No ano fiscal encerrado em março, a companhia reportou prejuízo líquido equivalente a US$ 2,7 bilhões — a primeira perda anual desde a listagem das ações na Bolsa de Tóquio, em 1957. A empresa também contabilizou perdas de cerca de US$ 10 bilhões relacionadas ao segmento de veículos elétricos, refletindo baixas contábeis e o abandono de projetos estratégicos.
Apesar do resultado negativo, as ações da Honda subiram 3,77% nesta quinta-feira (14) depois que a companhia projetou recuperação para o atual ano fiscal. A montadora prevê lucro operacional de 500 bilhões de ienes (US$ 3,2 bilhões) até março de 2027, acima da expectativa média dos analistas.
O CEO Toshihiro Mibe afirmou que a empresa está reformulando sua estratégia diante das rápidas mudanças da indústria automobilística global. “Nós, da administração, levamos essa perda muito a sério”, disse Mibe. “Minha maior responsabilidade é construir uma estrutura de negócios capaz de resistir a qualquer cenário diante dessa incerteza.”
A Honda cancelou planos de lançar três modelos elétricos nos Estados Unidos: um SUV, um sedã e um veículo de luxo da Acura, além de abandonar o projeto de desenvolver veículos elétricos em parceria com a Sony Group. A companhia também suspendeu indefinidamente um projeto multibilionário no Canadá que incluiria fábricas de carros elétricos, baterias e materiais.
Mibe também desistiu da meta anunciada em 2021 de transformar todos os veículos da Honda em modelos elétricos ou movidos a célula de combustível até 2040.
A crise se agravou na China, onde a Honda perdeu espaço rapidamente para fabricantes locais de veículos elétricos. As vendas da empresa no país caíram mais da metade nos últimos cinco anos e continuam recuando em 2026.
Para o atual ano fiscal, encerrado em março de 2027, a montadora prevê vendas globais praticamente estáveis, em 3,39 milhões de veículos, apostando que o crescimento na América do Norte compensará parte das perdas no mercado chinês.
O centro da nova estratégia da empresa será ampliar a oferta de veículos híbridos, especialmente nos Estados Unidos, onde consumidores têm migrado para modelos híbridos da Toyota.
A Honda pretende lançar 15 novos híbridos até 2030, principalmente na América do Norte, redirecionando investimentos antes destinados aos elétricos. Segundo a companhia, o negócio tradicional de carros movidos a combustão segue lucrativo, assim como a divisão de motocicletas — responsável pela maior parte do lucro operacional do grupo.
Quase uma em cada três motocicletas vendidas no mundo leva a marca Honda. Na Índia, um dos mercados que mais crescem globalmente, a empresa espera elevar a produção anual para 8 milhões de unidades até 2028.
Ainda assim, analistas avaliam que a montadora demorou a reagir às mudanças do setor. “O negócio de motocicletas virou uma muleta para a Honda evitar uma análise séria da divisão automotiva”, afirmou Christopher Richter, analista sênior da CLSA Securities Japan.
Além da concorrência chinesa, a empresa enfrenta pressões geopolíticas, incluindo tarifas dos EUA, a guerra envolvendo o Irã e gargalos na cadeia global de semicondutores. As ações da Honda acumulam queda de 14% no ano.
“O maior arrependimento é não ter conseguido reagir às rápidas mudanças da indústria”, afirmou Mibe. “Precisamos voltar a um caminho sustentável.”