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Economia

De Collor a Bolsonaro: a economia muda, mas o conflito fiscal se repete

Do trauma do confisco aos dias atuais, agentes do mercado financeiro relatam como os erros do passado afetaram os investimentos, as corretoras, o emprego e a nossa economia.

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em

por

Katherine Rivas

Na fatídica tarde de 16 de março de 1990, muitos dos que trabalhavam no mercado financeiro tinham a convicção de que uma medida drástica precisaria ocorrer na economia brasileira para botar a casa em ordem. A inflação na época era galopante e boa parte das pessoas apostava em um congelamento de recursos como solução — apenas não imaginava a proporção que isso tomaria.

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O matemático financeiro José Dutra Vieira Sobrinho lembra que nos 12 meses que antecederam o plano Collor, a inflação chegou a avançar 6.391%. “Foi a inflação de abril de 1989 até março de 1990”, recorda. No mês de março de 1990, a inflação oficial foi de 84,32%.


O trauma do confisco


No dia do confisco dos recursos da poupança, Dutra estava no Rio de Janeiro ministrando um curso da BM&F Bovespa para profissionais do mercado financeiro. Ele lembra que a economia já dava os primeiros sinais do que aconteceria, mas ninguém suspeitava que a crise também afetaria o setor privado. “Dias antes de o Collor implantar o plano, o comércio elevou o preço dos produtos em 300%”, conta.

Na época, não existia uma ampla diversidade de investimentos quanto hoje. As pessoas e empresas aplicavam em títulos do Tesouro Nacional que venciam no mesmo dia, conhecidos como overnight, ou em títulos privados como CDBs (Certificado de Depósito Bancário), letras de câmbio e mercado futuro. “Os investidores da época acreditavam que o governo fosse congelar o overnight, mas nunca imaginaram que eles mexeriam nos títulos privados, a poupança e até na conta corrente”, lembra Dutra.

Ele estava tão convicto de que nada aconteceria, que quando um aluno do curso o procurou pedindo conselho porque pensava em resgatar seus investimentos e deixar o dinheiro no banco sem nenhuma aplicação, Dutra achou aquilo um absurdo. “Ele deve ter me xingado muito depois, mas seria prejudicado de qualquer forma. Collor confiscou tudo”, lamenta.

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Na sexta-feira, dia 16 de março de 1990, Fernando Collor de Mello anunciou que todos os recursos acima de 50 mil cruzados, na conta corrente, poupança, títulos públicos e títulos privados foram confiscados. O que representa hoje algo equivalente a US$ 1.300, com o dólar cotado a R$ 5,45, em média um cerca de R$ 8.175. Dutra calcula que, com a correção monetária atrelada à inflação da época, estaríamos falando de aproximadamente R$ 13.300. Todo valor superior a esta quantia foi sequestrado pelo governo.

Com o congelamento de recursos, uma nova moeda entrou em circulação: o cruzeiro. As pessoas ficaram apenas com até 50 mil cruzados na conta corrente ou poupança. Para aqueles que aplicavam em títulos privados ou públicos, 80% dos recursos foram confiscados. O governo deu um prazo de 18 meses para devolver o dinheiro, a conta gotas, pago em 12 parcelas com 6% de juros ao ano. Foram congelados também preços e salários.

Nas primeiras semanas, o impacto econômico foi fulminante. Muitas pessoas ficaram sem ter o que fazer. Na época, Dutra tinha a agenda lotada de cursos de matemática financeira até o mês de setembro. Mas, depois de anunciado o confisco, todos os cursos foram cancelados. “Fiquei sem dinheiro nenhum, por sorte eu recebi direitos autorais de um manual que produzi sobre maquininhas. Foi o que me salvou na época”, recorda.

Aos poucos, muitos setores do mercado encontraram “jeitinhos” para driblar o confisco e resgatar os recursos. O resultado é que o plano não fez efeito esperado e, passados 3 ou 4 meses do ocorrido, a inflação já estava voltando.


O que aconteceu com as corretoras?


