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Finanças

‘Risco-Bolsonaro’: 3 fatores que derrubaram a bolsa após o 7 de Setembro

A leitura do mercado foi de que o discurso belicoso do presidente tem potencial de enfraquecer as pautas econômicas e amplia o debate sobre um possível impeachment.

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Presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia no Palácio do Planalto 15/01/2019 REUTERS/Ueslei Marcelino

O dia que sucedeu as manifestações de 7 de Setembro, convocadas pelos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, foi marcado por uma forte queda dos mercados. O Ibovespa, o maior índice de ações da bolsa brasileira, afundou 3,78%, aos 113 mil pontos, menor patamar desde março deste ano.

Apesar de ter atraído multidões às ruas em uma demonstração de poder contra seus algozes (os ministros do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, também é presidente do Tribunal Superior Eleitoral), a leitura do mercado foi de que o discurso do presidente tem potencial de enfraquecer as pautas econômicas no Congresso e amplia o debate sobre um possível impeachment.

1 – Risco político

Ao longo da tarde, o noticiário mais frequente sobre paralisações em estradas federais por caminhoneiros se somou ao clima já bastante azedo depois da fala de Bolsonaro. A leitura é de que o chefe do Executivo pode estar mais isolado e mais vulnerável a renovadas pressões por impeachment.

“Tivemos Joesley Day, coronaday, Petroday e agora BolsonaroDay”, comentou à Reuters Alfredo Menezes, sócio-gestor na Armor Capital, referindo-se a dias em que houve forte depreciação dos ativos brasileiros. “O foco agora para o mercado é o movimento de caminhoneiros, notícias de algumas paralisações. Seria horrível para o PIB e o fiscal. Pode ser um grande tiro no pé”, completou.

O mercado já abriu com reação negativa às falas de Bolsonaro na véspera e durante a manhã ficou na expectativa por declarações do presidente do STF, ministro Luiz Fux, e de figuras importantes do Legislativo.

O discurso de Fux foi considerado duro, enquanto o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), disse que a Casa atuará como uma ponte de pacificação entre o STF e o governo. Lira evitou falar de impeachment e pontuou que cada um dos Poderes tem as suas delimitações e deve se limitar a seu raio de ação.

“O incentivo do Bolsonaro é brigar… E agora gasolina, dólar, inflação… todos esses assuntos sumiram (da pauta do governo)”, disse um gestor de uma grande instituição financeira na capital paulista, avaliando que o mercado ainda tem espaço para piorar antes de qualquer alívio mais consistente.

O forte ajuste nos preços reflete ainda a percepção de que o melhor dos cenários agora pode se limitar a evitar uma deterioração adicional.

“(Bolsonaro) esticou demais a corda… Na minha visão o governo já perdeu toda a capacidade de fazer reformas decentes. Agora, quanto menos fizer e gastar tempo com isso, melhor”, disse à Reuters Joaquim Kokudai, gestor na JPP Capital. O profissional diz que suas posições em caixa (as mais conservadoras) têm espaço para aumento e “provavelmente é o que acontecerá”.

“Se conseguir manter o teto de gastos já vai ser uma ótima notícia”, resumiu o gestor.

2 – Risco para o cenário fiscal

Na avaliação dos analistas, os ataques e ameaças de Bolsonaro também devem impactar uma solução para o pagamento dos precatórios, que vinha sendo tratada em conjunto com Legislativo e Judiciário.

No mercado, as conversas são de que o patamar de risco de base agora é mais alto, com reformas “decentes” praticamente inviáveis, chance mais alta de a “bomba” dos precatórios explodir e a preservação do teto de gastos se tornando a única meta econômica crível do governo Bolsonaro.

“O ruído político aumentou consideravelmente… O investidor fica sem confiança e, na dúvida, vende”, afirmou à Reuters o sócio e economista da VLG Investimentos, Leonardo Milane.

