Amanda, CEO da companhia e pastora evangélica, diz que o objetivo da iGreen é provocar uma transformação na “vida espiritual” dos parceiros. Thiago, presidente da empresa, aposta em outro argumento para atrair novos participantes: retorno financeiro rápido.
O modelo de negócios da iGreen é o de marketing multinível. Para ingressar na rede como “licenciado”, é preciso pagar R$ 1.997.
Em vídeos de divulgação, Thiago afirma que esse valor pode ser recuperado em até dez dias e que os ganhos com comissões e royalties se estendem “até o infinito”, à medida que a rede cresce. A empresa também associa a progressão na carreira a recompensas de alto valor, como cruzeiros, viagens internacionais e carros elétricos – primeiro modelos da BYD, no fim, um Porsche Taycan.
Esse tipo de conteúdo também é replicado por milhares de licenciados espalhados pelo país. Hoje, segundo a própria empresa, são cerca de 25 mil participantes. No YouTube, um licenciado fala em “comissões mensais vitalícias e até mesmo hereditárias”.
Em suma, as promessas clássicas do marketing multinível.
Fundada no fim de 2021, a startup de Uberlândia alega ter 500 mil clientes e promete quadruplicar esse número em 2026. E conta com um aval institucional de peso: a Vibra Energia, gigante que opera os postos Petrobras, é sócia da operação por meio da Comerc.
Mas o modelo levanta questões. Consumidores reclamam de dificuldades para cancelar contratos. E a própria natureza do negócio — intermediar energia solar subsidiada — ocorre em um vácuo regulatório que já produziu pirâmides financeiras e outras fraudes bilionárias no setor.
Fora a questão matemática: ganhos que “se estendem ao infinito” são um desafio à lógica.
Vender & Recrutar
Thiago Alexander tinha 18 anos quando começou a trabalhar com marketing multinível. Passou por Herbalife e Hinode, onde se destacou como recrutador. Amanda, sua irmã, trabalhou em uma empresa que vendia energia por assinatura.
Da união das duas expertises veio a iGreen. A tese era de que o modelo de vendas de energia por assinatura não funcionava na internet nem em call centers da forma tradicional. A solução, conta Thiago, foi aplicar as técnicas do marketing multinível ao setor de energia. “É a possibilidade de eu utilizar o meu network. Ou seja, é a transferência de confiança. Eu transfiro a minha confiança para aquela solução e eu consigo endossar aquilo para amigos, conhecidos e familiares”.
Desde o terceiro mês de operação, Amanda e Thiago decidiram assumir publicamente a fé evangélica como parte do negócio. “Deus tocou o coração nosso e falou: ‘Eu preciso que vocês falem disso. Porque eu vou utilizar dessa empresa para alcançar milhares de pessoas'”, conta Thiago.
“Nós temos esses momentos de oração e pregação”, explica Amanda, que afirma ter visto milhares de conversões ocorrerem por meio da empresa.
Com o pagamento da licença, o participante ganha acesso a aplicativos que conectam o licenciado a fornecedores de energia por assinatura, telefonia e outros serviços.
A iGreen, portanto, não presta o serviço diretamente. Funciona como uma plataforma que intermedia a relação entre fornecedores e consumidores finais – que passam a comprar energia solar coletivamente. “Nós viemos como um facilitador para conscientizar o cliente que ele tem a possibilidade de entrar num consórcio”, explica Thiago, que hoje tem 32 anos.
Um executivo de uma empresa que também oferece energia por assinatura, concorrente da iGreen, diz que a startup dos irmãos Amanda e Thiago “não é uma empresa de energia, mas uma empresa que recruta pessoas que vendem produtos”. “Eles são intermediadores, eles são o Uber, enquanto a gente constrói as fazendas [de placas solares] e produz a energia.”
A remuneração dos licenciados iGreen combina comissões sobre as contas dos clientes e bônus pelo recrutamento de novos licenciados com valores crescentes à medida que o participante sobe na hierarquia da rede.
O licenciado ganha R$ 300 quando recruta outro participante diretamente e R$ 100 quando seu recrutado recruta alguém. Além disso, recebe entre 0,1% e 4% sobre as contas de luz pagas pelos clientes que ele e sua rede trouxeram.
Para acessar os royalties mais elevados, o licenciado precisa recrutar outras pessoas e fazer com que elas também recrutem. O sistema tem níveis progressivos: “S-Expansão” exige 5 clientes e 2 licenciados diretos; “G-Expansão” requer 10 clientes e 5 licenciados; “E-Expansão” demanda 20 clientes e 7 licenciados; “D-Expansão” exige 40 clientes e 10 licenciados e por aí vai.
Ao InvestNews, Thiago afirma que mais de 90% dos licenciados só focam em atrair clientes, embora a própria estrutura de remuneração mostre que sem recrutar é impossível chegar aos royalties dos licenciados de nível mais alto. Segundo a própria empresa, 90% dos ganhos dessa elite vem das redes que seus recrutados formaram.