Trabalhar em uma corretora de valores na época era uma experiência totalmente diferente da que conhecemos hoje. Ivan Sant’Anna, especialista em trading da Inversa, conta que os operadores estavam habituados a lidar com uma inflação superior a 30% e eram muito bons em ganho real.

O acesso aos investimentos também era muito desigual no período. A inflação afetava os mais pobres, que viram seu salário consumido e muitas vezes não tinham conta bancária. Quem aplicava no mercado financeiro precisava de ganhos acima da inflação. Em agosto de 1988, por exemplo, Ivan analisou em um relatório para a FNJ (Felipe Nery Junqueira), corretora em que trabalhava na época, o comportamento de certos ativos:

Enquanto a inflação daquele mês era de 24,04%, o rendimento da poupança naquele período foi de 24,66% e o overnight entregava 23,99%. Seguido dos CDBs que rendiam 24,66% e do Ibovespa, que tinha ganhos de 3,65%. Concorrer com inflação elevada não era fácil. Naquele mês, o que mais rendeu foi o dólar, com ganhos de 28,94%.

Na década dos 90, Ivan trabalhava operando mercados futuros e commodities. Seus investimentos estavam aplicados nos EUA e tinha em cruzados apenas os recursos para pagar as contas. O confisco não trouxe muitas consequências para ele, apenas a desvalorização do dólar que aconteceu rapidamente porque muitas pessoas começaram a vender a moeda em casas de câmbio. “Sem cruzados, as pessoas começaram a se desfazer do dólar”, explica.

Na corretora onde ele trabalhava, a FNJ, eram poucos os funcionários que trabalhavam com mercado internacional. Com os recursos confiscados e a bolsa de valores despencando, 70% dos funcionários foram demitidos, lembra Ivan. Apenas quem operava com ativos do exterior ou com dólar conseguiu preservar o emprego.

O conselheiro do Corecon/SP Eduardo Velho também viveu uma realidade semelhante. Na época, ele trabalhava na corretora Fonte Investimentos, do extinto Banco Fonte, na área de juros futuros. A equipe era enxuta, cerca de 20 pessoas em todo o Brasil.

Quando o confisco aconteceu, a liquidez do mercado e o volume financeiro caiu. O dólar foi o mais pressionado. “Quem tinha posição em dólar vendeu para gerar dinheiro e pagar as despesas”, conta Velho. O mercado financeiro ficou no limbo até que os congelamentos foram flexibilizados. “Aos poucos as corretoras com mais liquidez e patrimônio foram voltando”, recorda. No tempo em que o mercado financeiro ficou parado, muitos colegas também ficaram sem trabalho. “Muita mão de obra para pouco mercado”, diz.


Os bancos sofreram menos


Quem trabalhava em banco naquele período viveu uma realidade muito diferente. Fabio Galdino, da Vero Investimentos, por exemplo, era gerente de operações do Banco Mercantil na época, e atendia clientes de alta renda. Ele lembra que nas primeiras semanas após o confisco, as pessoas estavam indignadas mas rapidamente começaram a se apropriar do novo momento na economia. “Começaram a utilizar os cruzados bloqueados como transferência de recursos para pagar impostos ou contas. Surgiu um mercado secundário com este tipo de recurso”, lembra.

Ele conta que muitos clientes pareciam ter adivinhado que o confisco iria ocorrer, porque tinham muito dinheiro em espécie. Como a maioria eram fazendeiros, juízes ou funcionários públicos, os principais ativos onde eles aplicavam eram commodities, gado, soja, café. Os cruzados bloqueados surgiram como uma oportunidade para este público vender recursos com taxas elevadas.

Outra mudança foram os títulos ao portador. Galdino explica que, no passado, muitas empresas e pessoas podiam investir no anonimato, sem precisar identificar o recurso. Isso dava lugar a muita sonegação e Caixa 2, por meio dos títulos ao portador mesmo que a pessoa tivesse 1 milhão de cruzados investidos, muitos não declaravam isso nos impostos.

