O documento da administração Trump recomenda maior consumo diário de proteína, com presença em todas as refeições, redução de alimentos ultraprocessados, açúcar adicionado e bebidas açucaradas, e passa a endossar explicitamente o consumo de carne vermelha e laticínios integrais.
Para as carnes, diretriz revisa para cima a recomendação de consumo de proteína, sugerindo agora entre 1,2 e 1,6 grama por quilo de peso corporal, ante 0,8 grama na versão anterior.
Embora não tenha força de lei nem imponha metas obrigatórias, as orientações funcionam como referência para políticas públicas e programas federais de alimentação nos Estados Unidos, como merenda escolar, assistência alimentar a famílias de baixa renda e compras para bases militares e hospitais públicos.
Segundo dados oficiais do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), os principais programas federais de assistência alimentar somaram US$ 142,2 bilhões em gastos em 2024, incluindo cerca de US$ 100 bilhões do SNAP (o maior programa de alimentação do país) e aproximadamente US$ 32 bilhões em nutrição escolar e infantil.
A mudança nas diretrizes do governo americano teve reflexo nas ações das principais empresas de alimentos do país, após as autoridades criticarem publicamente esse tipo de produto.
Papéis de empresas como Kraft Heinz e Mondelez caíram mais de 2% na quarta-feira, em um movimento interpretado por investidores como sinal de pressão estrutural sobre categorias associadas a ultraprocessados e bebidas açucaradas.
Frigoríficos
A nova diretriz também foi comemorada pela National Cattlemen’s Beef Association (NCBA), principal entidade que representa os pecuaristas e produtores de carne bovina nos Estados Unidos. Em nota, a associação afirmou que o documento reforça o papel da carne bovina na dieta americana e traz maior previsibilidade para a cadeia produtiva
Para a JBS, maior produtora global de proteínas, o tema é especialmente relevante. Mais de 60% da receita do grupo já vem das operações nos Estados Unidos, onde a companhia atua em bovinos, aves e suínos, além de marcas e food service. No terceiro trimestre de 2025, os negócios americanos da JBS somaram US$ 14,2 bilhões em receita, de um total global de US$ 22,6 bilhões, segundo o balanço mais recente da companhia.
Já a MBRF (dona de Sadia, Perdigão e Marfrig) tem no país seu principal mercado por meio da National Beef, uma das quatro maiores processadoras de carne bovina dos EUA. Os Estados Unidos responderam por 45% da receita líquida do grupo no terceiro trimestre de 2025, segundo o balanço mais recente.
O negócio de bovinos na América do Norte somou US$ 3,6 bilhões em receita no período, em um cenário marcado por oferta restrita de gado e custos elevados da matéria-prima — mas com demanda ainda resiliente.
As ações da dupla brasileira não apresentaram grande reação nesta quarta. O motivo é que, embora positivo, o cenário atual ainda carrega incertezas. A escassez de gado nos EUA segue pressionando as margens dos frigoríficos e levando empresas a reduzir capacidade.
Neste mês, a JBS anunciou o fechamento de uma planta na Califórnia, enquanto concorrentes também desligaram unidades, refletindo o impacto do ciclo pecuário adverso.
Proteína no centro
A mudança ocorre em um momento em que a proteína já vinha ganhando protagonismo na dieta americana. Como mostrou o InvestNews no ano passado, a popularização de medicamentos à base de GLP-1, como Ozempic e Mounjaro, acelerou uma transformação nos hábitos alimentares: as pessoas passaram a comer menos, mas a buscar alimentos com maior densidade nutricional. Nesse processo, a proteína deixou de ser coadjuvante e passou a ocupar o centro do prato.
Nos Estados Unidos — mercado mais avançado no uso desses medicamentos — pesquisas indicaram queda no consumo de snacks, refrigerantes e ultraprocessados, enquanto produtos ricos em proteína e fibras ganharam espaço no carrinho de compras. A indústria respondeu com lançamentos voltados a refeições menores, mais funcionais e com maior teor proteico.
A reação do mercado e a nova diretriz reforçam a leitura de que o governo americano busca favorecer alimentos considerados mais “naturais” e ricos em proteína — os chamados “real foods” — em detrimento de produtos altamente processados.
