O fim do ano é, tipicamente, um período favorável para a alta do dólar. É que com a chegada das férias de verão, muita gente se programa para viajar e, portanto, comprar dólares. E as multinacionais aceleram o envio de lucros para o exterior nesse período. No fim do ano passado, por exemplo, essas pressões, combinadas a um ambiente externo de muitas incertezas, jogaram pressão sobre o câmbio e a moeda americana passou pela primeira vez na história dos R$ 6.

E agora? Qual a chance desse enredo se repetir?

A resposta direta é: poder até pode, mas a probabilidade é muito baixa. É que existe agora um elemento novo, com potencial para equilibrar esse mercado: a diferença entre o juro brasileiro e o americano, que vem atraindo muito dinheiro de fora para cá.

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De um lado, o Federal Reserve voltou a cortar os juros a partir de setembro: já reduziu duas vezes, em um total de 0,5 ponto percentual, e já sinalizou que pretende voltar à carga em dezembro, com um recuo de mais 0,25 ponto. Em contrapartida, o Banco Central brasileiro sequer começou a preparar o terreno para reduzir a Selic, que está parada em 15% há meses.

Se, de fato, o Fed confirmar um corte de 0,25 ponto e o BC brasileiro mantiver a Selic nos 15% ao ano, esse diferencial pode alcançar a marca de 11,5 pontos percentuais. Quanto maior essa diferença, mais atrativo se torna a remuneração doméstica para o investidor global. E o resultado esperado é um reforço no fluxo de recursos para o mercado brasileiro – o que é super favorável para o real. 

Outro elemento que favorece a moeda brasileira: existe hoje uma preocupação no mercado com a possibilidade de haver uma bolha nas ações de big techs, motivada pela euforia com a inteligência artificial. E isso, juntamente com a queda dos juros americanos, tem levado investstidores globais a buscar melhores oportunidades mundo afora. Ótima notícia para mercados emergentes, inclusive para o Brasil.

Com mais dólares entrando no país em busca de oportunidades na bolsa e na renda fixa, a moeda americana já acumula uma queda de mais de 13% ante o real em 2025 até novembro.

A entrada de recursos para a bolsa e outros investimentos tem sido muito forte neste ano. Os dados da B3 mostram, por exemplo, que apenas o mercado acionário brasileiro apresenta um saldo líquido positivo de R$ 26 bilhões entre janeiro e outubro de 2025.

O investimento em carteira, ou seja, o aporte de estrangeiros em produtos financeiros do país apresenta entrada líquida de US$ 13,2 bilhões de janeiro a setembro, o que equivale a R$ 70,3 bilhões no câmbio atual, conforme as informações do Banco Central. Em comparação, os nove meses de 2024 viram um movimento contrário: registraram saída líquida de US$ 760 milhões.

O especialista em câmbio da Nomad, Bruno Shahini, pondera que o enfraquecimento da moeda americana frente ao real pode até se atenuar no fim do ano, mas a tendência é de que a taxa de câmbio se mantenha estável. “A soma dos vetores de alta e baixa mostra, basicamente, um equilíbrio.”

Os recursos de fora também entram por outros canais. A balança comercial brasileira, por exemplo, acumula um superávit de US$ 39,5 bilhões em três trimestres. Isso apesar das tarifas impostas pelo presidente americano, Donald Trump, aos produtos brasileiros.

A analista do Itaú BBA, Julia Marasca, ressaltou o impacto favorável desse movimento de dinheiro internacional, em relatório. “Essas entradas de capitais estrangeiros têm intensificado o fluxo de recursos para o país o que levou o hiato cambial para o terreno positivo.” O hiato cambial é uma medida que reflete a diferença entre o déficit em conta corrente e os fluxos de capitais para o mercado interno.

André Valério, economista sênior do banco Inter, também enxerga o risco de uma escalada do dólar no fim de ano como pouco provável. “O conjunto de riscos já não é mais tão desfavorável quanto no final do ano passado.”

O economista do Inter pondera ainda que, mesmo se ocorrer um estresse cambial no fim do ano, o BC tende a intervir para evitar disfuncionalidades. “Devemos inclusive ver uma intervenção mais intensa no mercado no fim de ano com os leilões de linha, que providenciam mais oferta de dólares e acalmam o mercado.”

Contraponto

Na contramão desse movimento positivo para o real, analistas vislumbram a possibilidade de ocorrer aceleração de remessas de dividendos e juros sobre capital próprio para fora do país.

Esse movimento tende a se intensificar com a sanção da nova lei do imposto de renda (IR). A legislação criou uma taxação mínima de 10% sobre proventos recebidos por pessoas físicas, regra que entra em vigor a partir de janeiro de 2026.

O Itaú Unibanco estimou que a saída de dólares na forma de dividendos pode mais que dobrar no quarto trimestre deste ano em relação à média histórica de US$ 15 bilhões. A casa de análise enxerga um fluxo potencial entre US$ 25 bilhões e US$ 35 bilhões de remessas entre outubro e dezembro para escapar da nova tributação.

De todo modo, Valério, do Inter, afirma que dificilmente a remessa de dividendos exerçam uma pressão sustentada sobre o câmbio num momento de liquidez abundante, como o atual.