A Motiva (ex-CCR) chega ao terceiro ano da gestão de Miguel Setas tentando consolidar de vez a estratégia que marcou a chegada do executivo português, em março de 2023: concentrar a companhia em rodovias e trilhos e manter a estrutura de capital sob controle para que a alavancagem deixe de ser um freio à expansão.

A aguardada venda da operação de aeroportos – defendida por Setas desde que assumiu o comando da então CCR – foi finalmente anunciada em novembro, restando agora a conclusão do acordo de R$ 11,5 bilhões com a mexicana Asur

A negociação, que envolve 20 terminais, é tratada pela gestão da Motiva como peça central dessa reorientação estratégica, reposicionando o grupo como operadora concentrada em estradas de grande circulação e nos sistemas de trens e metrôs.

Em conversas com analistas nesta terça-feira (9), após a divulgação dos resultados do quarto trimestre, Setas afirmou que a prioridade é atuar apenas em negócios onde a companhia tenha vantagem frente aos concorrentes. “Estamos focados nos ativos onde somos líderes e temos competências claramente distintivas”, reforçou o CEO.

Endividamento

O movimento ocorre em paralelo a um esforço explícito de controle de endividamento — tema que segue no radar do bloco de controle da companhia, formado por Votorantim, Mover (ex-Camargo Corrêa), Itaúsa e a família Soares Penido, e que se tornou um dos principais mandatos desses acionistas para a gestão de Miguel Setas.

Ao fim de 2025, a dívida líquida somava R$ 34,1 bilhões, ante R$ 27,1 bilhões um ano antes, elevando a alavancagem para 3,6 vezes o resultado operacional (Ebitda) ajustado, contra 3,3 vezes em 2024.

A administração atribui o avanço ao ciclo de investimentos em ativos ainda em fase de maturação e afirma que a desalavancagem depende do fechamento da venda da plataforma de aeroportos, previsto para este ano. Segundo a companhia, a transação deve reduzir a alavancagem para abaixo de 3 vezes.

Segundo a companhia, a alta da alavancagem reflete principalmente as vitórias em novos leilões de concessão. Só os projetos das rodovias Rota Sorocabana e da PRVias adicionaram cerca de R$ 3,1 bilhões em dívida, enquanto a Motiva executou R$ 8,7 bilhões em investimentos em 2025 – ritmo que deve permanecer elevado neste ano.

O comando da Motiva afirma trabalhar com um limite interno de alavancagem de 3,5 vezes, faixa considerada saudável para o porte atual da empresa. No longo prazo, a ambição é operar entre 2,5 e 3 vezes, patamar visto como estruturalmente mais confortável.

Novas receitas

Setas indicou que a companhia pretende participar de novos leilões apenas em ativos considerados estratégicos e alinhados ao eixo rodovias–trilhos. Perder disputas, segundo ele, faz parte do processo quando os preços não refletem rentabilidade adequada. “Vamos continuar extremamente rigorosos na alocação de capital”, afirmou.

Mais do que buscar expansão via novas concessões, a Motiva vê nos aditivos contratuais de ativos existentes uma das principais avenidas de geração de valor. Em 2025, a empresa anunciou reequilíbrios e expansões relevantes, como a extensão da Linha 4-Amarela até Taboão da Serra, que prevê cerca de R$ 4 bilhões em investimentos adicionais e alongamento do prazo da concessão.

Trem da Linha 4 do Metrô de São Paulo, concessão da Motiva (
Trem da Linha 4 do Metrô de São Paulo, concessão da Motiva (Divulgação)

A companhia também afirma estar se antecipando à reforma tributária. Segundo executivos, já há estudos internos para estimar impactos e preparar pedidos de reequilíbrio contratual junto aos reguladores, com o objetivo de evitar compressão de margens. A administração diz tratar o tema como prioridade antes da entrada plena do novo regime fiscal, prevista para o ano que vem.

Gestão de gastos

Enquanto a redução da dívida não se materializa, a empresa afirma ter acelerado iniciativas de eficiência. O indicador de despesas operacionais sobre receita caiu para 37,5% – meta originalmente prevista para 2026 – e o custo caixa ajustado recuou 14% no ano. O quadro de funcionários foi reduzido em 8,6%.

Apesar da pressão sobre o balanço, o ritmo de investimentos permanece elevado. A Motiva projeta R$ 8,3 bilhões em capex para 2026, concentrados em rodovias e trilhos.

A estratégia declarada é priorizar aditivos contratuais e a expansão de ativos já operados, vistos como investimentos de menor risco e retorno mais previsível do que projetos greenfield, que são aqueles iniciados do zero.

Aos números

No quarto trimestre de 2025, a Motiva registrou receita líquida ajustada de R$ 4,0 bilhões, alta de 6,8% em relação ao mesmo período de 2024, impulsionada por reajustes tarifários nas rodovias estaduais de São Paulo e pelo crescimento das receitas complementares.

No mesmo comparativo, o lucro líquido ajustado somou R$ 606 milhões, avanço de 68,3%, refletindo melhora operacional e redução de custos. 

No acumulado de 2025, o lucro líquido ajustado da companhia atingiu R$ 2,2 bilhões, alta de 25% sobre o ano anterior.