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Economia

Com inflação subindo e Selic ainda baixa, Brasil segue com juros negativos

Situação é inédita na história do real; especialistas apontam que cenário deve permanecer por alguns meses.

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em

REUTERS/Adriano Machado

Em meio à necessidade de estimular a economia em uma crise sem precedentes, a pandemia trouxe juros baixos pelo mundo todo – e, no Brasil, não foi diferente. Aliado à alta da inflação nos últimos meses, o cenário significa também a permanência de um marco para o país: taxa de juros real negativa, algo inédito desde a criação do real.

Na última semana, o Comitê de política monetária anunciou a elevação da taxa básica de juros da economia, a Selic, a 3,5%. O avanço – que deve continuar pelos próximos meses – faz parte do chamado movimento de “normalização da taxa de juros”. A Selic permaneceu na mínima histórica de 2% ao ano por cerca de 7 meses. A alta começou em março, depois de 6 anos sem que o Banco Central elevasse a taxa.

Os juros baixos coincidem no momento com o avanço da inflação. Em março, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou alta de 6,1% em 12 meses – acima do teto da meta do BC de 5,25%. Com isso, a Selic segue acima do índice de inflação – fenômeno visto pela primeira vez em 2019 em todo o histórico de juros no Brasil. 

Considerando a inflação de 6,1% e a Selic em 3,5%, o juro ficaria negativo em cerca de 2,45%. Já considerando a inflação projetada para os próximos 12 meses (e não a registrada), a taxa de juros real do Brasil fica positiva, em 1,71%, segundo levantamento da Infinity Asset.

“Vale lembrar que, antes da pandemia, nós estávamos com juros de 4%, 4,25%, e iríamos subir juros no médio prazo. Então, nós não chegaríamos ao fenômeno de manutenção consistente de juros negativos por muito tempo. Mas veio a pandemia e a gente teve que reduzir os juros”, comenta Rodrigo Franchini, sócio e Head de Produtos da Monte Bravo Investimentos. 

Apesar de a inflação ainda ser uma preocupação no radar, a expectativa do mercado é de que esse cenário de juros negativos comece a se inverter com o ciclo de alta já iniciado pelo BC. “Com certeza ter juros negativos é uma coisa inédita para o Brasil. É até preciso você ter política monetária expansionista, sim. Mas, como o próprio BC já tem sinalizado, não dá para manter nesse nível, do jeito que está”, afirma Bruno Komura, estrategista de renda variável da Ouro Preto Investimentos. 

Os especialistas comentam que essa não é uma realidade exclusiva no Brasil, principalmente em um momento em que diversos países tiveram que estimular a economia para mitigar a crise econômica causada pela pandemia. Com juros mais baixos, a ideia é aquecer o consumo e investimentos em produção.

“Com certeza, olhando para outros mercados, se você olhar o mercado americano, ele também está com juros reais negativos, e faz sentido também. Porque, do mesmo jeito que a economia foi duramente impactada pela pandemia, eles precisam dessa política para ajudar na retomada”, diz Komura. 

“O mundo está vivenciando um fenômeno inédito que é uma crise global dessa magnitude. Uma coisa é você ter um padrão de saída de crise, uma ideia monetária e fiscal e, em cima disso, vai trabalhando seu plano. Quando você entra numa crise sanitária, você não tem padrão. Qual velocidade vai ser para que o mundo saia dessa crise? Ninguém sabe”, comenta Franchini. 

“Então, entendendo isso, a gente consegue entender o fenômeno de juros baixos no mundo. Se você pegar um título alemão, você perde dinheiro em 10 anos. Ele tira dinheiro, não remunera nada, assim como um suíço, um austríaco. Em boa parte do mundo, principalmente na Europa, você vai ter essa diminuição de renda se aplicar em juros locais, juros soberanos.”

No entanto, apesar de a situação do Brasil ser semelhante à de outras economias, especialistas apontam as particularidades por aqui. A primeira delas é que o Brasil já está em um movimento de alta de juros, ao contrário, por exemplo, dos Estados Unidos, que devem manter as taxas perto de zero ainda por mais tempo. Outra diferença é a velocidade da retomada da economia.

“O momento acaba sendo bastante diferente. Nos EUA você já tem uma vacinação andando em um ritmo bastante acelerado, com uma boa parcela da população já sendo vacinada, isso permite que você já tenha uma clareza maior de como vai ser o ritmo”, diz Komura. “Aqui no Brasil, a gente tem uma situação bastante diferente. A gente já está precisando diminuir esses estímulos porque a inflação já está fazendo pressão apesar de a economia não estar tão bem.” 

De qualquer maneira, Franchini acredita que “esse fenômeno de juros negativos vai continuar nos próximos meses, porque esse IPCA ainda vai continuar batendo mais forte e mais elevado do que os nossos juros no acumulado.”

Mas vale ressaltar que, assim como o Brasil, outros países também já começaram a olhar para a inflação e deixaram de lado a política de continuidade do alívio dos juros. Segundo levantamento da Infinity Asset feito neste mês, entre 168 países, 86,9% mantiveram os juros, 11,3% elevaram e 1,8% cortaram.

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