A piora da percepção sobre a capacidade da produtora e distribuidora de combustíveis Raízen pagar suas dívidas provocou uma queda brusca no preço dos títulos de dívida emitidos pela empresa, no exterior e no Brasil. No mercado secundário, que negocia títulos “usados”, certificados de recebíveis do agronegócio (CRA) com vencimento em 2032 são vendidos com um desconto de até 63% no preço, segundo dados da Anbima.

Dados coletados na plataforma XP indicam que a rentabilidade original do papel com vencimento em agosto de 2032, de IPCA + 7,75% ao ano, subiu para estratosféricos IPCA + 42% ao ano nesta quinta-feira (12). Há no mercado R$ 1,06 bilhão em CRAs apenas dessa série.

Controlada por Cosan e Shell, a Raízen tinha em setembro (últimos dados disponíveis – a empresa deve publicar seu balanço nesta quinta, 12) uma alavancagem de 5 vezes seu resultado operacional. A dívida bruta é de R$ 70 bilhões. Na segunda-feira (9), a empresa perdeu o grau de investimento após uma sequência de rebaixamentos de rating, em meio à relutância de seus controladores em aportar novos recursos.

Informações da Anbima mostram que os papéis da Raízen têm vivido uma escalada de taxas. No início do ano, as ofertas no secundário alcançavam IPCA+ 20%. Há dois dias, alguns certificados com prazos de 2033 e 2029 passaram a aparecer, respectivamente, com taxas de IPCA+ 30% e 197% do CDI.

Taxas nesses níveis significam que os detentores dos títulos estão oferecendo altos descontos para passar os papéis para a frente. Isso porque quanto maior o rendimento ofertado menor o preço do certificado (o aumento da taxa vem justamente porque há desconto no valor do papel).

Segundo uma consultoria de investimento que vinha acompanhando de perto a situação da companhia, a Raízen ainda tem R$ 20 bilhões em caixa, o que seria suficiente para pagar a dívida de 2026 e 2027. Além disso, segundo essa consultoria, a empresa está empenhada em vender a operação na Argentina, que poderia levantar outros R$ 5 bilhões.

Garantias frágeis

CRAs são títulos com garantias atreladas. Por que, então, os investidores em papeis da Raizen estão tão nervosos? É que os certificados da controlada da Cosan e Shell têm lastros em debêntures emitidas pela própria companhia.

O CRA com vencimento em 2033, por exemplo, tem como lastro debêntures da 9ª emissão, realizada em 2023, junto com o lançamento do certificado. Pela natureza do CRA, os certificados da companhia não usam garantias reais, ou seja, propriedades ou imóveis, apenas outros títulos emitidos pela empresa, mas poderiam ser oferecido recebíveis mais sólidos, como contratos de pagamentos de clientes.

Isso significa que, se houver um evento de crédito, como um eventual pedido de recuperação judicial, as garantias se tornam, praticamente, nulas. As debêntures são títulos que aparecem no fim da lista de precedência de credores no caso de uma RJ.

Crise financeira

Com dívida bruta de R$ 68,6 bilhões, a Raízen tem inspirado temores entre investidores. Nas últimas semanas, as três principais agências de rating S&P, Fitch e Moody’s rebaixaram para grau especulativo as notas de crédito da produtora de etanol e energia renovável.

Os movimentos das agências refletem a crescente preocupação sobre a capacidade da empresa de honrar suas dívidas.

A Raízen iniciou negociações com o Rothschild para assessorá-la na reestruturação de sua dívida, que somava cerca de R$ 68,6 bilhões em setembro – em termos líquidos, o endividamento está em R$ 53,4 bilhões.

A estimativa é que a empresa precisa de uma injeção de capital entre R$ 20 bilhões e R$ 25 bilhões (US$ 3,8 bilhões a US$ 4,8 bilhões), segundo estimativa do UBS BB Investment Bank.

A Raízen enfrenta dificuldades devido a juros elevados, safras abaixo do esperado e apostas ambiciosas, como etanol de segunda geração e combustível de aviação sustentável, que ainda não geraram retornos significativos.

No início da semana, os bonds em dólar da Raízen também entraram em um movimento de liquidação no exterior. Na segunda-feira (9), os Investidores venderam esses papéis em massa, derrubando o preço para cerca de 46 centavos por dólar — queda próxima de 50% em uma semana.

Na terça-feira (10), um grupo de investidores globais que inclui Pacific Investment Management (Pimco), BlackRock e T. Rowe Price, que detém a maior parte dos bonds em dólares da companhia, começou a se organizar para um eventual evento de crédito. As gestoras teriam contratado o escritório White & Case como assessoria jurídica.