O STF está discutindo com integrantes do Legislativo – via Conselho Nacional de Justiça (CNJ) – a possibilidade de imposição de limites aos pagamentos dos precatórios de acordo com critérios semelhantes aos hoje aplicados no teto de gastos (que restringe o aumento de despesas à inflação).

Para Victor Scalet, estrategista macro da XP, o aumento da temperatura política diminuiu consideravelmente as chances de encaminhamento da questão dos precatórios por esse meio.

“Se não for resolvido dessa maneira, teremos que nos voltar para algum tipo de tramitação no Congresso, e o mercado está com bastante receio de que avance uma PEC sobre esse tema que acabe saindo pior do que entrou, no clima político atual”, explicou.

“Não há como fazer uma estratégia de recuperação econômica, de reformas, uma agenda econômica, um marco para a agenda social com essa instabilidade política crônica”, disse Leonardo Barreto, cientista político e diretor da Vector Análise, para quem o 7 de Setembro aumentou o isolamento político do presidente e levou seu governo a uma espécie de “ocaso”.

Para Rafael Cortez, analista da Tendências, a situação atual pode permitir a aprovação pelo Congresso de uma articulação orçamentária que garanta uma elevação dos benefícios pagos pelos programas sociais do governo, já que esta é uma vontade tanto do Executivo quanto dos parlamentares, mas ele vê um cenário complicado para medidas econômicas estruturantes e um fechamento da janela para as reformas.

Para o cientista político e professor do Insper Carlos Melo, um dos efeitos das manifestações de terça será uma elevação dos custos para o governo Bolsonaro, seja para aprovar pautas legislativas, seja para evitar um impedimento, caso seja de fato deflagrado.

“Ficará tudo mais difícil. O presidente que dizia que era forte, não é tanto. Os preços, digamos assim, sobem no mercado político. Os apoios ficam mais caros.”

3 – Risco para a economia

Para analistas, a fala de Bolsonaro também deve ter reflexos no Congresso, com um aumento da dificuldade de aprovação de pautas, como a reforma administrativa. Com as reformas saindo do radar e atmosfera eleitoral tomando de vez conta das pautas do governo, analistas parecem se render à ideia de que agora a meta é evitar disrupções mais severas no cenário – com a preservação do teto de gastos na linha de frente.

“Se conseguir manter o teto de gastos já vai ser uma ótima notícia”, afirmou Kokudai, da JPP Capital.

“Só isso poderia colocar o mercado numa direção mais benigna de novo. Mas ainda assim tem toda a questão institucional. A corda ficou muito esticada, tem que ver se isso vai ter desdobramento fiscal de fato”, disse.

À medida que o governo parece já em modo eleição, há dúvidas até mesmo se os líderes da equipe econômica – Paulo Guedes (Economia) e Roberto Campos Neto (Banco Central) poderiam conter qualquer sanha gastadora do chefe do Executivo.

“Pelos últimos discursos parece que Campos Neto e Guedes estão muito mais alinhados para viabilizar as intenções do governo do que de contê-las”, afirmou à Reuters Carlos Duarte, da Planejar.

“O mercado hoje aceita o Guedes muito mais pelo medo de quem viria depois do que por expectativa dos feitos do ministro, mais pela ideia de que ele é alguém que busca tapar os buracos dentro do jogo, mas sem força política alguma.”

Agora, disse Scalet, da XP, resta aos investidores aguardar os próximos desdobramentos, ressaltando que qualquer sinal de alívio na frente fiscal poderia dar uma folga para os mercados brasileiros, cujos ativos já embutiam prêmios de risco altos antes mesmo da queda desta quarta-feira.

“Mas é preciso ter encaminhamento dos precatórios, saber como vão ficar os gastos com o Bolsa Família no ano que vem e ver se o teto vai ficar de pé.”

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*Com Reuters e agências

Este conteúdo é de cunho jornalístico e informativo e não deve ser considerado como oferta, recomendação ou orientação de compra ou venda de ativos.

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