Yoder, gerente de cadeia de suprimentos em Chicago, tem uma geladeira Family Hub da Samsung Electronics. Ele pagou US$ 1.400 por um eletrodoméstico com uma tela de 32 polegadas na porta, que permite controlar outros dispositivos da marca, acessar receitas ou ouvir música.
Mas, desde o outono passado, o aparelho vem exibindo anúncios de forma intermitente — parte de um programa piloto testado em algumas geladeiras inteligentes da Samsung Electronics vendidas nos EUA. A reação? Nada positiva.
“Acho que este é mais um lugar para alguém enfiar propaganda na sua cara”, disse Yoder, de 47 anos, ao lembrar a primeira vez que viu um anúncio.
Os americanos aprenderam a conviver com anúncios em smartphones e outros dispositivos como um preço a pagar pela conectividade. Também se acostumaram à crescente invasão da publicidade no mundo físico — de cabines de banheiro a bancos de táxi. Mas a cozinha permanecia, em grande parte, um espaço preservado.
Os anúncios aparecem apenas em alguns modelos Family Hub com tela e conexão à internet. Eles surgem como um banner retangular na parte inferior — dentro de um widget que também mostra notícias, previsão do tempo e calendário.
A Samsung Electronics não informou quanto tempo o teste vai durar nem se será encerrado. A empresa apresentou recentemente a iniciativa “Telas em todos os lugares”, que inclui também máquinas de lavar, secadoras e fornos.
Will Tipton só quer voltar a uma geladeira comum. O animador 3D em El Paso ficou irritado quando seu aparelho começou a exibir anúncios em banner.
Pluribus
Semanas depois, toda a tela exibiu um anúncio da série de ficção científica “Pluribus”, do Apple TV+. A propaganda, em letras maiúsculas, repetia uma frase dirigida à protagonista Carol Sturka: “Pedimos desculpas por termos te irritado, Carol.”
“Acho rude adicionarem algo sem meu consentimento depois que a compra foi concluída”, disse Tipton, de 27 anos.
Ele espera devolver a geladeira — e encerrar de vez sua relação com a empresa. “Nunca mais vou comprar um eletrodoméstico ou dispositivo da Samsung, a menos que seja absolutamente necessário.”
A Samsung Electronics lançou os anúncios em formato de banner por meio de uma atualização de software em outubro. Em nota, a empresa afirmou que exibiria “anúncios contextuais ou não personalizados” e respeitaria a privacidade dos dados. Os banners podem ser desativados nas configurações.
Segundo a companhia, o objetivo do piloto é avaliar se anúncios relacionados a tarefas domésticas podem ser úteis, e a rejeição geral tem sido mínima. A taxa de desativação permanece em níveis baixos, de um dígito.
Sobre o anúncio em tela cheia visto por Tipton, a empresa disse que, ao acessar a internet pelo navegador da geladeira, podem aparecer anúncios de terceiros — algo que não pode controlar ou bloquear.
Embora os usuários possam desativar os banners, isso elimina todo o widget — o que frustra alguns. Brian Bosworth, engenheiro da indústria de mídia em Edgewater (Maryland), gostava do recurso, mas não dos anúncios. Para contornar o problema, ele configurou o bloqueador de anúncios do roteador doméstico para incluir a geladeira — e desde então não viu mais publicidade.
Outros fabricantes seguem caminho diferente. LG Electronics, Whirlpool e GE Appliances disseram que pretendem manter seus eletrodomésticos livres de anúncios. “Nossas telas são projetadas como ferramentas funcionais, não como superfícies publicitárias”, afirmou Jason May, executivo da GE Appliances.
Consumidores poderiam ser mais tolerantes se os produtos fossem vendidos com desconto em troca da exibição de anúncios, disse Avinash Collis, professor da Carnegie Mellon University. “Acho que a empresa calculou mal os benefícios em relação às perdas”, afirmou.
Os anúncios não promovem apenas produtos da marca. Um banner recente de detergente Tide exibiu a mensagem: “Mais limpo, mais branco, mais brilhante, mais fresco”.
James Rafferty, que não possui uma geladeira inteligente da Samsung, também está irritado. O engenheiro aeronáutico de 38 anos acredita que consumidores que pagam caro por um produto premium deveriam decidir como usar a tela.
“Não deve virar um outdoor corporativo”, disse Rafferty, que possui geladeiras das linhas KitchenAid (da Whirlpool) e Frigidaire (da Electrolux). Ele não tem interesse em comprar uma geladeira da Samsung diante dessa estratégia.
A ameaça de anúncios também gera reação negativa em outros países. Siobhan Ellis, que vive em Cornwall, na Inglaterra, tem vários eletrodomésticos conectados da Samsung e teme que o recurso chegue ao Reino Unido. A empresa afirmou que não pretende expandir a funcionalidade para fora dos EUA no momento.
Ela não pretende abandonar os produtos agora, mas, ao se mudar para a Austrália em dois anos, já decidiu que não comprará novos aparelhos da marca.
“Eles deveriam pensar melhor nisso”, disse Ellis, de 62 anos. “Não é só a geladeira — é todo o efeito em cadeia.”
Nem todos são totalmente contra. Eddie Chavez, da Califórnia, diz que não se incomodaria com anúncios ocasionais — especialmente se forem úteis.
“Se for algo que distraia”, afirmou, “aí vira um problema.”
Traduzido do inglês por InvestNews