Os fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) cresceram em velocidade muito acima da média do mercado de capitais nos últimos anos, com um salto de 360% no patrimônio desde 2021. Mas esse avanço vertiginoso começa a cobrar um preço: há sinais de que os veículos mais expostos a empresas de menor porte começam a enfrentar problemas de inadimplência.

Um levantamento da provedoras de dados financeiros Uqbar mostra que, em março, vários FIDCs apresentaram atrasos de pagamentos de crédito dos portfólios. O LL Capital RL, gerido pela Redwood Administração de Recursos e focado em recebíveis comerciais, encerrou o mês com patrimônio líquido de R$ 234,53 milhões e atrasos equivalentes a R$ 37,83 milhões.

Outros destaques negativos incluem o Max Financeira, classificado como multiclasse, ou seja, que opera vários tipos de contratos, que apresentou um PL de apenas R$ 43,87 mil frente a atrasos de R$ 8,12 milhões. O Alion II, da Valora, e o MCPO, da Angá, reportaram volumes de atrasos de, respectivamente, R$ 47,8 milhões e R$ 28 milhões.

O levantamento da Uqbar mostra que alguns fundos atingiram rentabilidade negativa de 100% no período, o que significa perda integral do valor da cota.

Entre esses FIDCs estão o Condocash II, da Arandu Legal Claims, o Lana RL, da Artesanal MCMS, o Alion II, o MCPO, o MRV Pró Soluto I, da Riza, o Resolve Capital Multicarteira, da Artesanal, o SG Cred Fic, da Iron Capital, e o JC Salus, da Jus Capital.

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Em um momento no qual o crédito privado mostra sinais de rachaduras em termos de perdas a investidores, como mostram as recuperações extrajudiciais de companhias endividadas, como Raízen, GPA e Kora Saúde, entre outras, os FIDCs também estão expostos aos mesmos riscos.

A rentabilidade dos fundos depende do fluxo de pagamento de recebíveis, duplicatas, de recuperação de dívidas e outros instrumentos de antecipação de receitas usados pelas empresas. O grande risco é os devedores dos títulos cedidos dos fundos ficarem inadimplentes.

Sonegação de informações

A transparência também tem piorado. Os dados do levantamento, divulgado anteriormente pelo Neofeed, mostram que, em março deste ano, 122 FIDCs tinham atrasos na apresentação mensal de informações à CVM (Comissão de Valores Mobiliários), o regulador e de fiscalização do mercado de capitais. O apagão de informações alcança um patrimônio líquido de R$ 66,35 bilhões.

A pesquisa identificou ainda 54 fundos com “buracos no histórico”, ou seja, que atrasaram ou deixaram de entregar os informes ao longo dos últimos meses, ainda que tenham atualizado os dados recentemente. São FIDCs de casas como Reag, BTG Pactual, Limine Trust, Planner, ID Corretora, Banvox, Actual, Vortx, Oliveira Trust, Sefer, Qore e WNT.

São atrasos que ocorrem desde o último trimestre de 2025. E muitos se mostram recorrentes. Os dados indicam que o crescimento da indústria tem sido mais rápido do que o investimento na infraestrutura de controle. O volume massivo de transações torna a verificação de lastro mais complexa.

A reincidência na falta de entrega de informes compromete a supervisão e deixa o investidor no escuro sobre a real saúde financeira e a continuidade das operações desses veículos.

Os problemas passaram a aumentar com a forte expansão do setor. A indústria já alcança um patrimônio de R$ 829,6 bilhões e ruma para a casa do trilhão neste ano. Em 12 meses até março, o segmento cresceu 23% e, em cinco anos, houve um salto de mais de 4,5 vezes em tamanho.

Esse avanço veio a reboque, principalmente, da liberação do acesso desses veículos para investidores de qualquer perfil, incluindo o varejo, a partir do fim de 2023, com a entrada em vigor da instrução 175 da CVM.

Com muito mais capital disponível, gestores sofrem pressão para alocar recursos rapidamente. Isso pode levar à aceitação de ativos de menor qualidade ou com garantias frágeis apenas para não deixar o dinheiro parado, o que acaba elevando o risco de inadimplência.

Segundo especialistas, os problemas dos FIDCs ainda estão longe de se transformarem em uma crise sistêmica. Mas os riscos têm se tornado cada vez mais evidentes. Boa parte dos FIDCs, por exemplo, funciona como uma estrutura de crédito fora do sistema bancário.

Em um ambiente de juros ainda elevados e com a perspectiva de se manterem altos por mais tempo, muitas empresas financiadas pelos portfólios enfrentam dificuldades para manter os pagamentos.

A qualidade do crédito acende um sinal amarelo especialmente nos FIDCs Multicedente-Multissacado (MM). Esse tipo de veículo compra créditos de recebíveis de várias empresas (cedentes). Isso significa que a carteira reúne uma grande quantidade de devedores (sacados) desses recebíveis. Trata-se de um tipo de portfólio conhecido no mercado como “pulverizado”.

Como funciona? Por exemplo, uma indústria vende seus recebíveis ao fundo. Os recebíveis são obrigações de pagamentos futuros de clientes da empresa. Do outro lado, os pagadores desses recebíveis são dezenas ou centenas de clientes diferentes (multissacado). Como o FIDC pode ter negócios com várias companhias é chamado de multicedente.

O chamado “atraso normalizado” — que mede a razão entre créditos vencidos e o total da carteira — subiu para 11,30% em março de 2026. Embora o aumento pareça marginal (0,28 ponto percentual em relação ao ano anterior), o estoque de créditos vencidos e não pagos deu um salto de 32,2%, superando o ritmo de crescimento da própria carteira dos fundos.