Collor tinha sido eleito com o discurso de “caçador de marajás”, prometendo acabar com o desperdiço de recursos e a clandestinidade. Quando o título ao portador foi abolido, Galdino aponta que muitos investidores deixaram largados os recursos. “Era mais fácil esquecer o dinheiro aplicado do que declarar a origem deste ou pagar imposto”, comenta.

Enquanto as corretoras afundavam, os clientes de Galdino precisavam fazer os recursos circular e o banco não sentiu os impactos. Pelo contrário, teve um fluxo muito ativo.

Marcio Cardoso, sócio-diretor da Easynvest, afirma que para os bancos o confisco não trouxe muito barulho. Na época, ele trabalhava na divisão brasileira do JPMorgan e recorda que a maioria dos investidores tomou uma posição defensiva com os ativos. “O volume de mercado caiu muito, as pessoas estavam sem liquidez e saíram vendendo o que tinham, dólar ou ouro”, conta. Sem dinheiro, Marcio lembra que o volume de negociação do Ibovespa ficou próximo de zero.

Mas, nas próximas semanas, surgiram as “goteiras” de liquidez, quando empresas ou pessoas encontravam um jeito de liberar alguns recursos, e conforme o confisco era flexibilizado, o mercado de capitais também se reestruturava.


Erros que se repetem


Independentemente de como a crise afetou os entrevistados ouvidos pela reportagem, todos concordam que era inevitável que o confisco de recursos ocorresse. Para Ivan Sant’Anna, o problema não foi o sequestro de recursos no Brasil e sim o fato de a medida não ter sido seguida à risca. Países como Alemanha e Cuba já tinham feito algo semelhante e deu certo. “O que deu errado no Brasil foi que começaram as ‘exceções’, para quem estava doente, para os idosos, aí devagarinho a inflação voltou”, defende.

Outros como Dutra e Galdino acreditam que o legado positivo do confisco foi o fim dos títulos ao portador, que colocaram um ponto final aos milhares de investimentos sem identificação. “Foi uma vergonha nacional. Muita gente optou por não resgatar os recursos do que comprovar a origem dos valores aplicados”, diz Dutra. A corrupção já existia desde tempos antigos.

Contudo, eles reconhecem que a economia mudou. O mundo dos investimentos também. Hoje vivemos um período de inflação baixa, abaixo de 2% ao ano. Há apenas um empecilho que se repete: a incapacidade do governo em lidar com seu quadro fiscal. Hoje, diante de uma pandemia e uma recessão, o país assiste a uma “queda de braço” entre agentes políticos que defendem o cumprimento do teto de gastos, de um lado, e uma ala favorável à ampliação dos gastos sociais, de outro.

Leia também: Brasil vive 10ª recessão econômica. O que muda agora?

Na visão de Ivan, tanta emissão de dinheiro no Brasil só pode dar lugar a mais inflação. Mas adverte que os efeitos da nossa inflação não são os mesmos que para outras nações. “Uma coisa é uma inflação de 8% nos EUA e outra é muito diferente aqui no Brasil” explica.

Ele reforça que não adianta o governo querer segurar a economia emitindo dinheiro porque a pandemia conseguiu gastar as reservas que algumas reformas permitiram, como a Previdência em 2019. “O governo errou no timing, ainda faltam 2 anos para a reeleição. Bolsonaro está emitindo dinheiro agora. Até lá, quando isso tudo virar inflação quero ver se o povo vai gostar dele”, conclui.

Para Galdino, o problema com o risco fiscal se repete. Se nos anos de 1990, o Brasil já era avaliado negativamente pelas agências de rating pela bagunça fiscal, a realidade não mudou muito em 2020. Ele acredita que emitir dinheiro ou acelerar a aprovação de pacotes de renda básica é um tiro no pé, porque vivemos um período onde não há dinheiro nos cofres públicos. “Não da para colocar o pé no acelerador. É importante ser cauteloso e investir em reformas que são realmente importantes”, diz.

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