E quando se considera um universo mais amplo, tanto de quem já investe quanto daqueles sem nenhum tipo de aplicação, a Geração Z acessa 8 vezes mais ferramentas de IAs do que os chamados “baby bommers”, ou seja, os nascidos no pós-Segunda Guerra Mundial, entre 1945 e 1964.
Os números constam da pesquisa “Raio-X do Investidor 2026”, realizada pela Anbima (associação que reúne entidades e empresas do mercado de capitais) em parceria com o Datafolha – e indicam haver uma transformação geracional em andamento nos mercados que pode colocar em xeque vários modelos tradicionais de contratação de produtos de investimentos, conforme o dinheiro mude de mãos.
Na Geração Z, que compreende jovens na faixa de 14 a 30 anos, quase a metade – ou 49% – usa a IA na hora de obter dados de produtos, mercados e outras informações ligadas aos temas. Isso no conjunto daqueles que declararam ter ao menos um tipo de investimento.
Já entre os Millenials, uma turma mais eclética que reúne gente na casa dos 30 até 45 anos, o percentual cai para 36%.
A geração dos boomers, que hoje está com mais de 60 anos, se mostra bem mais avessa ao uso da tecnologia.
Apenas 2% contam com as ferramentas de IA para esse fim, se forem considerados tanto quem tem aplicações quanto aqueles que ainda não investem, contra 17% da Geração Z.
Geração Z prefere IA a TV
O uso de inteligência artificial é apenas um indício. A pesquisa mostra ainda como esse abismo geracional funciona na hora de consumir informações sobre investimentos.
Na comparação direta entre os boomers e aqueles da Geração Z, ficam claras as diferenças.
Aqueles com até 30 anos, por exemplo, já usam mais a IA do que a televisão para se inteirar sobre produtos financeiros e mercados. Cerca de 17% desse grupo citou as ferramentas de inteligência artificial como canal de busca de investimentos, um percentual acima dos 11% que mencionam a TV, que aparece em último lugar entre os canais de informação preferidos.
As redes sociais dominam entre os mais jovens. O YouTube aparece com 49%, enquanto Instagram e buscadores – como o Google – surgem em seguida com 45% e 29%, respectivamente.
Por outro lado, no grupo dos “sessentões e acima”, os programas de televisão ainda são a fonte mais relevante de informações, com 23% de preferência.
O segundo maior canal para a turma dos mais velhos é o YouTube, que tem 14% de menções. Empatados em terceiro aparecem jornais e revistas, buscadores e WhatsApp, com 11% cada.
Bancos digitais x tradicionais
Outra comparação que reforça a percepção dessa transformação geracional vem dos dados sobre quem usa bancos digitais ou tradicionais (incumbentes), que, entre os critérios de definição, são aqueles com rede de agências físicas.
O levantamento da Anbima mostra que, entre os bommers, apenas 7% mantêm contas em instituições digitais, contra 73% que preferem os bancos com redes de agências para atendimento físico.
Em contraste, na Geração Z, essa divisão é basicamente equânime: 66% têm contas em bancos digitais, e 67%, nos tradicionais. A soma dos percentuais supera os 100% porque nesse grupo frequentemente os clientes possuem contas nos dois tipos de instituições.
Os riscos da força digital
A transformação digital, porém, tem um lado associado a um comportamento de riscos. Com muito mais exposição a influenciadores, uso de redes sociais e informações vindas de inúmeros canais digitais, a Geração Z também é aquela que tem mais apostadores online.
Entre os mais jovens, 27% afirmaram gastar dinheiro em bets. No grupo de quem tem mais de 60 anos, o percentual cai para apenas 4%.
As gerações intermediárias, os Millenials e a “X”, daqueles entre 45 e 60 anos, aparecem com 22% e 10%.
Outro dado mostra que, entre mesmo aqueles com maior nível de educação financeira, as bets são vistas como “investimentos” por 21%. Já no grupo de quem não teve acesso a cursos e outras fontes de informação financeira, o percentual sobe para 77%.
Caixinhas são mais amigáveis
Uma percepção que a pesquisa também trouxe está relacionada à forma como os produtos de investimentos são apresentados.
Para a maior parte da população, as denominações e as características de cada aplicação são difíceis de entender. Isso, em geral, acaba afastando o cliente que tem um nível menor de educação financeira.
“Quando uma instituição oferece um ‘fundo DI‘, isso é muito imaterial para a pessoa”, afirmou o Superintendente de Sustentabilidade, Inovação e Educação da Anbima, Marcelo Billi.
“O que o cliente quer, na verdade, é comprar uma casa, viajar, pagar a faculdade dos filhos, e as ofertas não o ajudam ligar os pontos sobre como aquilo pode ser uma solução para um problema ou uma aspiração real.”
Quando questionados sobre poupança, muitos entrevistados mencionaram aplicações em “caixinhas” de bancos digitais em vez da tradicional caderneta. “Isso mostrou que, para muita gente, poupança é mais um conceito do que um produto.”
Segundo Billi, a ideia de uma caixinha faz mais sentido para realizar um projeto da vida real. “A caixinha dá nome para as coisas, para uma solução, e as pessoas sentem uma familiaridade maior, sem se importar tanto com as estruturas por trás da caixinha.”