Os ETFs listados na B3 acabam de cruzar uma marca simbólica. Neste ano, pela primeira vez desde que estão disponíveis no mercado, esses fundos bateram R$ 100 bilhões em estoque. Mais precisamente, R$ 113 bilhões em março. O dobro de um ano atrás.

Boa parte disso porque ETFs mais atraentes têm surgido. Entre eles estão os que pagam dividendos direto na sua conta – uma novidade recente, de 2023.

Eles são o tema do quinto episódio do Estratégias para viver de Renda, uma série do InvestNews com patrocínio exclusivo do Nubank.

Em oito episódios, o editor-executivo Alexandre Versignassi apresenta aos investidores as principais formas de obter renda passiva de um jeito descomplicado e sem promessas milagrosas.

Um passo atrás

Antes de chegar aos ETFs de dividendos, vale a pena resgatar como esses fundos funcionam no geral. ETF é a sigla para Exchange Traded Fund – Fundo Negociado em Bolsa. Mas o ambiente em que eles são negociados é só um detalhe técnico.

O mais importante é outra característica. Eles são “fundos passivos” – replicam as carteiras de índices de mercado, comprando os ativos na mesma proporção.

O índice mais conhecido é o Ibovespa, que junta as maiores e mais negociadas empresas da bolsa. Se 12% do Ibovespa está em ações da Petrobras (PETR4 e PETR3), um ETF de Ibovespa terá o mesmo tanto na carteira.

Como não há um time escolhendo as ações ativamente, as taxas de administração costumam ser menores. E boa parte deles acaba superando o desempenho dos fundos tradicionais – de gestão ativa – que têm os mesmos índices como referência.

Quando você compra cotas de um ETF, na verdade você leva uma lista pré-definida com papéis de várias empresas embaladas em um único pacote. É diversificação a um custo muito menor do que o de comprar um pouco de cada diretamente.

Cada vez que a composição do índice de referência muda, a carteira do ETF muda também. Em algum momento do passado, ETFs de Ibovespa já tiveram ações de empresas como Raízen, Pão de Açúcar, Americanas ou Azul. Esses são exemplos de papéis que acabaram saindo do índice.

Os ETFs de Ibovespa são os mais populares, mas existem fundos de tudo quanto é tipo de índice: só de empresas pequenas, só de empresas do agronegócio, só de empresas argentinas…. E só de empresas que pagam mais dividendos.

‘As empresas mais sólidas da bolsa’

“Empresas que pagam dividendos relevantes e constantes normalmente têm um fator de qualidade nos resultados. No fim do dia, olhar para os dividendos acaba sendo uma forma de capturar empresas mais sólidas na bolsa”, diz Andrés Kikuchi, diretor de investimentos da Nu Asset.

Os ETFs de dividendos tradicionais investem nas ações das melhores pagadoras, recebem os proventos e os reinvestem em mais ações. Já os mais novos têm uma dinâmica diferente. Em vez de reinvestir, eles depositam o dinheiro direto na conta dos investidores todo mês, igual aos fundos imobiliários.

O primeiro ETF assim do mercado foi o NDIV11, do Nubank, que estreou em 2023. Antes, para viver de dividendos, o investidor tinha de montar uma carteira e lidar com pagamentos em datas diferentes. “O ETF resolveu isso, concentrando tudo e oferecendo distribuição regular”, diz Kikuchi.

Depois, surgiram outros, como o DIVD11, do Itaú, e o BEST11, da gestora Investo. E não estranhe a nomenclatura: no mercado, os ETFs são mesmo conhecidos pelo ticker, o código de negociação na bolsa.

Cada um desses fundos acompanha um índice de dividendos com uma fórmula diferente.

O índice do NDIV11 é o Ibov Smart Dividendos B3 – e tem 20 empresas.

Já o índice do BEST11 (MarketVector Brazil BESST Quality) tem 23, enquanto o DIVD11 acompanha o Índice Dividendos (Idiv) da B3, com 49 empresas. Mas a filosofia é sempre a mesma: juntar as que pagam dividendos altos e constantes.

Mas quanto cai na conta?

Um parâmetro de referência: quem aplicou R$ 100 mil no NDIV11 um ano atrás recebeu 9,9% em dividendos – ou R$ 9,9 mil, o que dá uma média de R$ 825 por mês. Esse valor equivale a 67% do CDI, principal referência de rendimento para aplicações de renda fixa.

Parece pouco. E é pouco. Muitos CDBs e outros produtos conservadores rendem 100% do CDI. Mas isso não é tudo. Falta considerar a valorização das cotas.

