A Kora Saúde fechou 2025 com mais receita, avanço em oncologia e o dobro da geração de caixa operacional do ano anterior. Ainda assim, o resultado financeiro se deteriorou, os custos cresceram acima da receita e o balanço trouxe reconhecimento relevante de perdas em recebíveis — sinais de que a melhora na ponta operacional ainda não foi suficiente para aliviar a estrutura de capital da companhia.

O balanço foi divulgado neste sábado (11), com atraso, em um momento em que o mercado passou a olhar com mais rigor para a saúde privada. O setor vive uma fase de separação entre grupos que ainda conseguem crescer com geração de caixa e companhias que acumulam pressão financeira e necessidade de reorganização.

Casos recentes ajudam a ilustrar esse movimento: a Oncoclínicas renegocia com credores após prejuízo bilionário, a Hapvida atravessa mudanças de comando e desafios operacionais e a Alliança também enfrenta aperto sobre o caixa. A própria Kora, como a Bloomberg News reportou no início de abril, avalia um pedido de recuperação extrajudicial.

A receita líquida da companhia subiu 5,1% em 2025, para R$ 2,38 bilhões. No quarto trimestre, o crescimento foi de 7,4% na comparação anual, a R$ 597,9 milhões. A Kora encerrou dezembro com 1.780 leitos operacionais, alta de 6,6% em relação ao fim de 2024. O tíquete médio por paciente-dia ficou em R$ 5.564 no trimestre, aumento de 7,6% em um ano.

A ocupação de leitos, porém, perdeu fôlego: ficou em 73% no quarto trimestre, abaixo dos 76% do mesmo período de 2024 e dos 79% registrados no segundo e no terceiro trimestres do ano.

A oncologia seguiu como principal avenida de crescimento. A receita dessa operação alcançou R$ 65 milhões no quarto trimestre, alta de 18,6% na base anual e de 32,3% sobre o trimestre anterior. No acumulado do ano, a linha oncológica somou R$ 221 milhões, avanço de 17,3%.

Os custos dos serviços prestados, no entanto, cresceram 11,7% no quarto trimestre, ritmo superior ao da receita, e passaram a representar 82,8% da receita líquida — ante 79,6% um ano antes. Materiais e medicamentos avançaram 21,5%. Despesas com pessoal subiram 15,1%. Utilidades e serviços saltaram 48,7%. A margem bruta recuou de 20,4% para 17,2%.

Nas despesas gerais e administrativas, o quadro foi mais misto: o total caiu 16,1% no trimestre, mas houve aumento expressivo em stock options, que passaram de R$ 1,2 milhão para R$ 12 milhões. A rubrica de outras receitas e despesas virou para um resultado negativo de R$ 67,3 milhões, contra um ganho de R$ 1,7 milhão no quarto trimestre de 2024.

O que os ajustes revelam sobre o balanço da Kora

O ponto mais sensível apareceu na diferença entre o Ebitda contábil e o ajustado. No quarto trimestre, a companhia reportou Ebitda de R$ 27,5 milhões — queda de 76% em relação ao mesmo período de 2024. O Ebitda ajustado ficou em R$ 118,6 milhões.

A diferença de mais de R$ 91 milhões é explicada por ajustes classificados como normalizadores e extraordinários. Somente os extraordinários somaram R$ 86,4 milhões no trimestre, puxados por provisão para devedores duvidosos de exercícios anteriores no valor de R$ 70,8 milhões. Outros itens incluem Órteses, Próteses e Materiais Especiais (OPME) e ajustes de inventário também referentes a exercícios passados, além de ajuste de repasse. No acumulado do ano, os itens extraordinários totalizaram R$ 132,1 milhões.

Hospital da Kora Saúde, São Mateus é um edifício de paredes brancas e logo vermelho
São Mateus, um dos hospitais da rede Kora – Foto: Divulgação

Esses ajustes ficaram ainda mais visíveis no fluxo de caixa. A linha de perda por redução ao valor recuperável de contas a receber atingiu R$ 151,9 milhões no quarto trimestre, contra R$ 4,9 milhões no mesmo período de 2024. As contas a receber de clientes somavam R$ 1,03 bilhão ao fim de dezembro, acima dos R$ 902,6 milhões de um ano antes. O prazo médio de recebimento fechou o trimestre em 142 dias.

A maior pressão, porém, veio da estrutura financeira. O resultado financeiro negativo foi de R$ 184,4 milhões no quarto trimestre, alta de 18,4% sobre o mesmo período de 2024. No acumulado do ano, o saldo negativo alcançou R$ 646,4 milhões, avanço de 46,7%. As despesas financeiras totalizaram R$ 682,9 milhões em 2025.

Esse peso ajuda a explicar por que a melhora operacional não chegou à última linha. O prejuízo líquido foi de R$ 167,6 milhões no quarto trimestre e de R$ 421,3 milhões no ano. No conceito ajustado, o prejuízo ficou em R$ 55,5 milhões no trimestre e em R$ 183,5 milhões em 2025.

A dívida líquida encerrou dezembro em R$ 2,51 bilhões, ante R$ 2,23 bilhões no fim de 2024. A dívida bruta total ficou em R$ 2,77 bilhões, para um caixa de R$ 262,2 milhões. O custo médio da dívida era de CDI mais 3,09%. A relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado fechou o ano em 4,67 vezes.

A empresa afirmou que cumpriu os covenants no período. O próprio release, porém, detalha que a primeira emissão de debêntures contou com waiver para os exercícios encerrados em dezembro de 2024 e dezembro de 2025. A segunda emissão exigia relação de até 5 vezes dívida líquida sobre Ebitda ajustado. No Hospital Anchieta, controlada do grupo, a exigência era a mesma.

Do lado positivo, a companhia reportou geração de caixa operacional de R$ 198,5 milhões em 2025, mais que o dobro de 2024. A conversão do Ebitda ajustado em caixa foi de 66,2% no quarto trimestre, contra percentual negativo no mesmo período do ano anterior. No ano, a conversão ficou em 36,9%, ante 18,6% em 2024.

Esse retrato ganha peso porque vem quase um ano depois de a HIG Capital, controladora da Kora, ter retirado a companhia do Novo Mercado da B3. Na ocasião, o argumento era ganhar flexibilidade para executar operações voltadas à redução da queima de caixa.