A companhia concluiu neste mês sua saída do Chapter 11 (mecanismo da legislação americana equivalente à recuperação judicial), que permite às empresas reorganizarem suas dívidas sob supervisão da Justiça — com uma estrutura de capital radicalmente diferente: dívida total reduzida em US$ 1,2 bilhão e mais de US$ 75 milhões em novo aporte de capital.
A reestruturação, porém, não foi um episódio isolado. Esta foi a segunda vez em quatro anos que a Lycra passou por um processo conduzido por credores para reorganizar suas finanças. O capítulo mais turbulento começa em 2019, quando o grupo chinês Ruyi Textile and Fashion International adquiriu a companhia.
O que veio depois foi uma sequência de golpes que poucos planos de negócio teriam antecipado: a pandemia desorganizou cadeias de suprimento e comprimiu a demanda por vestuário; a inflação persistente corroeu margens; competidores asiáticos de baixo custo avançaram sobre fatias de mercado historicamente da Lycra.
A recuperação esperada nos mercados-chave ficou aquém das projeções, e a incerteza gerada por tarifas comerciais, especialmente nas relações EUA-China, adicionou uma camada extra de imprevisibilidade.
Em 2022, ainda sob o controle do grupo Ruyi, os credores já haviam assumido a companhia após a empresa deixar de cumprir pagamentos de suas dívidas. A Lycra trocou de mãos sem conseguir estabilizar suas operações. As taxas de utilização das oito plantas de produção despencaram para cerca de 60%, e o EBITDA — indicador que mede o resultado operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização — projetado para 2026 havia caído para US$ 44 milhões, menos de um terço dos US$ 132 milhões registrados em 2024.
No início de 2025, a Lycra tentou uma saída pela venda: anunciou que cederia a companhia a outro grupo chinês e quitaria toda a dívida pendente. Em agosto, ficou claro que o negócio não fecharia. Os credores ativaram o Plano B: assumir o controle via processo judicial, mas a deterioração financeira havia avançado além do que a reestruturação original previa.
Após meses de negociações, o pedido de Chapter 11 foi protocolado no Texas em 17 de março de 2026. A dívida incluída no processo somava US$ 214 milhões em empréstimos sênior, US$ 520 milhões em títulos emitidos em euros e US$ 780 milhões em bonds em dólares.
O acordo com os credores já estava desenhado antes mesmo da entrada formal na Justiça e previa um corte de US$ 1,2 bilhão na dívida, além de uma nova injeção de capital. Ao longo do processo, a empresa afirmou que manteria as operações em funcionamento, continuaria honrando fornecedores e preservaria cerca de 2 mil empregos.
Sob nova direção
A saída do Chapter 11 vem acompanhada de uma reformulação na liderança. Gary Smith deixou o cargo de diretor-presidente. Em seu lugar, de forma interina, assumiu Dean Williams — até então diretor financeiro e executivo presente na empresa desde sua formação, há mais de sete anos. Foi ele quem assinou o próprio pedido de recuperação judicial em março; agora, lidera a reconstrução da companhia.
A escolha tem lógica: Williams conhece os números, acompanhou o processo por dentro e tem trânsito com os novos sócios — fundos de investimento globais que já detinham posições nos títulos da companhia antes da reestruturação e que, ao converter dívida em equity, seguem o caminho mais comum do Chapter 11 americano. A busca por um CEO permanente já foi iniciada.
Bruce Rubin, executivo com mais de 45 anos de experiência nos setores de energia e químicos, assumirá a presidência do novo conselho de administração da companhia. “Estamos posicionados para elevar a excelência operacional, acelerar a inovação e aprofundar as parcerias com clientes”, afirmou Rubin em comunicado — linguagem que, na prática, sinaliza prioridade para ganhos de eficiência antes de qualquer plano mais agressivo de expansão.
A Lycra sai do processo em situação objetivamente melhor. A redução de dívida libera caixa que antes era consumido por serviço financeiro. O aporte de capital dá fôlego para investimentos postergados. E há um ativo que nenhuma reestruturação cria do zero: o valor da marca.
Lycra é uma das raras marcas de fibra têxtil reconhecidas pelo consumidor final — fenômeno incomum num setor em que o ingrediente costuma ser invisível. Essa percepção de qualidade, construída em décadas, é o que diferencia a empresa de um fornecedor genérico de elastano e, provavelmente, o que levou os novos sócios a apostar na recuperação em vez da liquidação.
Mas os riscos não desapareceram. A concorrência asiática de baixo custo segue presente. O ambiente de tarifas comerciais permanece volátil. E o histórico recente, dois processos de insolvência em quatro anos, cria uma pergunta que a nova gestão terá de responder com resultados: a crise foi conjuntural, produto de uma tempestade perfeita de fatores externos? Ou há algo mais profundo no modelo de negócio que ainda precisa ser resolvido? A resposta virá nos próximos trimestres.