A reserva de emergência tem um requisito básico: estar disponível quando você precisa, o que nem sempre coincide com o expediente bancário.

Alguns CDBs foram criados exatamente para esse propósito: oferecem liquidez real, a qualquer hora, em qualquer dia da semana. São poucas opções no mercado e elas cumprem o que prometem. Mas há ressalvas que o investidor precisa conhecer antes de comprar o produto.

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Hoje, as instituições financeiras que oferecem CDBs com liquidez “24 horas e 7 dias por semana”, o chamado 24/7, são: Inter, Mercado Pago, Nubank, PagBank e PicPay. Veja a comparação abaixo:

Instituição Disponibilidade real Rendimento Mínimo FGC
Inter 24h/7 dias, inclusive feriados na modalidade CDB de liquidez diária e “porquinho” (até 21h54 para crédito no mesmo dia) 100% do CDI R$ 1 Sim
Mercado Pago 24h/7 dias, inclusive feriados até 102% do CDI

R$ 1 Sim
Nubank 24h/7 dias, inclusive feriados na modalidade RDB* Resgate Imediato (Caixinha Reserva de Emergência) 100% do CDI R$ 1 Sim
PagBank 24h/7 dias, inclusive feriados 103% do CDI R$ 1 Sim
PicPay 24h / 7 dias, inclusive feriados no CDB de liquidez diária (Caixinha) 100% do CDI (mínimo) R$ 1 Sim
Fonte: instituições financeiras em ordem alfabética. *RDB = Recibo de Depósito Bancário, que funciona como um CDB.

Tudo aquilo que aparece como coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) está, necessariamente, aplicado em CDBs. O que não tem garantia do fundo está aplicado em títulos públicos federais.

No caso do Mercado Pago, um ponto merece atenção: uma promoção no lançamento, em novembro do ano passado, ofereceu CDBs com rendimento de 150% do CDI, indexador da renda fixa que se aproxima da taxa básica de juros, a Selic. Hoje, esse mesmo produto paga até 102%. Vamos entender como devem ser interpretados rendimentos acima – e muito acima – do CDI.

Risco de crédito: o maior ponto de atenção

Um CDB é uma dívida do banco que fez a sua emissão. Se o banco não honrar, você depende do FGC para reaver o dinheiro – e esse processo não é imediato. Para uma reserva de emergência, isso já é um problema estrutural antes de qualquer outra consideração.

O Tesouro Selic serve de régua: paga 100% da taxa básica de juros com risco soberano, o menor disponível no mercado brasileiro. É o risco do governo, o dono da máquina de imprimir dinheiro.

Qualquer CDB que pague acima disso leva em conta o risco adicional do emissor. É natural pensar nas alternativas mais agressivas – há CDBs que pagam algo como 130% do CDI, embora não sejam 24/7. Qualquer percentual adicional aos 100% é resultado dessa lógica.

A verdade é que ver 101% ou 102% não assusta, mas em geral instituições muito menores oferecem maior risco de crédito do que grandes bancos. Não é à toa que o rendimento dos CDBs dos gigantes está frequentemente ao redor de 98% ou 99% do CDI (e também não têm liquidez 24/7, vale lembrar).

Pode-se dizer que é justo aceitar essas condições em prol de um produto que, diferentemente dos títulos públicos e dos CDBs de bancões, está realmente disponível a qualquer momento.

Mas entender a dinâmica desses instrumentos é essencial porque aplicar recursos neles é assumir um risco adicional em uma fatia do investimento que deveria estar no maior nível de conservadorismo possível.

A chegada do Tesouro Reserva, título do governo que também vai oferecer liquidez 24/7, vai mudar os rumos desse debate. Mas esse é um assunto para outro momento, quando o produto estiver de fato disponível no mercado.

Quanto o IOF consome em uma emergência

O ponto de atenção mais invisível desses produtos é o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), sempre pensando na lógica da reserva de emergência, de um dinheiro que pode precisar ser resgatado a qualquer momento.

Todo resgate feito em menos de 31 dias paga uma alíquota regressiva sobre o rendimento, que começa com 96% no primeiro dia e cai até zero a partir do 31º.

Nem sempre essa informação está clara: a taxa anunciada nas ofertas às pessoas, em geral, assumem que o dinheiro fica investido pelo menos um mês.

Veja uma simulação de como ficaria o impacto do IOF em três cenários a partir de um investimento de R$ 10 mil a 100% do CDI de 15% ao ano.

Dia do resgate Retorno bruto Alíquota IOF IOF retido Retorno líquido
1º dia R$ 5,55 96% R$ 5,33 R$ 0,17
15º dia R$ 55,62 54% R$ 30,03 R$ 19,83
31º dia R$ 117,15 0% R$ 0 R$ 90,79

Há um detalhe técnico que vale registrar: o IOF é contado em dias corridos, que incluem fins de semana e feriados. O CDI, por outro lado, só acumula em dias úteis: o banco não remunera sábado nem domingo.

Quem resgata em uma emergência de fim de semana está pagando IOF sobre dias que não geraram rendimento nenhum. O efeito em reais é pequeno, mas o mecanismo revela algo sobre esses produtos: liquidez 24/7 não é o mesmo que rendimento 24/7.

A saída prática é gerir a reserva como uma fila: na hora de resgatar, faça o dinheiro há mais tempo aplicado sair primeiro. Quem mantém esse hábito de sempre alimentar a reserva conforme ela é usada nas emergências tende a resgatar sempre das camadas mais antigas, que já cumpriram os prazos mais longos e pagam, portanto, menos IOF – vale também para o Imposto de Renda.

Quanto o IR consome

O Imposto de Renda sobre renda fixa é regressivo: começa em 22,5% para resgates em até 180 dias e cai até 15% depois de dois anos.

A seguir, novamente simulamos o rendimento de um investimento de R$ 10 mil a 100% do CDI, considerando um CDI de 15% ao ano.

Prazo Retorno bruto Alíquota IR IR retido Retorno líquido
180 dias R$ 711,92 22,5% R$ 160,18 R$ 551,74
270 dias R$ 1.086,66 20% R$ 217,33 R$ 869,33
540 dias R$ 2.298,23 17,5% R$ 402,19 R$ 1.896,04
730 dias R$ 3.225,00 15% R$ 483,75 R$ 2.741,25

A mesma lógica se repete, portanto, no IR: os prazos das faixas — 180, 360 e 720 dias — são contados em dias corridos, como a Receita Federal exige. O rendimento, por sua vez, acumulou apenas nos dias úteis. Fins de semana e feriados contam para o prazo tributário, mas não contribuíram com retorno.

Quem está próximo de mudar de faixa e resgata em um fim de semana pode ficar alguns dias a mais na alíquota mais alta. O impacto prático disso também é pequeno, mas a verdadeira corrosão provocada pelas alíquotas maiores reforça a relevância de manter disciplina na construção do colchão de liquidez.

FGC: garantia não é sinônimo de acesso imediato

Ser coberto pelo FGC garante até R$ 250 mil por CPF e por instituição, com teto global de R$ 1 milhão a cada quatro anos. Mas ter “garantia” não quer dizer que o investimento seja bom – quer dizer que ele é garantido, só isso. A qualidade da aplicação está relacionada à capacidade da instituição de honrar as suas dívidas.

É aqui que reforçamos o que foi dito: o ressarcimento em caso de intervenção não é imediato. Pode levar semanas – ou meses. Quem precisar do dinheiro na semana seguinte a uma intervenção bancária vai descobrir que a garantia existe, mas não naquele momento. Não é o tipo de risco que uma reserva deveria ter.