As tentativas de retomar as negociações de paz na guerra contra o Irã travaram depois de o presidente americano Donald Trump cancelar no sábado (25) uma viagem programada de seus principais negociadores e os iranianos afirmaram que não vão negociar enquanto estiver sob ameaça.

No sábado, Trump pediu a Jared Kushner e Steve Witkoff que abandonassem a viagem ao Paquistão, país que está mediando as conversas, e mais tarde disse a jornalistas que o Irã “ofereceu muita coisa, mas não o suficiente”. O presidente iraniano Masoud Pezeshkian afirmou que seu país não entrará em “negociações impostas sob ameaça ou bloqueio”.

Embora o cessar-fogo venha se mantendo desde o começo de abril, os dois países seguem com bloqueios sobre o Estreito de Ormuz, transformando o estratégico ponto de passagem energético em rota praticamente intransitável. 

A interrupção de cerca de um quinto do fluxo mundial de petróleo foi classificada pela Agência Internacional de Energia (IEA, em inglês) como o maior choque de oferta de petróleo da história, e o conflito já levou a cortes nas projeções de crescimento global.

“Tempo demais perdido em viagens”, escreveu Trump em postagem nas redes sociais. “Ninguém sabe quem manda, nem eles próprios. Além disso, temos todas as cartas, eles não têm nenhuma! Se quiserem conversar, basta ligar!!!”

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, encontrou-se com mediadores no Paquistão no sábado e deixou Islamabad bem antes da chegada prevista dos enviados americanos. Em postagem nas redes sociais, ele disse que o Irã “ainda não viu se os Estados Unidos estão realmente sérios sobre diplomacia”.

Araghchi esteve em Omã neste domingo (26) para conversas com o sultão Haitham bin Tariq e planeja voltar ao Paquistão antes de seguir para a Rússia, segundo a agência estatal IRNA. Parte de sua delegação foi a Teerã para buscar orientação sobre questões relacionadas ao fim da guerra e voltará a se juntar ao chanceler em Islamabad.

Forças americanas interceptaram no sábado uma embarcação sancionada no Mar Arábico, como parte do bloqueio às exportações de energia do Irã, segundo o Comando Central dos EUA (Centcom).

A Marinha americana deslocou um helicóptero para a interceptação, e a embarcação acabou cumprindo a determinação militar de retornar ao Irã sob escolta. Ao todo, 37 navios já foram redirecionados desde o começo do bloqueio, segundo o Centcom.

O Irã, por sua vez, impõe seu próprio bloqueio em Ormuz, valendo-se da chamada “frota mosquito” de pequenos barcos armados. As travessias diárias caíram a quase zero, contra cerca de 135 antes do início do conflito, em 28 de fevereiro. 

Efeitos em dois meses

O mercado mundial de petróleo já tem como certa uma perda de oferta de cerca de 1 bilhão de barris, em parte por conta do tempo que será necessário para retomar os fluxos uma vez reaberto o estreito, segundo Russell Hardy, presidente-executivo do Vitol Group, em fala no FT Commodities Global Summit.

A cotação de referência do petróleo bruto fechou a US$ 105,33 por barril na sexta-feira, contra US$ 72,48 na véspera do início do conflito. O preço médio da gasolina nos Estados Unidos chegou a cerca de US$ 4 por galão na sexta, ante aproximadamente US$ 3 no fim de fevereiro. 

A guerra também asfixiou cerca de um quinto do fornecimento global de gás natural liquefeito (GNL), e os preços de referência na Europa estão hoje cerca de um terço acima dos níveis pré-guerra.

Em outra frente da região, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ordenou no sábado que suas Forças Armadas atacassem alvos do Hezbollah no Líbano, sem dar detalhes. 

As Forças de Defesa de Israel (IDF) afirmaram em seguida que conduziram ataques contra depósitos de armas no sul libanês. Pouco antes, haviam reportado o lançamento de dois projéteis do Líbano em direção a território israelense.

Trump havia anunciado em 23 de abril que Israel e o Líbano estenderiam por três semanas o cessar-fogo entre os dois países, abrindo caminho para a negociação de um acordo de paz permanente.

O cessar-fogo, originalmente em vigor desde 17 de abril, veio depois de quase dois meses de combate, deflagrado pela decisão do Hezbollah de aderir à retaliação iraniana contra os ataques conjuntos de Estados Unidos e Israel ao Irã, atingindo comunidades no norte israelense. 

O confronto escalou quando Israel invadiu o sul do Líbano para criar o que classificou como uma “zona de segurança”.

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