Donald Trump, afirmou que enviará representantes ao Paquistão para negociações visando encerrar a guerra com o Irã já na noite de segunda-feira, ao mesmo tempo em que voltou a ameaçar atingir a infraestrutura civil do país caso Teerã não aceite um acordo.

Estamos oferecendo um ACORDO muito justo e razoável, e espero que eles aceitem, porque, se não aceitarem, os Estados Unidos vão derrubar cada usina elétrica e cada ponte do Irã”, escreveu Trump numa publicação nas redes sociais na manhã deste domingo.

À Fox News, ele disse que o Steve Witkoff (seu ex-advogado e amigo pessoal) irá a Islamabad para conversas na terça-feira, que podem se estender até quarta. O New York Post noticiou que Jared Kushner, genro de Trump, também participará das tratativas para pôr fim a um conflito que já matou milhares. O anúncio veio depois de o Irã voltar atrás na decisão de reabrir o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, em resposta a um bloqueio americano.

O impasse sobre Ormuz — por onde passava um quinto do petróleo mundial antes da guerra — ameaça aprofundar a crise global de energia e pôr em xeque as expectativas de um acordo de paz iminente. Ormuz é um dos vários pontos ainda em aberto nas negociações, ao lado do programa nuclear iraniano e da invasão israelense em curso no Líbano.

“Os navios aguardam instruções das forças armadas iranianas para saber se podem atravessar a rota”, informou neste domingo a agência semioficial Mehr, do Irã.

Ainda assim, no fim da noite de sábado, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf — que liderou a delegação de Teerã nas conversas com os americanos realizadas no Paquistão no início deste mês —, disse que, embora as divergências “continuem significativas”, as negociações avançam. Ele acrescentou que as forças armadas iranianas estão prontas para agir mesmo enquanto as discussões seguem.

“É impossível que outros passem pelo Estreito de Ormuz enquanto nós não podemos”, declarou em pronunciamento televisionado, em referência ao bloqueio naval americano.

Enquanto isso, os militares dos EUA se preparam para abordar petroleiros ligados ao Irã e tomar navios comerciais em águas internacionais nos próximos dias, para pressionar Teerã a reabrir Ormuz, informou no sábado o Wall Street Journal, citando autoridades americanas sob anonimato. A Casa Branca não respondeu de imediato ao pedido de comentário sobre a reportagem.

A marinha da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) divulgou um comunicado na tarde de sábado alertando embarcações a não deixarem seus ancoradouros no Golfo Pérsico e no Mar de Omã, e afirmando que a aproximação ao estreito “será considerada colaboração com o inimigo, e a embarcação infratora será alvejada”.

“Eles queriam fechar o estreito de novo, como vêm fazendo há anos, e não vão nos chantagear”, disse Trump a jornalistas no sábado, sobre o Irã — embora o estreito estivesse totalmente aberto até que Estados Unidos e Israel iniciassem a campanha de bombardeios, sete semanas atrás. “Teremos alguma informação até o fim do dia. Estamos conversando com eles. Estamos adotando uma postura dura.”

Vai e volta

Os acontecimentos das últimas 72 horas ilustram o caráter imprevisível do conflito e também o tom errático — e, por vezes, contraditório — das declarações de Trump.

Na sexta-feira, o presidente afirmou que um acordo com o Irã estava praticamente fechado, incluindo concessões que Teerã nunca tornou públicas, sinalizando que estava pronto para assinar e partir para a pauta doméstica. Chegou a dizer à ABC News que confiava nos iranianos — um grupo cuja civilização ele havia ameaçado exterminar pouco tempo antes.

Mas, crucialmente, Trump manteve o bloqueio do estreito em vigor até que um acordo fosse finalizado.

O Irã classificou o bloqueio como uma violação do cessar-fogo e se mexeu para fechar a hidrovia novamente. Foi o que provocou o novo desabafo de Trump, em que ele retomou as ameaças à infraestrutura civil do país caso não houvesse acordo.

Também surgiram sinais de que o cessar-fogo no Líbano — atrelado à decisão iraniana de liberar o tráfego em Ormuz — pode estar se desgastando. As Forças de Defesa de Israel (IDF) disseram ter atingido “sabotadores” que se aproximavam de suas tropas, em violação à trégua.

O impulso por uma paz duradoura vinha crescendo no fim da semana passada, mas as rachaduras começaram a aparecer no sábado, com a crítica iraniana ao bloqueio americano ainda em vigor.

Pouco depois, a Marinha do Reino Unido informou que um petroleiro fora abordado por lanchas da IRGC e, em seguida, alvejado — a embarcação e a tripulação estavam a salvo, segundo o órgão. Em episódio distinto, um porta-contêineres foi atingido por um projétil desconhecido na costa de Omã.

O líder supremo iraniano Mojtaba Khamenei afirmou que a “marinha do país está pronta para fazer os inimigos provarem a amargura de novas derrotas”, em declaração que marcou o Dia Nacional do Exército. Não ficou claro se a mensagem respondia diretamente ao que estava acontecendo em torno de Ormuz.

O Irã controla o estreito e vai assegurar seus direitos “seja na mesa de negociação, seja no campo”, disse o primeiro vice-presidente iraniano, Mohammad Reza Aref, segundo a agência Mehr.

“Embora um acordo pareça à vista e possa encerrar esta rodada de hostilidades entre Estados Unidos e Irã e aliviar os mercados de energia, dificilmente ele trará paz plena ou duradoura”, escreveram analistas da Bloomberg Economics, entre eles Jennifer Welch, em relatório. “Avaliamos que qualquer acordo será limitado e frágil.”

Os preços do petróleo, dos combustíveis e do gás natural despencaram com a expectativa de que os últimos acontecimentos significassem o fim da guerra e que mais energia pudesse passar por Ormuz com segurança. O Brent caiu 9% na sexta-feira, para cerca de US$ 90 o barril. Os preços do diesel nos Estados Unidos e na Europa também recuaram.

Numa mudança significativa, os preços reais do petróleo também cederam de forma expressiva, acompanhando as cotações futuras. Na sexta, o Brent dated, principal referência física do mundo, caiu abaixo de US$ 100 o barril pela primeira vez desde 11 de março. As bolsas ampliaram a alta com a especulação de que a guerra estaria perto do fim.

Uma das propostas em discussão prevê a liberação, pelos Estados Unidos, de US$ 20 bilhões em fundos iranianos congelados, em troca de Teerã abrir mão do seu estoque de urânio enriquecido, informou o Axios, citando dois funcionários americanos e outras duas fontes não identificadas a par das conversas.

Trump rechaçou a ideia em entrevista por telefone à Bloomberg na sexta-feira, repetindo “não” quando questionado se liberaria os US$ 20 bilhões.