Quase sete em cada dez investidores brasileiros têm uma meta clara ao fazer aplicações financeiras: viver de renda. Criar uma fonte de renda passiva, com ganhos recorrentes, é o segundo principal objetivo de quem se preocupa em multiplicar o seu dinheiro, atrás apenas de formar reservas para a aposentadoria.

Entre os investidores que se identificam como arrojados, viver de renda chega a ser mais importante do que acumular patrimônio para a vida depois de deixar o trabalho, segundo estudo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

A preocupação talvez seja fugir de uma velha máxima do mercado, frequentemente atribuída ao bilionário americano Warren Buffett: “Se você não encontrar um jeito de ganhar dinheiro enquanto dorme, vai trabalhar até morrer”.

Na prática, transformar investimentos em uma fonte de renda não é algo que acontece da noite para o dia. “Estamos falando de construir uma reserva capaz de proporcionar uma renda igual à sua renda ativa. E isso toma tempo”, explica Ana Leoni, CEO da Planejar (Associação Brasileira de Planejamento Financeiro).

Levar os rendimentos da carteira a um nível que possa complementar – ou até substituir – a renda do trabalho exige paciência. Pode levar 10, 15 ou até 20 anos, consistência nos aportes e uma estratégia de longo prazo. É importante ter clareza disso para não cair nas falsas promessas que borbulham nas redes sociais vendendo a ideia de que é possível parar de trabalhar investindo em fundo imobiliário ou ficar rico com dividendos de ações como se fosse fácil. Não, não é.

Nova série InvestNews

Mas dá, sim, para conseguir um complemento decente. E é isso o que a nova série do InvestNewsEstratégias para Viver de Renda” se propõe a explorar. Em oito episódios, o editor-executivo Alexandre Versignassi, autor do livro Crash – Uma Breve História da Economia, conduz os investidores por uma trilha de conhecimento sobre as principais formas de obter renda passiva de um jeito descomplicado – e sem promessas milagrosas.

Os três primeiros episódios serão publicados no canal do InvestNews no YouTube nesta quarta-feira (1). A série tem o patrocínio exclusivo do Nubank. Inscreva-se abaixo para receber, em primeira mão, acesso à série:

O tempo é rei

Renda passiva pode vir dos dividendos distribuídos por ações, fundos imobiliários ou ETFs (fundos de índices), de juros pagos por papéis do Tesouro Direto ou por títulos de empresas privadas, entre outras alternativas. Mas qualquer que seja o produto financeiro, é natural que, no começo, quem investe de olho em viver de renda se sinta frustrado com os primeiros resultados.

Por um período, o retorno que “pinga” na conta costuma ser pequeno – não chega a ser suficiente nem para bancar a conta de luz. Mas vale um exemplo para mostrar que consistência no longo prazo e a mágica do juro composto fazem a diferença.

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Tome-se o caso da Vale, uma das ações mais negociadas da B3. Em 2025, cada ação da Vale pagou aproximadamente R$ 4,55 em dividendos. No início deste ano, um papel da empresa custava cerca de R$ 90 na B3. Portanto, em uma estimativa realista, quem comprasse ações da Vale agora poderia esperar ter um retorno de aproximadamente 5% ao ano com dividendos. Isso é o que chamamos de “dividend yield“.

Pode parecer pouco – ainda mais em comparação com a taxa básica de juros de 14,75% ao ano vigente no país atualmente. Mas essa fotografia de curto prazo e com foco só no dividendo não conta a história completa.

Imagine que você tenha feito um investimento na Vale em 2000, quando o papel custava cerca de R$ 4. Aplicando-se os efeitos da inflação acumulada nesse período, o rendimento com dividendos dessa aplicação, em termos reais, teria sido de cerca de 23% ao ano. Isso equivale a quase 150% do CDI em uma aplicação de curto prazo, de até um ano.

E nem estamos colocando na conta a valorização das ações da Vale nesse período. Se o investimento naquela época tivesse sido, por exemplo, de R$ 20 mil (equivalente a R$ 100 mil atuais, considerando a inflação no período), essa aplicação teria alcançado um valor de mercado de cerca de R$ 450 mil no início de 2026. É como se você tivesse multiplicado o valor investido originalmente em 4,5 vezes.

O exemplo é da Vale. Nesses 26 anos, outras empresas não sobreviveram. Então é importante sempre também pensar na estratégia em diversificação. Nada de concentrar os investimentos em um só lugar!

