“Estamos preparados”, disse o CEO Horacio Marín na quarta-feira (18), em entrevista em Buenos Aires. “Gerenciamos nosso portfólio muito bem, então, em um ambiente de preços baixos do petróleo, não precisamos reduzir investimentos. Nosso capex não muda se o barril valer US$ 70 ou US$ 55.”
A YPF investiu US$ 3,5 bilhões em upstream (exploração e produção de petróleo e gás) nos 12 meses até setembro. Marín quer que os gastos se mantenham nesse nível para sustentar o avanço da empresa em shale e, assim, cumprir a promessa de retornos significativos para os investidores. Uma nova medida política de Milei para estimular investimentos em petróleo também deve ajudar.
“Este é o ano-chave”, afirmou Marín, veterano do setor petrolífero de 62 anos, que apresentará a estratégia completa da YPF para 2026 em teleconferência de resultados em 27 de fevereiro. “Porque é o último ano da nossa transição — e então podemos decolar.”
A YPF quer superar 200 mil barris por dia de petróleo de shale este ano, disse Marín, ante 170 mil no terceiro trimestre de 2025, após dois anos de cortes agressivos de custos e desinvestimentos. Essa expansão incluiu duas recentes vendas de ativos que geraram US$ 1 bilhão extra para o caixa da empresa, além de um acordo pendente para sair da distribuidora de gás natural Metrogas SA.
Primeira vez que pagará dividendos
Se o plano de crescimento dos lucros for bem-sucedido nos próximos anos, a YPF mira pagar dividendos aos acionistas pela primeira vez em uma década. Suas ações negociadas em Nova York subiram 127% desde a posse de Milei e valem cerca de US$ 38. A meta de Marín para o fim de 2027, quando termina o mandato de Milei, é atingir US$ 60.
A região de shale de Vaca Muerta, na Patagônia, é central para o plano de Milei de estabilizar a economia argentina, historicamente sujeita a crises, pois pode gerar enormes superávits comerciais de energia, incluindo o maior registrado no ano passado. Por isso, o governo ampliou nesta quinta-feira seu programa de incentivos a investidores para incluir a perfuração de poços de shale.
Antes, o elemento de petróleo do programa, conhecido pelo acrônimo em espanhol RIGI, abrangia apenas recursos de upstream, como plantas de separação, gasodutos e exploração offshore. Expandir para poços de shale, com investimento mínimo de US$ 600 milhões por projeto, estimulará mais produção para “acelerar o uso da infraestrutura de gasodutos e exportação e, ao mesmo tempo, aumentar a competitividade”, disse o governo em decreto.
“Será ótimo para a indústria”, afirmou Marín de sua suíte com vista para o estuário do Rio da Prata.
Os benefícios fiscais, cambiais e aduaneiros do RIGI, que melhoram significativamente a viabilidade econômica de projetos de energia e mineração, podem atrair empresas independentes dos EUA interessadas em levar sua expertise em shale ao exterior, à medida que as melhores áreas (“Tier 1”) se esgotam na Bacia Permian.
A Continental Resources, do bilionário do shale Harold Hamm, foi recentemente a primeira dessas empresas a apostar em Vaca Muerta. Marín afirmou ter conversado informalmente — sem fechar acordo — com a Continental e também com a Devon Energy, que no início deste mês se tornou uma das maiores empresas de shale do mundo ao adquirir a Coterra Energy.
“A Argentina é um destino lógico para essas empresas continuarem crescendo”, disse Marín. “Seus geólogos gostam de Vaca Muerta — discutimos isso informalmente.”
O RIGI também pode ser útil frente ao potencial renascimento da vasta indústria petrolífera da Venezuela, onde Marín trabalhou por vários anos.
Enquanto a Venezuela produz petróleo pesado e amargo, ao contrário do shale leve e doce da Argentina, o CEO da YPF destacou que a maior produção regional reforça a necessidade de manter os custos baixos. “Não podemos ter custos supérfluos, porque é isso que te tira da competição”, disse Marín.
Além do shale, Marín supervisiona o projeto emblemático de exportação de gás liquefeito (LNG) da Argentina, uma parceria com a italiana Eni SpA e a XRG da Abu Dhabi National Oil Co., que deve transportar ao menos 12 milhões de toneladas anuais de LNG, junto com muitos líquidos associados de gás natural.
Com a confirmação da XRG como parceira, compromisso que se tornou vinculante na semana passada, a busca por pelo menos US$ 14 bilhões em financiamento se intensifica. Esse, de fato, seria o maior acordo de financiamento de projeto da história da Argentina. Marín comparou a captação do dinheiro, parte dele podendo vir de agências de crédito à exportação, a montar um quebra-cabeça.
“Temos que ver como vamos organizar isso”, disse. “Há vários bancos oferecendo tickets iniciais que são muito caros.”