O Irã voltou a impor restrições ao tráfego de navios no Estreito de Ormuz neste sábado (18), e Israel atacou alvos no Líbano, abalando as expectativas de um acordo de paz iminente alardeado por Donald Trump.

A República Islâmica comunicou aos navios que a via estava fechada ao tráfego marítimo, e um superpetroleiro relatou tiros, segundo proprietários de embarcações na região que pediram para não ter seus nomes divulgados devido à situação de segurança.

O caos no Estreito de Ormuz eclodiu um dia depois de Teerã afirmar que a passagem seria reaberta aos navios comerciais. Mais cedo, o Irã havia rechaçado a exigência americana de manter um bloqueio naval até a assinatura de um acordo, chamando a medida de “banditismo” marítimo.

Há também sinais de que o cessar-fogo no Líbano – vinculado à decisão iraniana de liberar a navegação por Ormuz – pode estar se desfazendo. As Forças de Defesa de Israel (IDF) afirmaram ter atingido “sabotadores” que se aproximavam de suas tropas em violação da trégua.

Os acontecimentos contrariam o otimismo crescente de que EUA e Irã estariam perto de um amplo entendimento para encerrar uma guerra de sete semanas que já deixou milhares de mortos e interrompeu a exportação de energia do Golfo Pérsico.

Na sexta-feira, Trump afirmou que um acordo com o Irã pode estar próximo e acrescentou que trabalharia com a República Islâmica para recuperar a “poeira nuclear” do país.

Mas Esmail Baghaei, porta-voz da Chancelaria iraniana, disse à TV estatal que o urânio enriquecido “é tão sagrado para nós quanto o solo iraniano, e não será transferido para lugar nenhum, em hipótese alguma”.

O material — que, segundo os EUA, ficou enterrado em grande profundidade após o bombardeio americano às instalações nucleares iranianas durante a guerra de 12 dias no ano passado — está no centro dos esforços para encerrar o conflito, e seu destino é peça-chave de qualquer entendimento mais amplo.

A expectativa de uma paz duradoura vinha ganhando força, com Teerã afirmando na sexta-feira que Ormuz estava aberto à navegação comercial.

As primeiras rachaduras apareceram no sábado, com a crítica iraniana à manutenção do bloqueio americano.

Logo depois, a Marinha britânica informou que um petroleiro havia sido abordado por lanchas armadas da Guarda Revolucionária iraniana antes de ser alvejado, acrescentando que a embarcação e sua tripulação estavam em segurança.

O líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, declarou que a Marinha do país “está pronta para fazer os inimigos provarem a amargura de novas derrotas”, em mensagem no Dia Nacional do Exército. Não ficou claro se o pronunciamento foi uma resposta direta ao que ocorreu em Ormuz.

Vários petroleiros fizeram meia-volta no sábado depois de aparentemente tentarem atravessar o estreito. Não ficou imediatamente claro o motivo da mudança de rota.

Outros resolveram aproveitar a janela aberta pelo anúncio de sexta-feira. O FPMC C Lord, um petroleiro de grande porte carregado com óleo cru do Catar e da Arábia Saudita, navegava ao sul da ilha iraniana de Larak e seguia rumo ao Golfo de Omã por volta do meio do sábado, tendo como destino declarado Fujairah, nos Emirados Árabes.

Outros petroleiros também estão apontando para a passagem. Mais cedo, três navios de GNL e um transporte de derivados de petróleo — alguns deles sob sanções dos EUA — seguiram rumo a leste em direção ao Golfo de Omã, acompanhados um pouco atrás por um navio de produtos com bandeira do Paquistão. Outros navios de GNL também se aproximavam do estreito.

“Embora um acordo pareça à vista e possa encerrar esta rodada de hostilidades entre EUA e Irã e trazer alívio aos mercados de energia, é improvável que isso resulte em uma paz plena ou duradoura”, escreveram os analistas da Bloomberg Economics, entre eles Jennifer Welch, em relatório. “Avaliamos que qualquer acordo será limitado e frágil.”

Trump disse à Bloomberg em entrevista por telefone na sexta-feira que o Irã concordou em suspender seu programa nuclear por tempo indeterminado e que “a maior parte dos pontos principais” das conversas com o país está fechada.

Ele negou que os EUA venham a liberar qualquer parcela dos fundos iranianos congelados — uma exigência central de Teerã que ele há muito critica.

“Simplesmente acho que é algo que deveria acontecer. É algo que só faz sentido acontecer. E acho que vai. Vamos ver o que ocorre”, disse Trump, em outro momento, sobre a possibilidade de fechar um acordo com o Irã, enquanto voltava a Washington depois de um evento em Phoenix. “Acho que será muito benéfico. E o principal é que o Irã não terá uma arma nuclear.”

O presidente também ventilou a possibilidade de retomar ataques ao Irã assim que o atual cessar-fogo expirar, na próxima semana. “Talvez eu não prorrogue — aí vocês ficam com o bloqueio e, infelizmente, teremos que voltar a soltar bombas”, afirmou.

Os comentários de Trump e o anúncio de Teerã sobre Ormuz na sexta-feira foram os indícios mais recentes de que os dois lados estão trabalhando nos bastidores em um acordo, depois que a primeira rodada de conversas diretas, realizada no Paquistão na semana passada, terminou sem resultado.

A guerra levou o Irã a retaliar bases americanas em toda a região e atacar instalações de petróleo e gás de aliados dos EUA no Golfo, deflagrando uma crise energética global.

Os preços do petróleo, dos combustíveis e do gás natural despencaram na expectativa de que os últimos desdobramentos encerrassem a guerra e permitissem o trânsito seguro de mais suprimentos de energia por Ormuz. O Brent caiu 9% na sexta-feira, para cerca de US$ 90 o barril, apagando quase toda a alta acumulada desde o início do conflito. O diesel nos EUA e na Europa também recuou.

Em uma mudança notável, os preços reais do petróleo também cederam de forma expressiva, junto com os preços futuros. Na sexta-feira, o Brent caiu abaixo de US$ 100 o barril pela primeira vez desde 11 de março. As bolsas ampliaram a alta com a especulação de que a guerra estaria prestes a terminar.

Uma das propostas em discussão prevê que os EUA liberem US$ 20 bilhões em fundos iranianos congelados em troca de Teerã abrir mão do estoque de urânio enriquecido, segundo reportagem do Axios, que citou dois funcionários americanos e outras duas fontes a par das conversas, sem identificá-los.

Trump rechaçou a ideia na entrevista por telefone, respondendo repetidamente “não” quando questionado se liberaria os US$ 20 bilhões.

Autoridades paquistanesas e americanas sinalizaram que uma nova rodada de negociações está em preparação. Questionado se viajaria ao Paquistão para assinar um acordo, Trump respondeu: “Talvez”. O Irã afirmou que ainda não concordou com uma nova rodada.

Muitos traders e analistas seguem céticos quanto à possibilidade de um restabelecimento rápido dos fluxos relevantes de petróleo. Os EUA afirmaram que o bloqueio imposto no início desta semana a navios que partem ou chegam a portos iranianos continua em vigor.