A venda da operação da Avon na Rússia, concluída nesta quinta-feira (19), encerra o período no qual a ambição global arrastou a Natura para resultados fracos ao longo dos últimos anos. A transação foi avaliada em aproximadamente 26,9 milhões de euros, equivalentes a R$ 166,3 milhões. Os recursos da operação foram recebidos pela Natura em 17 de fevereiro de 2026.

A notícia é “levemente positiva, mas amplamente esperada”, porque a Rússia era “a última operação da Avon fora da América Latina” e, mesmo sendo uma transação pequena, tende a ser bem recebida por “encerrar o capítulo da Avon International”, observou o time do JP Morgan.

O banco também chama atenção para um ponto sensível do mercado: o dinheiro já foi recebido, o que reduz o medo de execução diante do contexto geopolítico da região.

O Citi vai na mesma direção. Manteve recomendação neutra para as ações, e enquadrou a venda da Avon Rússia como um movimento alinhado ao esforço de simplificação e fortalecimento do balanço.

Mesmo com poucos dados divulgados, o banco estima que a operação russa representava 10% a 15% das receitas da Avon International, mas não queimava caixa — ou seja, não era uma “pedra no sapato” operacional, mas permanecia como uma frente fora do core, difícil de explicar e de precificar.

Foco na América Latina

Esse “alívio” ajuda a contextualizar por que o foco importa agora. No terceiro trimestre, a Natura sentiu a desaquecimento do consumo de beleza no Brasil, frustrando a própria companhia e o mercado.

À época, o CEO João Paulo Ferreira chamou o trimestre de “desempenho fraco” e citou desafios “autoimpostos” ligados à integração Natura–Avon, além de investimentos em sistemas e logística em um ambiente de consumo pior do que o esperado.

CEO da Natura Cosméticos João Paulo Ferreira
CEO da Natura João Paulo Ferreira

No Brasil, a receita líquida caiu 3,7%, para R$ 3,2 bilhões. A marca Natura ficou praticamente estável, enquanto a Avon encolheu 17,3%, já sentindo a combinação de demanda mais fraca e um “hiato” de inovação enquanto aguarda o relançamento. A margem Ebitda recorrente do Brasil caiu para 16,2%, 6,9 pontos abaixo do ano anterior, pressionada por custos mais altos em projetos de inovação e sistemas.

Na América Hispânica, o cenário também foi desafiador por causa da Onda 2 — a integração de Natura e Avon — especialmente na Argentina. Excluindo o país, a empresa já dizia ver melhora gradual, apoiada por uma recuperação do México. A promessa da gestão é que os ganhos da integração fiquem mais visíveis ao longo deste ano.

É aí que a venda da Rússia muda o enquadramento da história. Com o capítulo internacional encerrado, a Natura reduz o “barulho” e entrega ao investidor uma tese mais direta – e mais exigente. A expectativa dos investidores está em torno da recuperação da Avon na América Latina, olhando especialmente para o portfólio e inovação no relançamento da marca.

Neste ano, a Avon iniciou um plano de redução de seu portfólio, encurtou o tempo de desenvolvimento de novos produtos e ampliou os investimentos em tecnologia aplicada tanto ao produto quanto à operação. A linha Power Stay, por exemplo,vai ganhar mais relevância no catálogo, indo além da categoria de maquiagem.