O poder dos juros sobre juros

Construir uma fonte de renda passiva exige, antes de tudo, uma mudança de mentalidade: reservar sempre uma parte dos ganhos para investimentos específicos. E por “ganho” entenda-se não apenas salário ou honorários, mas também os rendimentos das aplicações que já existem.

Durante a fase de acumulação, entra em cena um dos motores mais importantes da construção de patrimônio: o efeito dos juros compostos, ou do rendimento sobre rendimento. Para que ele funcione, é preciso resistir à tentação de gastar os primeiros ganhos da carteira. “Se recebo rendimento e gasto, apenas mantenho o que já tenho, meu patrimônio não cresce”, diz Paula Sauer, professora da FIA Business School.

Ao reinvestir o que entra, o investidor permite que os ganhos anteriores passem a gerar novos ganhos, o que cria um efeito de bola de neve ao longo do tempo.

Pense, por exemplo, em fundos imobiliários (FIIs). A maioria distribui dividendos mensalmente e costumam ser considerados boas alternativas de renda passiva. Um investimento de, digamos, R$ 50 mil em um FII que paga dividendos de 10% ao ano rende aproximadamente R$ 400 por mês.

Se esses R$ 400 forem reaplicados todo mês, entra em ação o mecanismo do rendimento sobre rendimento. Se no primeiro mês o valor investido era de R$ 50 mil, no segundo seria de R$ 50.400. Depois de um ano, o patrimônio teria alcançado cerca de R$ 55 mil – e 10% ao ano sobre esse valor passaria a gerar algo próximo de R$ 440 por mês.

Mantendo essa dinâmica, os rendimentos do FII continuariam crescendo: por volta do terceiro ano, chegariam a cerca de R$ 530 por mês; no sexto ano, alcançariam cerca de R$ 700. Tudo isso, a partir de um único aporte inicial de R$ 50 mil.

“No mundo dos investimentos, precisamos de duas coisas: dinheiro e tempo. Quanto mais você tem um, menos precisa do outro”, diz Ana Leoni, da Planejar.

A oportunidade dos juros altos

Quem pretende viver de renda deve entender que não existe uma fórmula única para chegar lá. Há diferentes ativos capazes de gerar renda passiva e a combinação deles depende do perfil de cada investidor.

O momento atual ajuda a colocar o plano da renda passiva em marcha. A taxa Selic, que serve de referência para os rendimentos do mercado financeiro, ainda está em patamar considerado alto, o que aumenta o rendimento potencial especialmente das aplicações de renda fixa. “O perfil rentista é beneficiado agora que os juros estão tão altos”, diz Ana Leoni.

Para quem tem dinheiro parado na conta corrente ou na poupança, por exemplo, esse cenário pode ser uma oportunidade de começar a colocá-los para trabalhar de forma mais eficiente.

Considere os títulos públicos negociados no Tesouro Direto – especificamente, os conhecidos como IPCA+, que pagam uma taxa de juros e também a correção pela inflação. Há papéis desse tipo que depositam os juros semestralmente na conta do investidor.

Um deles é o IPCA+ com vencimento em 2045, que hoje paga ao investidor uma taxa de juros de mais de 7% ao ano, fora a correção pela inflação. Um investimento de R$ 100 mil nesse título renderia R$ 2,7 mil na conta a cada seis meses pelos próximos quase 20 anos. Isso em valores de hoje e já líquidos de impostos e taxas.

Se a aplicação tivesse sido feita em 2019, quando a Selic estava em 5% e o mesmo título do Tesouro Direto (IPCA+ 2045 com juros semestrais) oferecia retorno de cerca de 3,5% ao ano, quem investisse os mesmos R$ 100 mil nesse período receberia bem menos a cada seis meses, em torno de R$ 1,8 mil, também em valores de hoje.

Uma diferença desse tamanho provoca efeitos enormes no longo prazo. Somando todos os cupons de juros que o IPCA+ 2045 pagaria até o vencimento, quem investisse em 2019 receberia 52 depósitos na conta, totalizando cerca de R$ 96 mil (valores de hoje). Já quem investisse agora, sete anos depois, teria direito a apenas 38 pagamentos de cupom – mas o valor na conta seria maior, somando R$ 104 mil.

Por causa dos juros mais altos, mesmo investindo mais tarde e recebendo por menos tempo, quem compra o título em 2026 ganha mais do que quem investiu antes. Confira a simulação em detalhes abaixo:

Estreia da série

Acompanhe a série Estratégias para Viver de Renda no YouTube do InvestNews e também aqui no site. No episódio número 2, o tema é uma das portas de entrada mais conhecidas para quem quer ter renda com investimentos: os títulos do Tesouro Direto.