Sim, porque ETFs são produtos de renda variável e a variação dos preços faz parte dos ganhos. Olhando por aí, a valorização foi de 21,3% em um ano, ou 143% do CDI. Somando isso aos dividendos, o ganho vai para 31,2%, ou 210% do CDI. Bem mais do que os investimentos comuns.

Naturalmente, retorno passado não garante retorno futuro. Com base no que o fundo paga hoje e nos preços atuais das cotas, a renda só com dividendos para os próximos 12 meses tende a ficar próxima de 7%. E a variação que a cota terá no futuro, responsável pela maior parte do ganho passado, é uma incógnita.

Como o ETF funciona

No NDIV11, só entram ações que já fazem parte do Ibovespa, que hoje tem 82 empresas. O fundo separa as 25% que mais pagam dividendos. Vão entrar, portanto, 20. Para chegar à lista final, o índice considera o dividend yield (taxa de retorno com dividendos) de cada uma nos últimos seis anos, com peso maior para os anos mais recentes.

As empresas que pagam dividendos com mais frequência ganham mais espaço na carteira, mas ela tem uma trava de segurança: nenhuma ação pode ter participação maior que 20%. A cada quatro meses, acontece um rebalanceamento.

A Petrobras é uma das empresas que está no NDIV11 desde a primeira carteira, em 2023. Na época a participação era de 4,6%. Em abril de 2026, já encabeçava a lista, com participação de 6,3%. Significa que, nesse intervalo, a estatal foi se mostrando uma pagadora de dividendos confiável, de acordo com as regras que balizam o ETF.

Em segundo lugar na carteira está a Copasa, a Companhia de Saneamento de Minas Gerais, com 6,1%. Ela é uma das empresas que fazem parte do pacote de setores que mais pagam mais dividendo: saneamento básico, eletricidade, bancos.

Há representantes de setores que não são os mais tradicionais em proventos, mas que podem ter empresas de destaque. Somando 8% da carteira estão duas construtoras, a Curry e a Direcional, fortes geradoras de caixa com sua atuação no programa Minha Casa Minha Vida.

Tem também a Marcopolo, fabricante de ônibus que exporta para 140 países. Completa a lista a MBRF, gigante de proteína animal resultado da fusão entre Marfrig e BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão.

Um exemplo claro do poder de reinvestir

O NDIV11 tem um irmão gêmeo, o NSDV11. É um ETF igual – ou quase. Tem a mesma carteira, mas em vez de pagar os dividendos mensalmente, ele reinveste em mais ações. E contra fatos não há argumentos: o ganho ali é maior.

Somando os dividendos e a valorização do NDIV11, ele pagou 31,2% nos últimos 12 meses. Já o irmão gêmeo que reinveste os dividendos deu mais: 33,1%.

“A escolha entre receber dividendos ou reinvestir depende do momento do investidor. Quem está na fase de acumulação se beneficia do reinvestimento. Quem busca renda pode preferir os pagamentos”, diz Kikuchi, da Nu Asset.

A diferença parece mínima, mas não é. Dois pontos percentuais a mais em um ano, com os mesmíssimos ativos investidos, é bastante coisa – e aumenta com o tempo. Analisar esses dois ETFs desde a estreia, em 2023, dá a dimensão: o rendimento total do NDIV11 foi de 52%. O do NSDV11, que reinveste, de 58%. Seis pontos percentuais.

Isso porque no ETF que reinveste opera a mecânica de rendimento sobre rendimento, coisa que não acontece naquele que deposita dividendos direto na conta.

Mesmo assim, a diferença entre o número de cotistas dos dois fundos é um recado. O NDIV11, que paga dividendos todo mês direto na conta, tem 20 mil cotistas, três vezes mais que o irmão gêmeo – o que demonstra o poder de sedução dessa modalidade.

É importante lembrar ainda que nos dividendos pagos pelos ETFs incide Imposto de Renda na fonte de 15%. Os dividendos das ações compradas diretamente na bolsa são isentos, ao menos para a maior parte dos investidores (entenda aqui a exceção).

“É importante ainda lembrar que ETF de dividendos continua sendo renda variável. Se a bolsa cair, a cota também cai. Não é só receber dividendo, tem oscilação no preço”, diz Bruno Perri, estrategista de investimentos e sócio da Forum Investimentos.

No próximo episódio da série Estratégias para Viver de Renda, você vai entender como outro produto financeiro disponível na bolsa pode ser incluído na sua carteira. O mais clássico dessa fauna: fundos imobiliários. Acompanhe no YouTube do InvestNews e também aqui no site.