O selo da Vibra
No início de 2022, a Comerc, uma das maiores comercializadoras de energia do país e especializada em atender grandes consumidores no mercado livre de energia, quis investir na iGreen. Em nota, a Comerc disse que a “atuação conjunta [com a iGreen] viabiliza soluções voltadas a diferentes perfis de clientes, ampliando o acesso à energia renovável por meio da energia fotovoltaica.”
Documentos internos da Comerc mostram que a empresa pagou R$ 23 milhões por 50% das quotas da iGreen Energia Comércio e Serviços (o CNPJ que concentra os clientes) e 20% da iGreen Comercial (que concentra os licenciados).
“Imagina uma empresa do calibre deles falar para a gente: ‘vamos investir sete bilhões de reais em capacidade energética e queremos a plataforma de vocês [como parceira]'”, conta Thiago.
Em 2024, a Vibra Energia concluiu a aquisição da Comerc por R$ 2,9 bilhões. Com isso, a gigante dos postos Petrobras tornou-se sócia indireta da iGreen. Para a startup de Uberlândia, isso representa um selo de legitimidade institucional que a empresa menciona constantemente.
A Comerc foi procurada pelo InvestNews para falar sobre o modelo de negócios da iGreen, apresentar dados financeiros da operação e esclarecer quanto do faturamento depende de recrutamento de colaboradores que pagam para entrar e quanto advém da venda de serviços de fato, mas preferiu não destacar porta-voz e não quis comentar.
O sol é para todos
A iGreen opera em um setor que ainda carece de fiscalização adequada. A energia solar por assinatura explodiu no Brasil após 2012, quando o país criou o Sistema de Compensação de Energia Elétrica, permitindo que consumidores gerassem energia em seus telhados e injetassem o excedente na rede, obtendo créditos que abateriam suas contas — como se o relógio medidor girasse ao contrário.
Em 2022, a Lei 14.300 (Marco Legal da Geração Distribuída) permitiu a criação de consórcios e cooperativas para compra de energia solar. Pessoas sem condições de instalar painéis próprios poderiam se associar a usinas remotas e compartilhar os créditos gerados. Foi a abertura legal para as empresas de energia por assinatura.
O problema é que o consumidor raramente entende o que está contratando. Dada a complexidade regulatória, com frequência o cliente acredita estar comprando “energia mais barata”, quando na verdade está assinando uma procuração para fazer parte de um consórcio. E essa energia é “mais barata” porque se beneficia de subsídios criados para incentivar a geração distribuída — subsídios cujo custo é repassado aos demais consumidores que não possuem painéis solares.
Em 2023, o Tribunal de Contas da União (TCU) cobrou a Aneel, afirmando que empresas estavam realizando “comercialização disfarçada” de energia subsidiada, custando R$ 1,8 bilhão aos demais consumidores naquele ano. A Aneel respondeu que se trata de “autoconsumo remoto fracionado”, não de comercialização, e pediu o arquivamento, o que foi acatado pelo TCU.
Quem vigia?
O resultado é um vácuo regulatório. A Aneel não licencia nem fiscaliza individualmente as empresas intermediadoras. Não há regras claras sobre transparência, cancelamento ou proteção ao consumidor. E isso abriu espaço para fraudes.
Nos últimos anos, ao menos quatro grandes esquemas de pirâmide envolvendo energia solar foram desmantelados: Econ Energia, Original Energy, Alpha Energy Capital e Usinas Onda do Sol. Todas vendiam participações em usinas solares e prometiam retornos fixos fora da realidade (como 5% a 30% ao mês). A verdade é que operavam como pirâmides, dependendo de novos investidores para pagar os antigos.
“O Superior Tribunal de Justiça estabeleceu que a pirâmide se caracteriza quando o pagamento dos lucros depende, essencialmente, do ingresso de novos investidores”, explica Graziela Frati, advogada especialista em direito societário e empresarial.
Nesses casos, ela descreve, o produto é apenas um “disfarce” ou um “pedágio” de adesão para camuflar o verdadeiro propósito: a captação de recursos da base para remunerar o topo.
Já no caso do marketing multinível legítimo, diz Frati, “a remuneração decorre da margem de comercialização de produtos ou serviços vendidos a consumidores finais externos à rede”.
Thiago Alexander disse ao InvestNews que a iGreen não promete rendimento passivo – “se você paga R$ 1.997 e não faz nada, você não ganha nada” – e que essa taxa representa apenas 15% do faturamento ali; os outros 85%, diz Alexander, de comissões sobre a intermediação da venda de serviços.
Procurada, a Aneel informou que “está em andamento uma fiscalização específica sobre esse tema”. O Ministério de Minas e Energia não respondeu. A CVM disse manter uma página para ajudar investidores a identificar pirâmides.
O Ministério Público Federal afirmou que monitora continuamente as atividades de geração distribuída e se mantém “atento aos casos em que a remuneração dos participantes depende predominantemente do recrutamento de novos aderentes”.