No acumulado do ano até o dia 27 de fevereiro, um dia antes da guerra no Oriente Médio eclodir, o IHFA (índice que mede o retorno médio dos fundos multimercados) subia 3,60%, contra um CDI em alta de 2,23%.
Com o conflito, o IHFA fechou o primeiro trimestre com rentabilidade praticamente no zero a zero (0,05%), ante um CDI de 3,5%. Apenas no intervalo de 27 de fevereiro até o fim de março, o IHFA caiu 3,4%, enquanto o CDI subiu 1,2%. Os dados são da plataforma Mais Retorno.
Alguns fundos tiveram um desempenho pior, e outros, melhor. Mas todos entre os maiores do mercado encerraram os primeiros três meses do ano abaixo do CDI.
Se está tudo vai tão mal, por que colocar dinheiro nesses fundos?
Diversificação: fator decisivo
O papel dos multimercados é diversificar a carteira de investimentos exatamente pela baixa correlação que eles têm com outros mercados, como bolsa de valores, câmbio e juros. Isso significa que eles tendem a se mover de forma independente: quando a bolsa cai, um multimercado bem gerido não necessariamente cai junto.
A verdadeira diversificação é feita por meio da descorrelação – e é isso que torna esses fundos úteis: eles reduzem o risco global da carteira sem abrir mão do potencial de retorno. Os fundos oscilam sem relação direta entre si e contra o seu benchmark. E vale destacar: o IHFA tem uma correlação de 0,03 com o CDI.
A volatilidade dos multimercados também costuma ser menor do que outros produtos porque os gestores pulverizam o dinheiro em muitas classes de ativos e movimentam a carteira de forma mais dinâmica.
Em recente reportagem do InvestNews, fizemos simulações do efeito dos multimercados para uma carteira hipotética com exposição ao mercado de bolsa e de renda fixa para ilustrar esse efeito.
Juntando diversificação e menor volatilidade, o produto serve a perfis distintos por razões distintas.
Para o investidor conservador, funciona como uma entrada gradual a ativos mais arriscados sem a exposição direta às oscilações da bolsa.
Para quem já tem um portfólio mais agressivo, a função é outra: reduzir a concentração em ativos correlacionados e proteger o patrimônio de movimentos síncronos – uma preocupação que cresce à medida que o portfólio se torna mais complexo.
O futuro dos conflitos no Oriente Médio ainda é uma incógnita, mas o pior para os multimercados pode já ter passado porque muitos foram pegos de surpresa pela rápida piora do ambiente macroeconômico global e agora começam a se reposicionar e traçar novas estratégias.
Pedro Rudge, diretor da Anbima (entidade que representa as instituições financeiras do mercado de capitais no Brasil), destaca que o desempenho dos fundos foi prejudicado porque muitos gestores estavam posicionados à espera de um corte de juros mais acelerado no Brasil.
Com os conflitos no Oriente Médio se agravando, cresceram os temores de que a alta de preços de insumos como o petróleo se espalhasse pelo mundo, impulsionando a inflação.
A partir daí, investidores passaram a apostar em um corte de juros mais lento – o que bateu em cheio nos fundos, que não haviam se preparado para esse cenário.
“Acredito que o impacto poderá ser menor agora porque, depois da volatilidade, muitos ajustaram as suas carteiras e estratégias”, disse Rudge nesta segunda-feira (13), em evento para comentar os dados da indústria de fundos.
“Os gestores tendem a recuperar as perdas nas próximas semanas e meses, embora o ambiente de incerteza e volatilidade exista.”
No primeiro trimestre deste ano, os multimercados tiveram captação de R$ 11,2 bilhões no intervalo, uma recuperação em relação ao ano passado.
Daqui para frente, a capacidade de entregar mais retorno aos investidores é que vai determinar se esse montante seguirá crescendo ou se os fundos voltarão a amargar perdas e saída de recursos.