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Finanças

Por que as mulheres são apenas 24% dos investidores da Bolsa?

Ainda há pouco espaço para a diversidade na B3; investidoras brasileiras pertencem a classes A e B

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O número absoluto de mulheres que investem na Bolsa vem crescendo, mas a proporção em relação ao público masculino não evoluiu nos últimos anos. Segundo dados da B3, elas representam 24% dos investidores da Bolsa: até fevereiro, o número de investidoras era de 467 mil. Em 2005, por exemplo, 21% dos investidores eram mulheres. Em 2010, a proporção subiu para 25%, permanecendo em 24% desde 2015 até hoje.

Quem é a investidora da Bolsa

A maioria das investidoras da B3 tem entre 26 e 45 anos. Para Denise Damiani, especialista em finanças femininas e autora do livro “Ganhar, Gastar, Investir”, as mulheres que investem no Brasil pertencem na sua maioria às classes sociais A e B, e são mulheres brancas, de renda alta e moradoras da região Sudeste. “Infelizmente, ainda não há muito espaço para a diversidade”, afirma.

Helena Veronese, economista-chefe da gestora de recursos Azimut Brasil, acrescenta que as investidoras em bolsa estão no topo da pirâmide social. São aquelas que conseguem juntar dinheiro no final do mês, têm graduação ou mestrado e salários equivalentes ou superiores aos dos homens.

Já Luciane Ribeiro, sócia da GIMI Network, plataforma de educação financeira para mulheres e representante da America Latina no Comitê de Investimentos do Fundo de Pensão da ONU, afirma que dois grupos integram o universo das investidoras brasileiras: mulheres que, por meio da capacitação, entraram no mundo dos investimentos e “millenials” que possuem um perfil desbravador com o dinheiro.

Além destas classificações, as investidoras são de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, estados com maior concentração de renda do Brasil, e onde a população tem mais acesso a educação financeira.

Desafios

Apesar do crescimento no número de investidoras, ainda há dificuldades para superar os 24% de participação na renda variável.

Para Denise, a dificuldade está no fato de que as mulheres brasileiras não têm dinheiro suficiente para investir, porque ganham menos que os homens e gastam mais do que eles. Elas também não investem na bolsa de valores porque têm um perfil conservador e algumas inseguranças na hora de lidar com o dinheiro, deixando muitas vezes a decisão das finanças nas mãos do marido ou namorado.

Outro fator seria que as mulheres conquistaram a independência financeira depois que os homens. Por este motivo, elas teriam mais dificuldade em lidar com dinheiro. Um exemplo é a cultura do parcelamento ou a dificuldade de enxergar o crédito como endividamento. “Isso é consequência da falta de uma boa educação financeira para meninas. Antes, as mulheres cuidavam da casa ou trabalhavam ganhando menos. E as coisas estão mudando”, explica Helena.

Além do processo histórico, fazem parte desta desigualdade os padrões culturais que colocam os homens sob a figura de provedores, deixando a relação deles com as finanças muito mais natural. Já para as mulheres, além de ser tudo muito novo, ainda lidam com outra influência na hora de falar das finanças: as características comportamentais que podem atrapalhar os investimentos em ações. “As mulheres se preocupam mais com a segurança da família e dos filhos. Outro desafio é a ausência de informações de educação financeira que considerem o perfil emocional de cada mulher”, aponta Denise.

De acordo com um relatório da consultoria Franklin Templeton, 41% das mulheres acreditam ter menos conhecimento de mercado financeiro que os investidores médios. Para Luciane Ribeiro, esta insegurança está relacionada ao medo de serem julgadas ou humilhadas ao cometer erros financeiros. “Essa é uma realidade muito presente. Para superar isso, precisamos criar ambientes para falar de finanças entre mulheres, fortalecendo assim os nossos conhecimentos e a nossa necessidade de pertencer”, defende.

