Assim, em uma manhã de domingo de 2005, Marvin Mann ligou para Abigail Johnson para perguntar se poderia passar em sua casa em Milton, no estado americano de Massachusetts. O membro do conselho de fundos não explicou o motivo.
A visita deu início a alguns dos meses mais turbulentos da história de 80 anos da Fidelity, quando uma das maiores dinastias de Wall Street parecia perder o controle do império que ajudou a moldar o mundo dos investimentos.
Hoje, a Fidelity administra cerca de US$ 18 trilhões em ativos, fatura mais do que a BlackRock e participa da gestão das economias de vida de um em cada cinco adultos nos EUA.
A presença da empresa na vida de milhões de americanos cresceu ainda mais na última década — período em que Abby finalmente sucedeu seu pai como presidente da Fidelity.
Hoje, aos 64 anos, ela lidera um conjunto de negócios de investimentos cuja amplitude não tem paralelo. Ainda assim, a empresa permanece uma anomalia: privada e controlada por uma família extremamente reservada.
Ned Johnson, que sucedeu o próprio pai — fundador da Fidelity — como chairman, acompanhou a ascensão da filha ao topo da empresa.
Alta e esguia, Abby tinha óculos e o mesmo corte de cabelo que usava na adolescência. A insegurança dos seus 20 anos deu lugar a uma confiança silenciosa construída com experiência, embora ainda fosse vista por muitos como difícil de ler.
Assim como o pai, Abby enfrentou céticos no início da carreira.
Mas enquanto Ned ganhou credibilidade como gestor ao acertar apostas em ações nos anos 1960, Abby não teve o mesmo sucesso como investidora nem uma trajetória linear como executiva. Em vez de ser vista como herdeira natural, suas críticas aumentaram.
Os quatro anos à frente da principal divisão de fundos da empresa foram difíceis: fundos perdendo dinheiro, saída de talentos e um escândalo envolvendo favorecimento de corretoras. Também havia tensões entre pai e filha sobre o futuro da companhia.
No fim de 2004, Bob Reynolds, principal executivo da Fidelity, levou ao pai de Abby preocupações de executivos e conselheiros sobre sua liderança. Ele sugeriu substituí-la. Abby acreditava que Reynolds queria forçar uma venda da empresa.
Ned deu três meses para que ela melhorasse os resultados. Quando o prazo terminou, Reynolds pressionou para que ela fosse removida. Ned concordou — com uma condição: alguém teria de lhe contar.
Na visita à casa de Abby, Mann disse que ela não estava desempenhando bem. Dias depois, Ned confirmou a decisão: ela seria afastada da divisão de fundos. Em seu lugar, seria deslocada para a área filantrópica da empresa — claramente uma demissão disfarçada.
Abby reagiu de forma direta: “Eu me demito.” A resposta abalou o pai. Dias depois, Ned recuou parcialmente e ofereceu uma alternativa: ela assumiria a divisão de serviços de planos de aposentadoria 401(k), um dos maiores negócios da empresa.
A mudança expôs um conflito latente entre Abby e Reynolds. Ele tentou manter influência sobre a área, enquanto ela buscava autonomia. Abby chegou a ouvir dele: “Você é inteligente, Abby, mas não é seu pai.”
Ao mesmo tempo, surgia uma nova tensão: pela primeira vez, Ned considerava a possibilidade de vender a Fidelity — algo impensável após seis décadas de controle familiar.
Plano de sucessão
Abby se opôs, mas temia que a saída do pai abrisse caminho para uma venda a bancos como Bank of America ou JPMorgan Chase.
A crise evoluiu para um impasse familiar e corporativo.
Em 2005, Abby sinalizou que poderia se opor à reeleição de diretores, acionando uma disputa pelo controle da empresa. O embate chegou ao conselho, com acusações de ambos os lados sobre uma possível “tomada de poder” dentro da família.
No fim, um acordo evitou a ruptura: Abby manteve seu papel na empresa e a estrutura acionária foi ajustada para reforçar o controle de Ned. A tentativa de revolta acabou pressionando a família a formalizar um plano de sucessão.
Nos anos seguintes, Abby recuperaria sua posição, liderando a reestruturação da divisão de aposentadoria e expandindo sua influência dentro da Fidelity, enquanto a dinastia Johnson permanecia no comando de um dos maiores impérios financeiros privados do mundo.
Traduzido do inglês por InvestNews