A Anta concordou em pagar € 1,5 bilhão (US$ 1,8 bilhão) para assumir uma posição de controle relevante na empresa esportiva alemã e ampliar seu portfólio de marcas ocidentais de artigos esportivos, que já inclui nomes como Salomon e Wilson.
As ações da Puma chegaram a subir até 21%, antes de devolver parte dos ganhos. Por volta das 10h20 (horário de Frankfurt), os papéis ainda avançavam cerca de 7%.
Pelo acordo, a Anta adquirirá aproximadamente 43 milhões de ações da Puma da Artémis, holding da família Pinault, por € 35 por ação, segundo comunicado enviado à bolsa de Hong Kong nesta terça-feira. O preço representa um prêmio de 62% em relação ao fechamento anterior das ações da Puma.
A operação ajudará a família Pinault a reduzir a dívida da Artémis, após a compra de uma participação majoritária na agência de talentos de Hollywood CAA, movimento que havia levantado preocupações entre alguns investidores. A Artémis é a acionista controladora da Kering, que ainda enfrenta dificuldades para revitalizar a Gucci após a queda da demanda nos últimos anos. O grupo de luxo também é dono de marcas como Yves Saint Laurent e Balenciaga.
A compra da participação na Puma pode ajudar a Anta a se beneficiar do crescimento global da prática esportiva e da demanda por produtos de athleisure, inclusive na China, onde esse segmento ganhou força desde a pandemia de Covid-19. As ações da Anta subiram até 3,4% nesta terça-feira, o maior avanço desde novembro.
A Anta aposta no plano inicial de recuperação do CEO da Puma, Arthur Hoeld, que prevê a reformulação das estratégias de marketing para tornar a marca do felino saltando mais atraente aos consumidores. Em outubro, Hoeld prometeu retomar o crescimento até 2027 e recolocar a Puma entre as três maiores marcas esportivas globais, após um ano marcado por forte queda na demanda por tênis e vestuário.
A Anta assume um risco ao apostar que os mais de 75 anos de tradição da Puma no esporte ainda fazem diferença, em um momento em que o mercado de calçados vê a explosão de novas marcas ganhando participação — da suíça On Holding AG à Hoka, passando pela própria Anta.
“Herança ainda conta para alguma coisa, afinal”, afirmou James Grzinic, analista da Jefferies em Londres, em nota.
Segundo o analista, o fato de a Anta já demonstrar tanta confiança no potencial de lucros da Puma pode ser um sinal encorajador para empresas do setor. A rival Adidas AG também enfrenta dificuldades recentes, com investidores questionando cada vez mais seu potencial de crescimento e rentabilidade, apesar de seu histórico sólido.
A compra da participação pode abrir caminho para uma aquisição total da Puma, embora a Anta tenha afirmado que não tem esse plano no momento. Em novembro, a Bloomberg News noticiou que a Anta estava entre as empresas que estudavam uma possível compra da fabricante alemã, trabalhando com assessores para avaliar uma oferta.
A transação deve ser concluída até o fim de 2026, e a Anta pretende obter representação no conselho de supervisão da Puma, segundo o comunicado.
Analistas do Deutsche Bank, liderados por Adam Cochrane, afirmaram que a Anta provavelmente será uma parceira mais ativa para a Puma do que a Artémis, permitindo que Hoeld se concentre na melhoria do desempenho da empresa. Isso também pode beneficiar os acionistas, já que a Anta pode buscar comprar o restante da companhia no futuro — embora provavelmente não antes de 2027.
O investimento na Puma vai acelerar a globalização da Anta e “ajudar a impulsionar o próximo capítulo de crescimento dos mercados esportivos globais, incluindo a China”, disse Ding Shizhong, presidente do conselho da Anta. “Acreditamos que o preço das ações da Puma nos últimos meses não reflete plenamente o potencial de longo prazo da marca”, acrescentou.
A maior fabricante chinesa de vestuário esportivo tem feito uma série de aquisições globais e também é dona de marcas como Descente e Jack Wolfskin. Em 2019, um consórcio liderado pela Anta pagou US$ 5,2 bilhões pela Amer Sports, dona de marcas premium como Salomon e Arc’teryx. A Anta segue como maior acionista da Amer, hoje listada na bolsa de Nova York.
Essas aquisições ajudaram a Anta a ampliar sua presença global e capturar o crescente entusiasmo da China por esportes ao ar livre, tornando-se uma das empresas de artigos esportivos e equipamentos que mais crescem no país. Nos últimos anos, a estratégia multimarcas também permitiu à empresa registrar vendas mais fortes do que rivais do mercado de massa — de gigantes internacionais como Nike e Adidas a concorrentes locais como Li Ning — apesar da fraqueza do consumo chinês e das intensas guerras de preços no varejo.
As ações da Anta perderam cerca de um quarto do valor de mercado desde agosto, em parte porque investidores passaram a precificar uma possível aquisição da Puma, escreveram analistas do Citigroup, Xiaopo Wei e Vincent Young, em nota. Ainda assim, eles afirmaram que a Puma pode ter um “potencial de valorização significativo” em seus negócios na China, graças a sinergias em áreas como marca, cadeia de suprimentos e distribuição.