A ausência de espaços de troca deixa muitas mulheres inseguras, assim como a falta de um conteúdo adequado ao perfil comportamental delas. Para Denise, a saída está em levar conhecimento de “mulher a mulher”, onde as características emocionais também seja consideradas. “Os livros, cursos, palestras e canais de YouTube que falam sobre finanças atualmente não consideram nada disso”, diz ela.

Um espaço para todas

Para lidar com essa insegurança que assombra muitas mulheres quando falam de finanças, é importante encontrar os por quês. Um deles é o fato de as mulheres priorizarem a família e a educação dos filhos, o que as faz optar mais pela renda fixa. “Muitas mulheres têm aversão ao risco de investir, elas preferem ganhar pouco porém ganhar sempre”, explica Jenifer Correa, da PI Investimentos, fintech do grupo Santander. Além da insegurança, outros desafios das mulheres brasileiras são o desconhecimento dos direitos na hora de renegociar dívidas e a inadimplência.

A saída, segundo Jenifer, é aproveitar as características comportamentais femininas, tornando-as aliadas na hora de investir. Por exemplo: a busca por segurança, visão de longo prazo e predisposição para aprender.

A engenheira química Kairy Bernando de Lima (33), moradora de Recife, aproveitou da preocupação com o futuro da família para fazer disso uma ferramenta de transformação. Quando engravidou do primeiro filho, ela estava preocupada com a qualidade de vida, por isso começou a estudar para investir na bolsa.

Suas principais dificuldades foram encontrar educação financeira acessível na sua região, assim como empresas de capital aberto no Nordeste com papéis na Bolsa. “Comecei a pesquisar companhias nas quais gostaria de investir, mas me incomodava muito por não encontrar companhias da minha região, nem pessoas que falassem de finanças no Nordeste”, explica Kairy, que decidiu se tornar uma referência na área no seu estado.

Para ensinar outras mulheres a investir, ela criou um perfil nas redes sociais chamado Mulheres na Bolsa, onde há um ano compartilha com outras mulheres dicas diárias de investimentos.

Kairy Bernardo decidiu se tornar uma referência em finanças em Recife. Foto: Arquivo Pessoal

Quando era criança, Kairy não teve muitas referências de educação financeira. “Meus avós gostavam de poupar, mas ninguém me falava sobre o assunto. Nem na escola, nem na faculdade ou no trabalho”, conta. Para poder investir, Kairy pesquisou informações em livros, blogs e canais de YouTube. Após um ano e meio de estudo, comprou suas primeiras ações.

Aos 63 anos, Maria Moreira Senna encontrou na costura uma forma de gerar renda extra para seus investimentos. Foto: Arquivo pessoal

Maria Moreira Senna, de 63 anos, também encontrou certa dificuldade quando o assunto era finanças para mulheres aposentadas e de baixa renda. Ela começou a poupar aos 40 anos, porque antes sua renda como costureira era menor que um salário mínimo e muitas vezes era impossível guardar dinheiro.

“Na época pagava aluguel, contas e nem sempre sobrava dinheiro para investir. Comecei a poupar quando deixei de pagar aluguel”, conta. Com ajuda da filha, que trabalha com educação financeira.Maria se aventurou, fez seus primeiros investimentos em renda fixa (Tesouro e CDBs) há quatro anos.

Quando se aposentou, ela optou por continuar a trabalhar para ter um ingresso extra e poupar para viajar pelo Brasil. “Se não fosse pela minha filha, eu não saberia investir. Nunca encontrei informações claras sobre finanças para pessoas aposentadas. Isso é perigoso, tem aposentado que gasta todos os recursos e fica sem dinheiro”, explica.

Kairy e Maria são exemplos do longo caminho pela frente quando se fala do acesso de todas as mulheres à educação financeira. Segundo Denise Damiani, o percentual de 24% representa uma conquista, mas também é um lembrete de quem deve ser protagonista das nossas finanças. “A transformação real precisa acontecer de mulher para mulher, compartilhando conhecimento entre todas para conquistar nossos lugares na sociedade”. conclui.

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