Em uma das principais categorias, a de fundos com papéis com duração livre, ou seja, títulos de vencimentos variados, houve um resgate líquido de R$ 14,1 bilhões apenas em abril. Num recorte mais específico, o duração livre grau de investimento, que adquire apenas papéis com notas de crédito mais altas, registrou saídas de R$ 10,2 bilhões.
A saída líquida total é de R$ 22,3 bilhões, na soma das 8 categorias de fundos de crédito privado da Anbima – ou seja, esse é tanto em que os resgates ultrapassaram os depósitos.
Foi um movimento natural, dado o clima que se instaurou. Não faltaram eventos que sacudiram o setor, afinal: as recuperações extrajudiciais da Raízen, do GPA (Grupo Pão de Açúcar) e da Kora Saúde, mais o pedido de proteção contra credores na Justiça da Oncoclínicas e os sinais de possível reestruturação de dívidas da Braskem.
Além dos eventos de crédito, o mercado enfrenta um movimento de reprecificação por conta da Guerra do Irã e da escalada de preços do petróleo. Com o aumento das pressões inflacionárias, os preços e taxas de papéis de renda fixa prefixada e a atrelada à inflação têm passado por ajustes e vivido uma ondas de vendas desde o início do conflito, no fim de fevereiro.
Retornos de menos da metade do CDI
Como os resgates dos fundos de crédito levam em torno de 30 dias para serem contabilizados no valor das cotas, os impactos desse movimento começaram a ser visto em abril.
A queda no valor das cotas fica evidente na rentabilidade da categoria “Renda Fixa Crédito Livre e Duração Livre”, uma das classificações da Anbima com maior número de fundos de crédito privado. No mês passado, a média de retorno de portfólios desse tipo ficou em parcos 45% do CDI.
Outra categoria, a “Renda Fixa Duração Alta Crédito Livre”, que concentra fundos com carteiras de crédito privado de longo prazo, amargou saídas liquidas de R$ 255,2 milhões em abril. O retorno médio também ficou significativamente abaixo do CDI, com rendimento por cota de 83% do referencial conservador.
Busca por posições conservadoras
Essa percepção de perda pode retroalimentar o movimento de saques. Com isso, se os fundos tiverem que vender mais ativos no mercado secundário para cobrir as saídas líquidas, podem ter de aceitar ainda mais descontos.
No mês passado, as duas únicas categorias de fundos de crédito privado que apresentaram captação líquida positiva foram a “Renda Fixa Duração Baixa Crédito Livre”, com entradas líquidas de R$ 8,2 bilhões, e a “Renda Fixa Duração Média Grau de Investimento”, com aportes de R$ 1,4 bilhão.
São fundos com características mais defensivas dentro da classe de crédito privado – títulos mais curtos são menos voláteis.
Investidores precisam ter paciência
O momento dos fundos pede resiliência do investidor. No médio e no longo prazos, os efeitos da volatilidade se diluem. Desmontar a posição agora vai significar vender na baixa e tornar real o prejuízo.
Com uma eventual melhora do cenário no futuro, o valor das cotas tende a se recompor e pode até superar o nível de preços em que o investidor entrou.
Quem tiver mais tolerância ao risco pode até aproveitar os momentos de quedas mais acentuadas para adquirir mais cotas, olhando para um horizonte de mais de um ano.
O carrego, ou seja, o ganho por manter os títulos na carteira no longo prazo, está favorável, com taxas historicamente altas.