, 4, 5, 6, 7, 8… e por aí vai. O nosso foco principal de investimento greenfield [do zero] hoje é nessa região do Texas. Não vamos só fazer eólico, mas investir em geração a gás também”, afirmou, em conversa com o InvestNews.

Segundo Bastos Filho, a estratégia é ampliar a geração de caixa em dólar. Mais de 80% da receita da Serena vem do Brasil hoje, mas essa balança deve mudar logo. “A ambição é que a receita seja maior em dólar do que em real em quatro ou cinco anos”, diz o CEO. O lucro operacional (Ebitda) estimado para este ano é de cerca de R$ 2 bilhões.

A fome dos data centers

Bastos Filho diz que o crescimento exponencial de investimentos em data centers nos Estados Unidos, somado às metas ambientais das big techs, abriu um novo filão para as geradoras de energia renovável, como a Serena. As empresas de tecnologia precisam expandir capacidade rapidamente e, ao mesmo tempo, cumprir compromissos de redução de emissões.

Impulsionados pela inteligência artificial e pelos serviços em nuvem, os data centers já consomem 2% da energia do mundo. Nos EUA, são quase 5%. E deve chegar a 12% em 2028.

Além do fornecimento para o Google, a Serena firmou acordos com a Crusoe, startup que desenvolve infraestrutura de IA para clientes como o Projeto Stargate – uma joint venture formada por OpenAI, SoftBank, Oracle e o fundo MGX, de Abu Dhabi.

“O nosso foco hoje é investir nos Estados Unidos. Os retornos lá fazem mais sentido”, resume o executivo. “O ambiente americano, em termos de segurança jurídica e demanda, é melhor do que o que temos no Brasil hoje.”

E a parte regulatória lá ajuda a tratar uma característica natural da energia eólica: a intermitência, já que nem sempre o vento venta. E data centers exigem, claro, fornecimento constante. “Se você mistura gás com eólico, consegue oferecer uma curva firme para o cliente. Você entrega previsibilidade”, diz Bastos Filho. “Estou do lado da Permian Basin [a região megaprodutora de gás de xisto] e a regulação permite esse mix de forma livre. No Brasil não é tão simples.”

A saída da B3

A Serena integra um grupo de empresas brasileiras de energia que fecharam o capital nos últimos anos. A companhia concluiu a oferta pública de aquisição (OPA) em novembro de 2025, em operação liderada pela Ventos Alísios – joint venture entre Actis e GIC. Movimentos semelhantes foram feitos por EDP Brasil e Neoenergia, enquanto a CPFL Geração aprovou sua deslistagem em janeiro deste ano.

Bastos Filho afirma que o mercado não incorporou a estratégia internacional da empresa no preço das ações. “Talvez tenhamos falhado em explicar os méritos da diversificação e o desempenho da operação nos Estados Unidos. Não conseguimos precificar a companhia de forma adequada para um follow-on, por exemplo”, aponta.

Segundo ele, a saída da Bolsa foi uma decisão de ciclo. “Concluímos que, neste momento, seria mais adequado trazer investidores que conhecem bem o setor e apoiam a tese de continuar crescendo e investindo.”

Se a Serena voltar ao mercado, a alternativa mais provável de acordo com o CEO seria uma abertura de capital nos EUA.

Embora diga que a projeção de investimento para o Brasil, por ora, seja “zero”, o executivo acompanha os leilões de reserva de capacidade previstos para abril, voltados a sistemas de armazenamento em baterias, mas ainda não decidiu se a Serena participará. O governo faz esse leilão justamente para mitigar os cortes: a energia que seria desplugada segue fluindo, mas para baterias. E fica armazenada para o uso à noite, quando não há excesso de elétrons. Há falta.

No momento, então, a única chance de a Serena investir no Brasil do curtailment é justamente no mecanismo para evitar o curtailment.