O Ibovespa fechou a terça-feira (14) em alta de 0,39% aos 198.773 pontos. Na máxima do dia, o referencial alcançou 199.355 pontos, novo recorde nominal e acima da maior marca quando ajustado pela inflação.
O recorde do Ibovespa historicamente foi marcado em 20 de maio de 2008, quando o índice chegou aos 73.517 pontos. Para saber o valor presente desse número devemos corrigi-lo pela inflação. E isso significa 198.946 pontos, quando ajustado pelo IPCA até março.
Dólar abaixo de R$ 5: o que muda para quem investe no exterior e o que vem pela frente
Depois de tudo isso, as ações brasileiras ainda têm mais a subir, na visão de analistas e gestores. Mas o mercado não está mais tão “barato” assim: a bolsa já está chegando em um ponto em que vai precisar de mais fundamentos para perseguir níveis mais elevados.
O que vem sustentando a alta é o fluxo de dinheiro dos grandes alocadores globais, que seguem buscando diversificação internacional, sobretudo em mercados menos atingidos diretamente pela guerra no Irã – o Brasil é exportador líquido de petróleo e se beneficia da alta do barril mesmo com o risco de maior pressão inflacionária na economia, por exemplo.
A questão é que um avanço pelo fluxo de capital vindo de fora é mais frágil do que quando o mercado incorpora a perspectiva de lucros maiores à avaliação de preços das empresas – a melhora nos fundamentos, de que falamos acima.
É isso que levaria a bolsa a se firmar em um nível mais alto de forma mais perene e menos dependente de um movimento sensível a mudanças de rota lá fora.
E pequenas mudanças de rota lá fora podem ditar o ritmo da bolsa local porque uma pequena fração do dinheiro dos grandes fundos globais é suficiente para fazer o mercado local, bem menor do que o americano, se movimentar.
Por isso, da mesma forma, se esse dinheiro inverter a tendência mesmo que levemente, a bolsa poderia voltar rapidamente a se estabilizar em níveis menores.
Outros indicadores também sugerem que o mercado local está ficando mais caro a cada novo salto. É caso do Preço/Lucro (P/L). Para chegar a ele, basta dividir o preço da ação de uma empresa pelo lucro por ação dela.
Em outras palavras, indica quanto o investidor está pagando pela ação para uma fração do lucro dela. E, para saber o P/L do Ibovespa, fazemos isso ponderando por todas os papéis do índice.
O P/L médio do Ibovespa quando ele atingiu a máxima em 2008 era de 18 vezes. Hoje, está em 13 vezes. O nível atual está um pouco acima da média histórica dos últimos 10 anos, de 11 vezes.
Sozinho, esse “múltiplo”, como é chamado, não explica todo o direcionamento do mercado, mas serve como um dos indicativos do quão barato ou caro um ativo está. Apesar de acima da média histórica, o principal indicador da bolsa brasileira parece barato quando comparado ao índice americano S&P 500, que apresenta um P/L de 26 vezes atualmente.
Uma das forças que poderia ajudar a manter o momento positivo da bolsa brasileira pode vir do ciclo de cortes de juros. Se a guerra no Oriente Médio terminar, o Banco Central pode ter espaço para voltar a acelerar os cortes da Selic, o que se reflete em maior crescimento econômico e, como consequência, uma potencial elevação dos lucros das empresas.
Por outro lado, se o conflito continuar ao longo dos próximos meses, o cenário pode ser o inverso: uma alta persistente do petróleo, da energia, dos combustíveis e dos insumos, como fertilizantes, vai alimentar a inflação global – e o Brasil não será exceção. Com a volta das pressões sobre preços, os BCs no mundo todo se verão no dilema de ter de iniciar um ciclo de subida de juros.
O cenário de eventual alta de juros globais pesaria sobre o fluxo dos investimentos, que atualmente estão favoráveis aos emergentes. Com uma mudança de percepção sobre riscos, pode haver nova saída de capitais da bolsa local de volta ao exterior, o que levaria a uma queda do Ibovespa e de ações cíclicas.