Uma operação deflagrada pelo Ministério Público de Minas Gerais nesta terça-feira (2) mirou um esquema estruturado de fraude em ICMS e lavagem de dinheiro envolvendo atacadistas, redes de supermercados e empresas do varejo no Estado. Conduzidas ao longo de 18 meses, as investigações da Operação Ambiente 186 apontam sonegação superior a R$ 215 milhões e já levaram ao bloqueio de R$ 476 milhões em bens dos suspeitos.

Entre os citados está uma empresa do Grupo Coelho Diniz e André Coelho Diniz, principal acionista e chairman do GPA — dono das redes Pão de Açúcar e Extra —, informação publicada inicialmente pelo site O Fator e confirmada pelo InvestNews. As companhias Atakmix Atacadista e Martmix Atacarejo também aparecem como alvos.

Em nota enviada ao InvestNews, o Grupo Coelho Diniz afirma que a rede de supermercados não é alvo da operação, assim como os investimentos da família no GPA (leia a nota completa no fim deste texto). Sobre a empresa do grupo citada na operação, a HAF Distribuidor, os Coelho Diniz disseram que ainda não tiveram acesso às informações da investigação.

A notícia circulou nesta manhã entre os principais acionistas do GPA. Fontes próximas à companhia ouvidas pelo InvestNews dizem que o momento é de cautela. “Não é nada bom, mas vamos acompanhar”, diz uma das pessoas.

O que é investigado?

A operação, conduzida por um grupo de trabalho que envolve o MP de Minas, a Polícia Civil e a Secretaria da Fazenda do Estado, cumpriu 15 mandados de busca e apreensão em Minas Gerais, sem ordens de prisão. Foram apreendidos cerca de R$ 100 mil em espécie, 14 celulares, 22 dispositivos eletrônicos e 3 veículos de luxo.

Segundo a investigação, o grupo utilizava empresas de fachada — as chamadas “noteiras” — em estados como Goiás e Espírito Santo para simular operações interestaduais com alíquotas reduzidas de ICMS, prática conhecida como “barriga de aluguel”.

Na realidade, as mercadorias circulariam apenas dentro de Minas Gerais, enquanto as notas fiscais registravam vendas interestaduais, permitindo reduzir artificialmente a carga tributária, inclusive no ICMS por substituição tributária.

Entre os investigados está o ex-publicitário Marcos Valério, condenado no caso do mensalão, apontado como integrante de um dos núcleos da organização.

Atuação dos Coelho Diniz

O documento descreve diferentes frentes de atuação — de comando, emissão de notas e escoamento de mercadorias à lavagem de dinheiro — e afirma que parte do esquema teria como principais beneficiárias empresas como WT Ltda. e Grupo HSI, além de estruturas ligadas a mineração ilícita e ao uso de veículos de luxo para lavar recursos.

Um dos núcleos mencionados é vinculado ao Grupo Coelho Diniz, por meio da HAF Distribuidora Ltda. e da Big Works Comércio Importação e Exportação Ltda..

A decisão cita membros da família, como André Coelho Diniz e Fábio Coelho Diniz, como alvos da investigação, atribuindo a eles a autorização de pagamentos a “noteiras” e a organização do fluxo de notas fiscais e quitações usadas para reduzir o ICMS devido em Minas Gerais.

O caso tramita sob sigilo na 4ª Vara de Tóxicos, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores de Belo Horizonte, e o Ministério Público mineiro não confirma oficialmente os nomes dos investigados.

A repercussão chegou ao mercado acionário. As ações do GPA (PCAR3) chegaram a abrir em forte queda e fecharam o dia cotadas a R$ 3,98, queda diária de 0,5%. Foi a segunda maior queda do Ibovespa nesta terça-feira, em um dia em que o índice bateu novo recorde.

A reportagem tentou contato com André Coelho Diniz, mas não teve resposta até o fechamento deste texto. A assessoria da rede Coelho Diniz disse que ainda não teve acesso às investigações que envolvem a HAF Distribuidor. O InvestNews não conseguiu contato com os grupos Atakmix Atacadista e Martmix Atacarejo.

Nota da família Coelho Diniz

Com relação à operação conjunta, realizada no dia de hoje (2 de dezembro), pelo Ministério Público de MG, Receita Estadual e polícias de MG, importante destacar que o Supermercados Coelho Diniz não é alvo da investigação, assim como não são alvo os investimentos da família Coelho Diniz no Grupo Pão de Açucar.

A HAF Distribuidor ainda não teve acesso às informações da operação que resultou nas medidas cautelares patrimoniais e de busca e apreensão realizadas nesta data. De qualquer forma, afirma a inexistência de autuação fiscal e respectivo lançamento de crédito tributário. 

Tão logo tenha acesso aos autos, a HAF Distribuidor prestará todos os esclarecimentos porventura necessários à demonstração da regularidade das suas operações.

Família Coelho Diniz