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Infiltrado na Limer

ESG no Catar? Veja erros e acertos questionados durante a Copa do Mundo

Gols a favor das áreas ambientais e socioeconômicas, mas erro no lance quanto aos direitos humanos, essas foram as jogadas do anfitrião do maior evento esportivo do mundo.

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Cerimônia de comemoração às três últimas seleções classificadas para a Copa do Mundo de 2022, em Doha, Catar 16/06/2022 REUTERS/Mohammed Dabbous

O Catar fez a lição de casa, ainda que não tenha conseguido a nota máxima, em relação à sustentabilidade ambiental ao realizar a Copa do Mundo. A competição encerrada recentemente consagrando a latino-americana Argentina como campeã contabiliza outros gols, vitórias e derrotas, além das literais, concretizadas nas quatro linhas. As tarefas para uma Copa sustentável, com responsabilidade social e ambiental foram objeto de compromisso e, pela primeira vez, a Federação Internacional de Futebol (FIFA) desenvolveu uma estratégia de sustentabilidade em conjunto com o país que recebeu a competição. 

Apesar da distância entre promessa e realidade, abraçar a agenda oficialmente, assumir como obrigação realizar um evento o mais próximo possível da responsabilidade social e ambiental, é um marco. Podemos citar a mobilidade – distâncias curtas entre os locais de jogos; os estádios desmontáveis ou que serão reutilizados para outras atividades; acessibilidade e uso de energia solar (um avanço de recursos tecnológicos); o uso consciente da água e sua reutilização, assim como cuidado com a geração de resíduos, algo que faz parte do todo megaevento.

Ainda assim, é importante ressaltar que há especialistas que questionam parte do legado, por exemplo, debatendo a compensação de emissão de carbono a longo prazo e verificando que nem tudo que era necessário está contemplado pelos dados oficiais. O Carbon Market Watch (CMW) analisou que a pegada de carbono provavelmente está longe das emissões reais do torneio – por não serem consideradas as emissões que virão dos novos estádios quando a Copa acabar.

Nessa edição catari, todos os estádios obtiveram a certificação Global Sustainability Assessment System (GSAS), um selo constituído num sistema integrado de avaliação de construções e de obras de infraestrutura verdes, em conjunto com impactos no meio ambiente. O GSAS tem a meta de promover práticas sustentáveis nas várias etapas da edificação, desde o projeto, construção, até a fase operacional, com identificação de desafios para reduzir impactos no meio ambiente local. 

Outro gol que podemos celebrar é o fortalecimento da cultura de responsabilidade com a agenda sócio-econômico-ambiental, à qual a FIFA já antecipa que, países que sejam anfitriões terão que garantir a aplicação de medidas rígidas de priorização da sustentabilidade, visando emissões líquidas zero até 2040.

Além disso, a FIFA enfatizou e obteve compromisso nesta edição da Copa do Mundo com a conscientização sobre a geração de lixo. Segundo representação do Comitê Supremo de Organização e Legado da Copa do Mundo da FIFA Qatar 2022 há ciência sobre os impactos que esses resíduos representam ao meio ambiente e à sociedade e as medidas possíveis foram tomadas.

Ao focarmos no “S”, do Environmental, Social and Governance (ESG), temos que alertar para a situação de trabalhadores e trabalhadoras imigrantes, para a discriminação contra símbolos, representações e pessoas LGBTQi+ , para a tutela masculina sobre mulheres catari, derivada de locais e costumes religiosos.

A questão da imigração é latente e gigantesca, pois o Catar tem cerca de 3 milhões de habitantes e apenas 350 mil são catarianos, realmente considerados cidadãos, com tratamento de nativo pelo Estado, acesso a benefícios sociais negados a estrangeiros. É gritante, em termos salariais, para citarmos um parâmetro global, a desigualdade. Os cidadãos do país-sede da Copa têm acesso gratuito ao sistema de saúde, auxílio-moradia e auxílio-transporte, além de um salário médio de cerca de US$ 700 mil por ano contra – por exemplo – US$ 5 mil anuais de um trabalhador migrante da área de construção.

Há também quem não seja catari e esteja incluído na zona de privilégios, como migrantes ricos que podem viver em locais como uma “bolha dentro da bolha”, identificada como “A Pérola”, uma ilha residencial em que prevalecem costumes ocidentais, com alta qualidade de moradia e serviços, à qual tive acesso na minha recente viagem ao país da Copa, devido a uma premiação concedida na iniciativa Todos em Campo. 

Em relação às mulheres, a ONG Human Rights Watch (HRW) publicou um extenso relatório – em 2019 – que descreve uma das práticas que não estão na constituição do país, mas fazem parte de práticas, a tutela masculina: “é uma mistura de leis, políticas e práticas em que as mulheres adultas devem obter permissão de seu responsável masculino para atividades específicas”, diz a HRW. O guardião masculino pode ser pai, irmão, tio, padrinho ou marido. Evidentemente, algumas têm permissão para estudar, trabalhar, viajar e outras – a depender dessa guarda considerada legal no país – ficam impedidas de realizar atos que são considerados direitos em outros lugares do mundo.

Outro ponto a ser destacado – e que foi objeto de protestos durante a Copa do Mundo – é a criminalização da população LGBTqi+. Isso acontece de forma legal, pois no Catar, a homossexualidade é crime previsto em lei, fazendo parte do conjunto de 70 países no mundo que proíbem relacionamentos homoafetivos (dados da Anistia Internacional), e a condição pode ser punida com prisão, castigo físico e até deportação. 

Impedimentos, faltas, gol contra, expulsão de campo, são algumas metáforas desagradáveis originadas de jogos de futebol. Os avanços em alguns pontos de ESG, são gols a favor, enquanto as práticas que violam, ameaçam, cerceiam direitos humanos, em especial de populações que mencionamos, são aqueles gols contra que devem estar fora da competição em qualquer país. 

*Alan Soares é um empreendedor social reconhecido internacionalmente. Além de especialista em negócios, é um dos fundadores do Movimento Black Money, onde utiliza seu conhecimento em prol da liberdade financeira da comunidade negra no Brasil.

As informações desta coluna são de inteira responsabilidade do autor e não do InvestNews e das instituições com as quais ele possui ligação. 

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